terça-feira, 16 de junho de 2026

Ode às pessoas solitárias (ou a Liverpool dos Beatles)

"Quem sabe por que os Beatles aconteceram? É como a busca constante por entender por que você segue por um caminho e por que segue por outro. Isso tem tanto a ver com ser de Liverpool, ou ter estudado na escola Quarry Bank, ou ter crescido em uma casa onde a biblioteca estava cheia de Oscar Wilde, Whistler, Fitzgerald e de todos os livros do Clube do Livro do Mês."

John Lennon 

Liverpool conta a história de como feitos extraordinários podem surgir de circunstâncias comuns, quando as condições ideais se reúnem. Foi ali que uma nova juventude da classe trabalhadora, que, em níveis sem precedentes, teve acesso ampliado à educação, à saúde universal e à habitação pública subsidiada, encontrou espaço para transformar a maneira como o mundo ouve música.

Na Segunda Guerra Mundial, Liverpool, principal porto do Reino Unido, foi fortemente bombardeada pelos alemães. A reconstrução que veio depois foi pautada em um inédito modelo de Estado de bem-estar social. A ideia era simples: o Estado deveria garantir a todos os cidadãos um mínimo de dignidade. 

Mudanças nas leis expandiram o acesso à educação secundária. A saúde se tornou gratuita para todos os cidadãos. Moradias públicas foram construídas em massa, ao passo que cidades eram reconstruídas. Com condições de vida mínimas asseguradas, jovens de origem pobre podiam arriscar e se engajar em outras atividades que não envolviam trabalhar precocemente para garantir sua sobrevivência.

Nesse cenário específico, que existiu entre 1945 e meados dos anos 1970, nasceram e cresceram quatro meninos que formariam a maior banda de rock de todos os tempos: os Beatles. Foram rapazes que se conheceram na escola, que tiveram contato com literatura e cultura - conhecimento que usariam, mais tarde, para escrever canções. Nesses espaços, ainda que fossem maus alunos ou apresentassem mau comportamento, poderiam ter suas valências artísticas reconhecidas e valorizadas.

Por que em Liverpool? Por que na Inglaterra? Ali era uma encruzilhada, onde fluxos de ideias ganhavam densidade. O porto de Liverpool era uma porta aberta para os Estados Unidos, no momento em que o Reino Unido passava o bastão de maior potência global para sua ex-colônia do outro lado do Atlântico. A proximidade cultural e linguística permitiu que discos de música negra americana começassem a circular entre a juventude liverpudliana.

O som de músicos americanos negros esbarrava nas políticas de segregação racial que ainda existiam nos Estados Unidos dos anos 1960. As rádios eram segregadas, os meios de comunicação de massa eram uma engrenagem importante de um sistema que favorecia artistas brancos. Na Inglaterra, por outro lado, esses discos foram interpretados sem o filtro racial. Os jovens viram naquele som rebeldia, liberdade e uma estrutura rítmica e musical inovadora.

Os Beatles, jovens brancos ingleses com cortes de cabelo subversivos, mas vestindo ternos perfeitamente alinhados, eram muito mais palatáveis para o mercado cultural branco global. Funcionaram como um vetor de popularização do rock, reinterpretando influências da música negra americana atingindo um público mais amplo. Quando tocaram pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1964, participaram de um dos maiores eventos televisivos da época. A música que já existia na América voltou como um grande sucesso a partir do que ficou conhecido como a Invasão Britânica.

E aí entra o fator acaso: em algum momento, jovens que poderiam nunca ter se encontrado acabaram compartilhando os mesmos espaços. Não fossem os Beatles, será que outros rapazes de Liverpool assumiriam esse papel de primeiro fenômeno pop global? É provável que sim, embora seja difícil ignorar a importância do talento individual dos membros da banda.

Ainda assim, ao olhar mais de perto para os lugares onde esses encontros aconteceram, é possível perceber que a história dos Beatles, frequentemente contada como uma sequência inevitável, é na verdade feita de desvios e ruídos. Eles foram o resultado de uma convergência de circunstâncias que, isoladamente, poderiam parecer irrelevantes ou comuns.

Foi minha segunda vez em Liverpool (clique aqui para ler Liverpool e direito ao mito). Desta vez, a viagem foi inteiramente destinada a percorrer locais importantes na história dos Beatles, buscando entender como a vida nessas coordenadas se transformou em algo tão extraordinário, que permeia toda a obra da banda. Esses locais estão descritos a seguir, organizados por regiões da cidade. Como uma antologia, cada seção é, em parte, apresentada por alguma canção e por citações dos próprios membros dos Beatles.

Links para o Spotify de algumas das músicas citadas podem ser encontrados ao longo do texto.

1. Woolton

Eleanor Rigby

"'Eleanor Rigby' se inspira numa senhora com quem eu me dava muito bem. Nem sei como conheci 'Eleanor Rigby', mas eu costumava ir até a casa dela, e isso foi mais que uma ou duas vezes. Descobri que ela morava sozinha, então eu ia lá jogar conversa fora, o que é meio doido se você pensar que sou um rapazinho de Liverpool. Mais tarde, eu me oferecia para fazer as compras para ela. Ela me dava uma lista, eu buscava os itens, e depois sentávamos na cozinha dela. (...) Então, eu a visitava, e só de ouvir suas histórias a minha alma se enriquecia, influenciando as canções que eu escreveria mais tarde.

Esse é o problema de contar uma história, sabe? Mesmo para quem esteve lá, e é claro que eu estava, às vezes é muito difícil de contar os detalhes. É como a história de que o nome 'Eleanor Rigby' consta numa lápide no cemitério da Igreja de São Pedro, em Woolton, por onde John e eu certamente perambulamos, falando sem parar sobre nosso futuro. Eu não me lembro de ter visto o túmulo ali, mas acho que posso ter registrado isso subliminarmente."

Paul McCartney, As Letras

Foi em um sábado, dia 6 de julho de 1957, que John Lennon e Paul McCartney se conheceram, em uma quermesse nos jardins da igreja de St. Peter. Esse é o local do mito de fundação dos Beatles, mas, antes de tudo, símbolo da vida local do bairro de Woolton. Para chegar até ali, foram quase uma hora de ônibus desde o centro, contando com uma baldeação já quase nos limites da cidade, perto do aeroporto.

Woolton é o que se entende por subúrbio no Reino Unido. São regiões de muitas casas geminadas, que seguem um padrão bem uniforme em sua disposição. As construções são predominantemente feitas com tijolos avermelhados, produzidos localmente com uma argila barata, amplamente disponível e muito rica em ferro. Acabaram se tornando o símbolo da identidade estética nacional.

Construída em pedra escura, típica do norte da Inglaterra, a igreja anglicana de St. Peter fica no topo de uma colina na principal rua do bairro. Sua sobriedade lembra, em escala muito menor, a tradição arquitetônica representada pela Liverpool Cathedral, construída com pedras trazidas de Woolton. Como muitas igrejas anglicanas, está profundamente enraizada na vida comunitária do bairro.

Os jardins da parte traseira foram, talvez, um dos lugares mais inusitados possíveis para o encontro que causaria um terremoto na cultura popular ocidental. Ivan Vaughan, colega de escola de Paul McCartney, o convidou para ir assistir aos Quarrymen - banda de skiffle que John Lennon havia formado em sua escola, a Quarry Bank -, com a qual havia tocado algumas vezes.

O skiffle foi uma febre entre os ingleses dos anos 1950: um gênero feito com instrumentos baratos e qualquer material à disposição, baseado na ideia de que qualquer um poderia fazer música. Foi com esse espírito "faça você mesmo" que a classe trabalhadora começou a criar canções de modo artesanal, aprendendo de ouvido e de uns com os outros. Ali se formava o embrião do rock britânico.

Quando John Lennon e Paul McCartney se viram pela primeira vez, houve uma atração mútua. Paul se impressionava com a atitude de John - um rapaz mais velho que já liderava sua própria banda e tinha grande desenvoltura para improvisar letras de música quando não lembrava exatamente a versão original das canções. John, por sua vez, se impressionava com aquele garoto imberbe que sabia afinar o violão de ouvido, dominava mais acordes do que qualquer membro de sua banda e tocava de um jeito incomum, invertido, por ser canhoto.

Foi na música que a conexão entre os dois se forjou. Os Quarrymen tocavam canções como Maggie Mae, um folk de Liverpool sobre uma prostituta que roubava o coração dos marinheiros no porto. Em resposta, Paul apresentou sua versão de Twenty Flight Rock, performance que fez John perceber, quase imediatamente, que aquele garoto precisava estar em sua banda.

Em seguida, os laços entre eles foram se aprofundando também a partir da dor, da solidão e das perdas, sobretudo pela morte de suas respectivas mães na adolescência. Mary, mãe de Paul McCartney, morreu de câncer de mama quando ele tinha 14 anos, experiência que mais tarde ecoaria em canções como Let It Be. Julia, mãe de John Lennon, morreu atropelada quando ele tinha 17 anos, e mais tarde seria lembrada de forma explícita na canção Julia. A amizade entre os dois se desenvolveu como reconhecimento: duas experiências diferentes de perda que ajudaram a moldar a intensidade com que atravessariam juntos o furacão da Beatlemania.

A amizade foi tão profunda que gerou um acordo difícil de ser desfeito: qualquer música composta por um dos dois seria creditada à dupla Lennon-McCartney. De fato, durante a carreira dos Beatles, em muitos momentos foi impossível dizer exatamente onde terminava a contribuição de um e começava a de outro. O resultado foi uma das colaborações criativas mais importantes da música popular, marcada, ao mesmo tempo, por complementaridade e por uma constante rivalidade criativa.

A igreja de St. Peter, contudo, apesar da importância simbólica como local da gênese dos Beatles, ficou famosa na sua iconografia por um outro motivo: o túmulo de Eleanor Rigby. As igrejas paroquiais anglicanas costumam ficar em jardins que funcionam também como cemitério comunitário - eu já havia visto outras parecidas no caminho até ali. Fãs que, assim como eu, se propuseram a percorrer locais importantes da história do grupo imediatamente identificam uma estranha coincidência: existe ali enterrada uma pessoa com o mesmo nome de uma das canções mais famosas do quarteto de Liverpool.

A inspiração direta para o título da canção nunca foi confirmada pelos autores. Aparentemente, também a julgar pela quantidade de túmulos de pessoas da família "Rigby" no cemitério, era um nome muito comum em Woolton. Além disso, a algumas sepulturas ao lado, aparece o nome McKenzie, presente na mesma canção. Certamente os nomes faziam parte do repertório de nomes imaginários para personagens de músicas da dupla Lennon-McCartney.

É aí, no entanto, que alguns fatos e coincidências que começam a partir de um momento real entram para a história como lendas e folclore. Enquanto estive ali visitando a igreja, constantemente chegavam turistas de táxi para tirar uma foto com o túmulo, que tem um tratamento especial pela administração do cemitério - mais limpo e lustrado que outros ao seu redor. Tratamos como verdade que Eleanor Rigby, a solitária senhora da música cujo funeral não teria tido visitantes, existiu e está enterrada ali.

Eleanor Rigby acrescenta uma dimensão poética ao lugar onde os Beatles começaram. Uma das músicas mais bonitas da história da banda, que promoveu o encontro entre o rock e elementos da música clássica, era, no fim, dedicada às pessoas solitárias do mundo. O estilo da música, inspirado nas cordas da trilha sonora de suspense do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, curiosamente combina com o clima sóbrio daquela igreja com cemitério em um subúrbio do norte da Inglaterra.

Há algo comovente em estar ali, onde o cotidiano do bairro continua a existir ao lado de algo que, sem alarde, ganhou proporções muito maiores. Cheguei a Woolton junto com famílias que levavam seus filhos para atividades no clube do bairro; a igreja promovia eventos culturais, e uma pequena feira de rua vendia produtos locais enquanto arrecadava fundos para causas comunitárias. Nada ali parece excepcional. Ainda assim, é nesse mesmo espaço que a música resiste ao tempo, transformando nomes comuns em algo que continua sendo lembrado.

Túmulo de Eleanor Rigby

Cemitério da igreja de St. Peter


Igreja de St. Peter





Bairro de Woolton

Clube comunitário de Woolton

Feira de rua

Rua em Woolton

Strawberry Fields Forever

"Strawberry Fields é um lugar real. Depois que deixei de viver em Penny Lane, mudei-me para a casa de minha tia, nos subúrbios de Liverpool, um lugar simpático, meio isolado, com um jardim, e médicos, advogados, essa gente, como vizinhança - não exatamente a promíscua imagem de miséria que todas as histórias sobre os Beatles haviam projetado. Na escala social, seria um ponto acima de Paul, George e Ringo, que moravam em casas populares financiadas pelo governo. Nós tínhamos nossa casa e um jardim. Perto, havia Strawberry Field, uma casa próxima de um reformatório para rapazes, onde eu costumava ir, quando criança, às festas, com meus amigos Nigel e Pete. Íamos lá, nos divertíamos e vendíamos garrafas de limonada por um tostão. Era divertido Strawberry Field.

'Viver é fácil com os olhos fechados, confundindo tudo o que você vê.' É ainda assim, não é? Eu não digo a mesma coisa hoje em dia? A ideia que eu aparentemente tentava expressar era - digamos que eu sempre fui, de certa forma, sabido. Era sabido no jardim de infância, era diferente dos outros. Fui diferente toda a minha vida. O segundo verso diz: 'Acho que não há ninguém na minha árvore'. Bem, eu era muito tímido e inseguro. Ninguém parece ser tão diferente como eu, era o que eu dizia. Portanto, devo ser um louco ou um gênio - 'Acho que deve ser tudo ou nada', diz o verso seguinte. Era assustador, pois eu não tinha bem como me expressar. Nem minha tia, nem meus amigos, ninguém percebia o que eu percebia. Era muito assustador. Eu sentia o que era a solidão."

John Lennon, em entrevista à Playboy 

 


Entre os anônimos solitários enterrados no cemitério da igreja de St. Peter está o tio de John Lennon, George Smith. O tio George foi casado com Mimi, tia materna de John, com quem acabou assumindo a guarda do jovem Lennon quando ele tinha cinco anos de idade. O motivo de ele estar enterrado ali, provavelmente, se dá pela proximidade geográfica com sua residência, a casa de Mendips, onde John viveu em sua infância e adolescência sob a tutela dos tios. Chegar até ali, desde o cemitério, me levou cerca de 20 minutos a pé.

A morte precoce do tio George, em 1955, aos 52 anos, foi uma das primeiras perdas significativas que John teve de enfrentar, ainda na adolescência. George foi o responsável por presentear John com seu primeiro instrumento musical, uma gaita, muito marcante nas primeiras composições dos Beatles, como Love Me Do.

A infância de John foi atravessada por ausências e rearranjos familiares. Seu pai, o marinheiro mercante Alfred Lennon, passava longos períodos fora de casa, até que desapareceu completamente de sua vida, indo viver fora do país com outra família. Sua mãe, Julia Lennon, de quem herdou o lado musical, também formou uma nova família enquanto ainda era casada legalmente com Alfred - algo considerado imoral para as normas sociais da época. Coube à tia Mimi, irmã de Julia, e seu marido, George, com condições de vida mais estáveis e sem filhos, cuidarem de John.

Essa configuração instável teve efeito em sua formação emocional. Julia, embora mantivesse contato frequente, não esteve sempre presente de forma contínua. Em um período em que mãe e filho haviam se reaproximado, ela acabou morrendo precocemente ao ser atropelada por um policial fora de serviço, que estaria embriagado segundo alguns relatos. Mimi, de perfil mais rígido e disciplinador, nunca conseguiu suprir essa lacuna afetiva.



Nesse pedaço de Liverpool, entramos um pouco mais na intimidade de John e começamos a perceber como tantas rupturas afetivas influenciariam sua obra. O refúgio imaginário e afetivo que encontrava para lidar com essas ausências estava em um jardim que podia ser visto da janela de seu quarto: o Strawberry Field (no singular, como o lugar real, distinto da versão plural que mais tarde ganharia forma na música).

Olhado pela perspectiva de uma criança que cresceu ali, cujo mundo conhecido não ia muito além daquele quarteirão, o fascínio do lugar se revela imediatamente. Em meio a uma avenida larga, diante de um parque aberto que parece ainda mais vazio sob as poucas horas de luz do norte da Inglaterra - sobretudo naqueles dias de fim de outono, quando as árvores já haviam perdido suas folhas - surge o portão vermelho como um morango, alegre, que contrasta com o cinza ao redor.

Havia ali, para além do belo portão, uma mansão vitoriana, adquirida em 1936 pelo Exército da Salvação e demolida em 1973 por problemas financeiros e estruturais. Até 2005, o lugar funcionou como uma casa de abrigo para crianças. Todo ano, o pequeno John frequentava as festas de verão organizadas nos jardins, onde a banda do abrigo sempre tocava.

Ainda em sua curta vida de 40 anos, dos quais a maior parte vivida em Mendips, John fez uma grande doação para Strawberry Field. Após sua morte, Yoko Ono fez outra, incluindo gravações, foto e um poema, além de ter construído um jardim semelhante no Central Park de Nova York, em frente ao edifício Dakota, onde John passou seus últimos anos.

Desde 2019, existe uma exposição que aborda o Exército da Salvação, o antigo lar infantil e sua relação com John. É uma experiência interativa multimídia, que conta com fotos, documentos e depoimentos de parentes e amigos de John. A exposição tem como pano de fundo a composição de Strawberry Fields Forever e inclui bastidores curiosos, como o fato de a música ter sido escrita em Málaga, na Espanha; de não ter atingido o topo das paradas britânicas devido à decisão comercial de lançar um single com dois lados A; e de ter inspirado a inclusão de letras de músicas nos encartes de álbuns. Há ainda duas fotografias lado a lado que mostram a semelhança entre o edifício de Strawberry Field e o Dakota, insinuando que John poderia ter escolhido morar ali de forma subconsciente por esse motivo. O destaque é, contudo, o piano original usado na composição e gravação de Imagine.

A parte mais emocionante fica no final da exposição, onde vemos como a música pode ter um impacto muito positivo sobre as pessoas. Havia um mural com artistas que gravaram suas próprias versões da canção, com destaque para um coral formado por pessoas com deficiência intelectual acolhidas pelo Strawberry Field, que, apesar da enorme fama, nunca deixou de lado seu propósito original como espaço de acolhimento. Muitas dessas pessoas trabalham no café e na lojinha do museu, cujo lucro é revertido em iniciativas que promovem a inclusão e a inserção de jovens com dificuldades de aprendizagem no mercado de trabalho.

Casa de infância do John Lennon

Portão de Strawberry Field

Café temático em Strawberry Field

Portão original dentro dos jardins de Stawberry Field


Exposição do piano usado na gravação de Imagine

Ponto de ônibus para Penny Lane


2. Penny Lane


Penny Lane
Quando eu ia à casa de John em Liverpool, eu baldeava de ônibus na rotatória Penny Lane, no cruzamento da Church Road com a Smithdown Road. Além de ser um terminal de ônibus que marcou a minha vida e a de John - muitas vezes servia como ponto de encontro -, a Igreja de St. Barnabas, onde eu participava do coral, ficava pertinho dali. Portanto, esse local ressoa de várias maneiras; ainda está em meus ouvidos e meus olhos ('in my ears and in my eyes')

Paul McCartney, As Letras 


Em Strawberry Field, muitas linhas de ônibus levam a Penny Lane, outro lugar de Liverpool que virou uma música dos Beatles. Penny Lane, nos tempos de infância dos quatro rapazes, contava com um pequeno terminal de ônibus em meio a uma rotatória, originalmente criado como um entroncamento para os bondes. Ainda hoje, é um ponto de referência por onde muitos ônibus que ligam o centro ao subúrbio passam.

Enquanto Strawberry Fields Forever menciona que viver é fácil de olhos fechados, Penny Lane fala sobre cumprimentar pessoas na rua, crianças sorrindo, um barbeiro simpático e uma enfermeira bonita. Ambas as faixas foram compostas na mesma época e lançadas juntas, como um single de lado A duplo. Na prática, isso significou que nenhuma música seria mais promovida que outra, e evidenciou um momento em que a rivalidade criativa entre Paul e John estava em alta.

Penny Lane foi uma resposta de Paul ao Strawberry Fields Forever de John. Em 1967, os Beatles estavam próximos de atingir sua maturidade criativa, depois de anos em que viviam em turnês constantes, muitas vezes sem tempo para aprimorar sua técnica ou experimentar novos recursos em estúdio. As letras deixavam de tratar apenas de relacionamentos amorosos adolescentes e passavam a explorar temas introspectivos ou cotidianos. Nesse momento, a busca por inspiração os levou às próprias infâncias em Liverpool.

Essas músicas mostram, ainda, a dualidade de personalidades que foi um dos grandes segredos do sucesso dos Beatles. John abraçava a vanguarda e a psicodelia, ao passo que Paul compôs uma das músicas mais luminosas da banda. Penny Lane não conta uma história linear, mas traz cenas fragmentadas de personagens da vida comum, em um estilo teatral e impressionista. Era o otimismo encontrado em uma saída à rua equilibrando o pessimismo de uma infância solitária; a nostalgia em contraste com a melancolia.

Andei por toda a rua de Penny Lane, de uma ponta a outra, desde a esquina com a Greenbank Road até a rotatória imortalizada pela canção. Vi ali, antes de tudo, o céu azulado tão cantado no refrão, apesar do dia nublado. As casas são baixas, e o céu pode ser visto sem obstáculos no horizonte. Em um determinado momento, a rua passa sobre uma linha de trem, como um viaduto, que acaba sendo um mirante para o céu suburbano que esteve nos olhos e ouvidos de Paul. As placas com o nome da rua, que em Liverpool costumam ficar no nível do chão, viraram um dos mais concorridos pontos de adoração da geografia dos Beatles. A rua é principalmente residencial e as casas, já decoradas para o Natal, com guirlandas nas portas e luzes nas janelas, tinham um ar acolhedor.

Os lugares mencionados na música não representam necessariamente lugares reais. Em alguns casos, os estabelecimentos deixaram de existir tais como eram. Onde ficava o abrigo no meio da rotatória ("the shelter in the middle of a roundabout") tem hoje um abandonado Sgt. Pepper's Bistro, investimento fracassado de um empreendedor que adquiriu o lugar nos anos 1980. Havia três bancos ali; hoje, o local foi ocupado por construções diferentes, como hotel e clínica. O corpo de bombeiros mais próximo - de onde o bombeiro da canção supostamente teria saído antes de correr da chuva - foi fechado em 2015. A barbearia que mostra fotos dos clientes, no entanto, foi inspirada em uma barbearia real, a Biolleti. Ela mudou de proprietário ao longo do tempo e hoje se chama Tony Slavin, funcionando como um local de memória, mas, principalmente, como a barbearia que de fato é.

É necessária, assim, uma certa força de vontade e imaginação para enxergar elementos específicos da música no lugar - o que não torna a experiência de estar ali menos interessante. Pelo contrário, isso mantém sua autenticidade e nos permite ver como a memória imaginada da música convive com o cotidiano atual.

A música trouxe uma nova camada sobre a rua; algumas intervenções foram feitas ali depois que ela ganhou fama mundial. O pub Dovedale Towers criou uma atmosfera temática em homenagem à banda, incluindo grafites com trechos da letra de Penny Lane. Uma horta comunitária do bairro usa os quatro beatles como espantalhos e mostra um mapa que indica lugares relacionados à música, embora deteriorado e difícil de ler. Em frente à igreja St. Barnabas, onde Paul participava do coral e foi padrinho de casamento de seu irmão, está uma estátua de John Lennon. Fora isso, o que se vê são turistas que chegam ali para tirar uma foto com a placa e pessoas vivendo suas vidas, fazendo coisas normais - como na música.

Viaduto sobre trilhos do trem em Penny Lane


Placas de rua com o nome da canção

Famosa rotatória mencionada em Penny Lane

Fim da rua e igreja St. Barnabas ao fundo


Penny Lane

Pub Dovedale Towers com letra de Penny Lane em sua fachada

Rua transversal à Penny Lane



Horta comunitária que homenageia os integrantes dos Beatles

3. Cavern Club

"Liverpool é como Nova Orleans na virada do século, mas com rock 'n' roll ao invés de jazz"

The Daily Mail, 1961


Um dia em Liverpool deve terminar na Mathew Street, onde fica o que é considerado o clube de rock mais famoso do mundo: o Cavern Club. Essa fama vem, obviamente, do fato de ser o berço dos Beatles, onde o grupo se formou como banda e, de longe, onde mais vezes se apresentou. Nesse porão apertado e abafado, no centro da cidade, eles aprenderam a tocar juntos e a lidar com um público que se tornava cada vez mais histérico durante as apresentações.

O Cavern, fundado em 1957, era originalmente dedicado ao jazz e inspirado no clube parisiense Le Caveau Français. Ao mesmo tempo, tornou-se popular por atrair trabalhadores da região com suas comidas e bebidas baratas. A inevitável decisão de torná-lo um espaço de rock se deu em 1960, diante da proliferação de centenas de grupos ligados à cena do merseybeat - movimento musical surgido às margens do rio Mersey, que banha Liverpool. Em julho de 1961, foram contabilizados 350 grupos de rock na cidade.

Antes dos Beatles se tornarem o grupo mais popular naquele palco, outras bandas haviam aberto o caminho para o rock, para desgosto dos puritanos do jazz. Primeiro vieram Cass & The Cassanovas e, depois, Rory Storm & The Hurricanes, na qual tocava Ringo Starr, um homem descolado, admirado e reconhecido pelos outros beatles como o melhor baterista de Liverpool.

A primeira apresentação de The Beatles como tal, mas ainda sem Ringo Starr, foi em 9 de fevereiro de 1961. Antes, os rapazes já haviam esporadicamente se apresentado como Quarrymen. Eles tocaram no clube de maneira estável até 3 de agosto de 1963, quando já eram um sucesso nacional: suas músicas tocavam nas rádios e o disco de estreia se destacava nas paradas. A partir desse momento, tornou-se impossível se apresentarem ali. O espaço, assim como a cidade de Liverpool, havia ficado literalmente pequeno para a banda.

Foram quase 300 apresentações dos Beatles no Cavern, algumas delas no mesmo dia. O repertório ia desde covers de rock americano e motown do fim dos anos 1950 - que os formou musicalmente -, como Long Tall Sally (Little Richard), Roll Over Beethoven (Chuck Berry) e Money (That's What I Want) (Barrett Strong), até as primeiras composições autorais, introduzidas aos poucos, como I Saw Her Standing There e One After 909. Entraram como jovenzinhos e saíram como a maior banda de rock do mundo. 

A partir de então, o Cavern virou uma espécie de templo. Hoje, funciona como ponto de consagração para artistas já estabelecidos, que sobem ao palco para reafirmar seu status no rock. Por ali passaram Oasis, The Who e os Rolling Stones, para citar alguns - há um "muro da fama" com mais dezenas de músicos e bandas. Alguns tocaram ainda antes de se tornarem conhecidos, como Queen, mostrando como o clube sempre teve a vocação de ser uma vitrine de talentos emergentes. Além disso, dali surgiram outros músicos de sucesso, como Cilla Black, camareira do clube nos tempos em que os Beatles eram as maiores estrelas, e The Hollies, que assumiram o posto de banda residente após a ascensão dos Beatles.


Em 1973, curiosamente o mesmo ano de demolição de Strawberry Field, o clube foi fechado em função das obras de construção do trem subterrâneo da cidade. Depois disso, ele funcionou como um estacionamento até ser comprado por uma empresa local, a Royal Life, que revitalizou toda a região e a transformou no que se vê hoje: um complexo de clubes, pubs e lojas, chamado de Cavern Walks. O histórico Cavern foi reconstruído o mais próximo possível de sua configuração original, utilizando os mesmos tijolos, e reaberto em 1984, quando o mundo ainda estava comovido com o assassinato de John Lennon em 1980. 

O quarteirão todo é, em grande parte, dedicado à memória dos Beatles. Quase todos os estabelecimentos referenciam, de algum modo, a banda. Há uma estátua do jovem John Lennon vestindo jaqueta de couro, como um teddy boy, e uma outra de Cilla Black. Um pouco mais adiante fica um monumento em homenagem a Eleanor Rigby e às pessoas solitárias do mundo. Até o empresário Brian Epstein, importante na história dos Beatles por tê-los descoberto durante um show no Cavern e ter gerenciado os anos iniciais de suas carreiras, tem uma estátua em sua homenagem. Há música sendo tocada ao vivo praticamente 24h por dia.

Apesar de ser impossível recriar a atmosfera original, o clube mantém um pouco dos seus ares underground. A entrada se dá por uma escada estreita, que leva a um porão baixo, quente e claustrofóbico - "dois graus mais quente que o inferno", como se dizia na época dos Beatles. As paredes têm fotos históricas, placas e memórias de artistas que passaram por lá. Havia exposta, inclusive, uma camisa da seleção brasileira autografada por Pelé.

Durante o tempo em que estive lá, se apresentava uma das bandas residentes, chamada Carbon. Como na época do merseybeat, eram amigos que se conheceram na escola e formaram um grupo. O repertório era eclético, incluindo covers de músicas dos anos 1960 até sucessos dos tempos atuais - havia, claro, música dos Beatles no meio.

O Cavern Club, como lugar, serve, assim, como um clube de rock ativo, museu do rock britânico e ponto de peregrinação que recebe gente de todo o mundo. O palco, pequeno e intimista, recebe do mesmo modo os melhores músicos de Liverpool, talentos jovens buscando seu lugar e lendas já consagradas. É onde vemos que ali foi onde tudo começou.







4. Em um ônibus qualquer, em um dia qualquer

Sempre fui uma pessoa do andar superior do ônibus, porque eu gosto da vista, e lá em cima rolavam coisas incríveis. Todo mundo fumava naquela época, e no andar superior era onde o pessoal fumava. (...)  A primeira vez que eu vi o John Lennon foi no ônibus. 
Paul McCartney, As Letras


Há diversas passagens nas letras dos Beatles que, embora não mencionem lugares explicitamente, revelam sua origem inglesa. Uma delas é a referência ao ônibus de dois andares - um verdadeiro ícone britânico -, como quando Paul diz que pegou um ônibus e subiu para o segundo andar para fumar na obra-prima A Day In The Life, que encerra magistralmente o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Poucos símbolos representam tão bem a vida comum nas cidades industriais britânicas quanto o ônibus de dois andares, projetado para transportar o maior número de pessoas ocupando o menor espaço possível das estreitas ruas. Foi, naturalmente, o meio de transporte que mais utilizei em Liverpool. Há uma pequena excitação em subir aquelas escadas e observar a cidade do andar de cima: os assentos da frente transformam a rua em uma espécie de tela ao vivo do mundo real; os de trás, em um refúgio onde jovens se encontram longe dos olhares curiosos.

Contam os biógrafos que foi assim que George Harrison entrou para os Beatles. Colega de escola de Paul, alguns anos mais novo, George teria feito uma audição para John no segundo andar de um ônibus, onde tocou Raunchy. John, inicialmente relutante por considerá-lo jovem demais, acabou admitindo-o na banda alguns dias depois, convencido pelo talento do garoto.

Eu voltava para minha acomodação em um sábado à noite, depois de ter ido ao Cavern Club. Como estava hospedado a alguns quilômetros ao sul do centro, fazia com frequência esse trajeto de ônibus. Com as pernas cansadas depois de um dia inteiro andando pela cidade e de um show no Cavern, não quis subir, naquela noite, os íngremes degraus até o andar superior.

Em uma parada próxima do portão da Chinatown, entrou um grupo de adolescentes fazendo muito barulho. Estavam vestidos como roqueiros e um deles carregava um violão nas costas; todos se dirigiam para a parte de cima do ônibus. A princípio me senti irritado, queria um pouco de silêncio naquele momento de volta para casa. Quando, contudo, o barulho e gargalhadas de sua conversa deram lugar ao som do violão do rapaz, logo passei a apreciar a música que cantavam. Era It Ain't Me Baby, de Bob Dylan, músico que teve influência decisiva sobre os Beatles.

Houve ali uma pequena epifania, que me mostrou, por fim, que toda aquela cena musical, de onde os Beatles surgiram - e que depois amplificaram - ainda estava ali diante de mim: eram jovens atravessando a cidade com instrumentos, reproduzindo rock das melhores fontes, ocupando lugares comuns de Liverpool.


sábado, 11 de abril de 2026

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #3

Este texto é a terceira parte do relato de viagem pela Islândia. Clique aqui para a Parte 1 e aqui para a Parte 2.


Um café antes do Polo Norte

A volta para a rota clássica de circum-navegação, dessa vez longe da capital, trouxe um tipo novo de movimento. O tempo nublado da noite anterior havia se transformado em uma chuva fina e persistente, que reduziu a velocidade de nossa manhã. O acampamento estava relativamente cheio, mas se esvaziava rapidamente, à medida que outros viajantes partiam com seus carros.

O acampamento, na cidade de Skagaströnd, contava com uma cozinha bem equipada; foi conveniente empregar mais tempo ali na preparação do café da manhã. Nossa rotina alimentar na campervan começava a se consolidar. Trouxemos na mala para a Islândia uma cuscuzeira, flocão de milho e tapioca, que serviriam como principais fontes de energia ao longo da viagem. De preparação muito simples, bastava água quente e uma boca de fogão. Quando passávamos por mercados nas maiores cidades, abastecíamos o carro com frutas, verduras e ovos, as bases da alimentação diária. Também tínhamos macarrão, que temperávamos com molho de tomate pronto, e eventualmente comprávamos pães e frios. Para lanches mais rápidos, recorríamos a iogurte, castanhas e barrinhas de cereal. Andávamos sempre com macarrão instantâneo para as situações mais improvisadas e, claro, compramos salsichas para fazermos o tradicional cachorro-quente.

Enquanto fazíamos nosso cuscuz, quase todos os outros campistas já haviam partido, mas duas menininhas se aproximaram para entender o que era aquela comida estranha. Logo depois, começamos a conversar com os pais. Eram uma família de holandeses que viviam em um trailer, viajando pela Europa sem muita pressa. Na mesa ao lado da nossa, na cozinha do camping, a mãe dava aula para as crianças - faziam homeschooling enquanto viajavam. Eles trouxeram o próprio veículo para a Islândia. O caminho é feito a partir de um porto na Dinamarca, o desembarque em uma pitoresca cidade a leste, Seyðisfjörður, a qual visitaríamos dentro de alguns dias. A viagem, eles nos contaram, dura três dias.

Depois da passagem pelos Westfjords, eu pensava que me acostumaria com as paisagens. Talvez houvesse algum ponto em que toda aquela beleza se tornaria para mim natural. Mas, logo depois de deixarmos o camping, passamos pelo que me lembro como um dos pedaços mais bonitos da Rota 1. Foi no trecho entre Blönduós e Varmahlíð, cujo traçado da estrada acompanha o rio Blanda. Ele ilustra bem o ciclo da água na Islândia: de uma geleira na meseta central, desce para a planície e termina em um fiorde. Ainda não havia visto um rio como aquele, que se mostrou como uma introdução à força do norte do país.

O norte, por sua vez, conta com sua própria capital, à qual chegamos logo a seguir. Akureyri tem menos encantos que Reykjavik, mas preserva os mesmos ares de pequena metrópole. Com 20 mil habitantes, é a segunda maior cidade do país fora da região metropolitana da capital. A chegada, repleta de centros comerciais, quebra brevemente a desolação da Ring Road. Localizada nas margens de um dos mais largos fiordes do país, contudo, as mesmas paisagens que tanto admirávamos no caminho estavam, também ali, presentes.

A chuva voltou a apertar e fizemos o melhor que se podia fazer por ali: tomar um café em uma casa islandesa. No alto de uma colina, bem no centro da cidade, fica o Kaffi Ilmur, uma cafeteria instalada em uma das casas mais antigas de Akureyri. Construída entre 1911 e 1916, a casa começou como uma selaria, depois se tornou uma ourivesaria, até ser restaurada pela neta do fundador e transformada em café, um século após sua construção. A atmosfera acolhedora e a mobília do século XX trouxeram muito conforto à nossa passagem pela cidade, apesar da chuva.

No destino seguinte, alcançamos, finalmente, uma das regiões vulcânicas mais fascinantes da Islândia, nos arredores do lago Mývatn. À medida que a lava se espalhou pela área, alcançou zonas úmidas; o contato com a água provocou fortes explosões de vapor, dando origem às chamadas pseudocrateras, que moldam uma paisagem dramática - visíveis em pontos ao redor do lago. Já às margens da Ring Road, fica Hverir, uma área geotérmica compacta, porém impressionante, de aspecto quase desértico, com solo tingido por minerais e pouca vegetação, onde poças de lama borbulhante expelem gases quentes com forte cheiro de enxofre.

Encerramos a passagem por Mývatn como ela merecia: mergulhando nos banhos termais. Permanecemos nas piscinas até o dia escurecer, embora tivéssemos sido informados de que o lugar nunca fecha (apesar de o horário oficial indicar funcionamento até as 22h). São águas aquecidas naturalmente pela atividade geotérmica, cujos minerais a deixam com uma coloração azul leitosa. A temperatura varia entre 36°C e 40°C, proporcionando um relaxamento imediato, sobretudo pelo contraste com a atmosfera fria. A piscina, em meio a um entorno vulcânico, tem borda infinita, enquanto o vapor sobe constantemente. O único inconveniente é o cheiro de enxofre, que lembra ovo podre.


Hverir

Centro de Akureyri

Cinema em Akureyri


Café Kaffi Ilmur

Banhos termais de Mývatn


Baleias em Husavík

O dia amanheceu sem chuva em Husavík, cidade portuária de 2500 habitantes, conhecida como um dos melhores lugares do mundo para observação de baleias. Localizada em uma baía relativamente fechada, com abundância de alimento e alta biodiversidade marinha, em razão do encontro da corrente fria do Ártico com águas mais temperadas, é um destino que reúne condições específicas muito favoráveis para a presença desses grandes mamíferos marinhos.

O acampamento em que passamos a noite havia sido o mais cheio até então. No dia anterior, quando chegamos, havia no ar um cheiro forte de peixe, que já trazia as primeiras sensações do mar e antecipava o tom de nossa passagem por Husavík. Praticamente dentro da cidade, situava-se ao lado de um campo de futebol com vistas para a baía. Como a saída da excursão que contratamos para ver baleias seria apenas às uma da tarde, aproveitamos para dormir mais, tomar café da manhã e lavar as roupas, usando a máquina disponível no local.

Quando chegou a hora, pegamos a van e nos dirigimos até o icônico centrinho da cidade para o embarque. Ali havia uma igreja de madeira, em estilo chalé suíço, que, somada ao porto e às montanhas, conferia um clima rústico e tradicional à cidade. Em frente à igreja, havia um píer, com acesso ao porto, onde as agências que organizam os passeios se localizam.

No escritório de nossa agência, recebemos algumas instruções e fomos fortemente instruídos a comprar remédio para enjoo - o mar estava agitado naqueles dias. Havia um enfático aviso sobre o fim da temporada de avistamento dos papagaios-do-mar (lundi no idioma local), outro ícone islandês que pode ser facilmente encontrado na região entre os meses de verão, de maio a agosto. De aparência fofa e quase caricata, lembrando um pinguim, o animal vive majoritariamente no Atlântico Norte, disperso pelo oceano durante o inverno. No verão, muitos retornam à costa islandesa para se reproduzir. Estima-se que cerca de 60% da população mundial da espécie esteja na Islândia.

Sobre as baleias, a agência, chamada Gentle Giants, anunciava com orgulho que, no ano anterior, 99% das saídas tiveram sucesso na observação do animal. De tradição familiar, acumulam 160 anos de experiência nesses mares, - antes com pesca, hoje com turismo - iniciada com o tataravô do atual dono. A própria embarcação usada na excursão mantém a tradição dos antigos barcos de pesca, feitos de carvalho. A empresa forneceu, ainda, vestimentas de flutuação que mantinham o corpo bem aquecido, além de coletes salva-vidas. Em um mastro central, os guias indicavam a direção em que as baleias apareciam utilizando um sistema semelhante ao de um relógio de ponteiros: as 12 horas correspondem à parte frontal da embarcação, as 6 horas à traseira, e assim por diante.

Pouco tempo passou até que a primeira baleia aparecesse. Mamíferos que são, elas precisam nadar até a superfície de tempos em tempos para poder respirar com seus pulmões. Nesse processo, seu espiráculo - o orifício no topo da cabeça - libera ar quente com água condensada, que se assemelha a um jato d'água, visível de longe e frequentemente usado como primeira evidência de presença de baleias na área. Seu movimento segue um padrão ondulatório: primeiro, a cabeça emerge e o vapor é expelido; em seguida, surge o dorso; por fim, aparece a cauda, que fornece o impulso necessário para o mergulho. Isso nos permite, mesmo na superfície, observar toda a amplitude de seus corpos.

A única espécie que conseguimos observar dessa vez foi a baleia-de-bico-de-garrafa, típica das águas frias do Atlântico Norte. Há ao menos uma dezena de outras espécies de baleias e golfinhos que frequentam a baía, como a baleia-jubarte, a orca e até a baleia-azul, o maior animal do planeta. Por alguns instantes, as baleias emergiam, mergulhavam e, pouco depois, reapareciam a muitos metros de distância. O protocolo da embarcação recomenda manter uma distância entre 300 m e 50 m dos animais, sendo necessário desligar o motor quando essa distância se torna muito pequena. Em um ambiente selvagem e imprevisível, não foi um dia de muita sorte. Os melhores avistamentos ocorreram na primeira hora da excursão, que se prolongou por mais três horas na busca por outras espécies. O barco balançava bastante, e boa parte dos passageiros começou a sofrer com o mal-estar.

Em terra firme, recuperamos um pouco as forças almoçando o tradicional prato de fish and chips que podia ser facilmente encontrado no porto, preparado com peixes frescos. Depois, seguimos viagem por um itinerário chamado Círculo de Diamantes, roteiro turístico que passa pelo Lago Myvatn, Husavík e a cachoeira Dettifoss - a maior da Europa em volume d'água -, o local que ainda nos faltava conhecer no norte do país.

Ao deixar a baía onde se localiza Husavík pela Rota 85, passamos a dirigir ao longo da costa aberta do Oceano Ártico. Em algum momento do trajeto, cruzamos o ponto mais setentrional de nossas vidas, superando em alguns graus de latitude a altura que alcançamos durante nossa passagem pelos Westfjords. A partir dali, a viagem começou a se voltar para o sul - e, com ela, a sensação gradual de aproximação do fim.






Husavík



Dettifoss

Um fim que retorna ao início

Depois que deixamos a cachoeira Dettifoss, seguimos até o acampamento Fjalladýrð, em Möðrudalur. Chegar ali foi uma surpresa reconfortante. Em meio a uma região selvagem, após dirigirmos por muitos quilômetros à noite sem ver mais ninguém na estrada, saímos da Rota 1 por um acesso secundário, a Rota 901, até chegarmos ao povoado onde fica o acampamento. Foi como um oásis no deserto.

Möðrudalur é a fazenda mais alta da Islândia, habitada desde os tempos da colonização. Em nossa viagem, foi o mais próximo que chegamos das terras altas islandesas, região central inabitada da ilha. Embora em localização remota, a fazenda é praticamente autossuficiente e conta com estrutura de acomodação, restaurante e lazer. Ao chegarmos, nos permitimos jantar no tradicional restaurante, cujas comidas são preparadas com recursos locais. As casas por ali foram todas construídas com a antiga técnica de turfa, o que deixa o local ainda mais charmoso e autêntico. Como acampamento, não havia, contudo, tanta comodidade na área externa, um espaço muito amplo onde a cozinha, chuveiro e banheiro ficavam muito distantes entre si.

Pela manhã, pudemos apreciar melhor as belezas da fazenda. O mais encantador foram os animais que vivem nas redondezas. Entre animais domésticos e semidomesticados, vimos coelhos selvagens e três raposas-do-ártico. Há ainda uma rena que é alimentada pelos proprietários, mas que não apareceu durante nossa passagem por ali. Não muito longe da fazenda fica o glaciar Vatnajökull, cujas áreas ao redor são habitadas por renas selvagens. É o único lugar da Islândia onde esses animais vivem livremente.

O que se seguiu à estadia na fazenda foi uma travessia mais rápida pelas regiões leste e sul da ilha, com menos pausas. Cabe, neste ponto, descrever um pouco a magnitude do Vatnajökull, um imenso glaciar - um dos maiores do mundo, sendo o maior fora de regiões polares - que cobre cerca de 8% do território islandês. Ele domina a paisagem da região: ao se observar o mapa da Islândia, é a mancha branca, a sudeste, que rapidamente chama a atenção. Com cerca de 8300 km², sua extensão alcança regiões costeiras por onde passa a Ring Road, embora ali não tenham se formado grandes povoados. Seu tamanho é três vezes maior que a área de Luxemburgo, e a espessura da camada de gelo varia entre 400 m e 600 m. Por baixo de tanto gelo, existem morros, vales e vulcões ativos.

Foi nesse momento que começamos a enfrentar condições climáticas mais adversas. Fizemos um pequeno desvio na Ring Road para conhecer Seyðisfjörður. O caminho se dá pela Rota 93, a partir de Egilsstaðir, por uma estrada de serra. Havia tanta neblina que a visibilidade não passava de poucos metros à frente. Ao chegar a Seyðisfjörður, no entanto, vimos que o trajeto difícil havia valido a pena. Rodeada por montanhas, com altas quedas d’água descendo em direção ao povoado, tive a impressão de que, após tantos dias, estava enfim diante da cidade mais bonita do país - embora ainda achasse que, na Islândia, o lugar mais bonito fosse sempre o próximo. As poucas construções coloridas, como a igreja azul, e as intervenções artísticas da engajada comunidade conferem ao lugar uma beleza que a geografia já havia começado e os moradores decidiram terminar.

Casa turfa no acampamento Fjalladýrð


Acampamento Fjalladýrð

Raposa-do-ártico


Seyðisfjörður




Encontramos em Höfn, povoado com 2500 habitantes, praticamente a única opção de pernoite no sudeste da ilha. O camping estava muito cheio, já indicando um fluxo maior de turistas vindos de Reykjavik, de onde saem muitas excursões pela região sul. Nos 200 km seguintes de estrada, até Kirkjubæjarklaustur, ficam uma série de lagos glaciais, deltas de rio com areia negra, desertos costeiros e campos de lava. Só não há uma cidade.

Nessa viagem, eu já havia feito muitas coisas pela primeira vez: viajado em uma campervan, visto a aurora boreal, alcançado latitudes quase polares. Ainda assim, o caminho de volta ainda reservava experiências fantásticas. Ao longo desse trecho, dezenas de rios de gelo descem do Vatnajökull, muitos deles visíveis desde a estrada, permitindo acompanhar o trajeto do gelo montanha abaixo. A água do degelo se infiltra por fendas, túneis e canais no interior do glaciar, formando verdadeiros sistemas subterrâneos. À medida que se acumula, busca saídas nas bordas do gelo, emergindo com força na forma dos chamados rios glaciais.

A lagoa Jökulsárlón talvez seja o mais impressionante exemplo dessas formações ao longo do caminho. Ali, o volume de água é maior, formando um lago facilmente acessível desde a Ring Road. Blocos de gelo se desprendem do glaciar, dando origem a icebergs de tonalidade azul cristalina e formas variadas, esculpidas pelo tempo e pelo vento. Eles podem passar até cinco anos à deriva no lago, seguindo lentamente pelo rio Jökulsá, o mais curto da Islândia, até desaguarem no Atlântico, na chamada Praia dos Diamantes. Passamos algum tempo explorando a lagoa, o rio e a praia, e, para tornar a experiência ainda mais especial, vimos focas nadando por aquelas águas. Fomos então surpreendidos por uma chuva acompanhada de vento forte, que nos obrigou a retornar para a van.

Por muitos séculos, os rios glaciais do sul foram obstáculos difíceis para os viajantes. Foi apenas em 1974, com a construção da ponte sobre o rio Skeiðará, que o último elo da Ring Road se completou, permitindo a circunavegação total da ilha e reduzindo o isolamento dessa região. Ainda hoje, no entanto, esses rios podem encher rapidamente e destruir a estrada com relativa facilidade. Foi o que aconteceu poucas semanas depois de nossa passagem por ali, na região de Höfn. Uma inundação levou parte do asfalto e, sem rotas alternativas para chegar a Reykjavík, viajantes foram obrigados a dar a volta completa pela ilha, pelo norte.

Trata-se, sobretudo, de uma região dinâmica. A lagoa Jökulsárlón, por exemplo, apesar de lembrar uma paisagem da Era do Gelo, existe há menos de cem anos. O imenso Vatnajökull, por sua vez, vem encolhendo com as mudanças climáticas, recuando progressivamente e se afastando do litoral. Nada ali é fixo: o gelo avança e recua, os rios mudam de curso, a terra se refaz. O que mais impressiona é a sensação de que, naquele pedaço do mundo, a paisagem ainda está em construção.


Lago glacial Jökulsárlón

Rio glacial descendo pela montanha

Rio Jökulsá



Vík í Mýrdal

Vista de Vík í Mýrdal a partir da praia de areia negra

Tivemos uma passagem rápida por Vík í Mýrdal, o ponto habitado mais ao sul da Islândia, conhecido por sua extensa praia de areia negra. Com menos de mil habitantes, o povoado funciona como um pequeno polo de serviços, com restaurantes, mercados e postos de gasolina, além de ter um caráter surpreendentemente cosmopolita: pesquisadores de diversas partes do mundo passam pela região para estudar vulcanismo na universidade local. Por ser um ponto conveniente de parada na estrada, aproveitamos para visitar a piscina pública e tomar banho ali. Como espaço de convivência dos moradores, pudemos observar um fluxo de estrangeiros residentes - não turistas - conversando em inglês, trocando impressões sobre vida e trabalho na região.

Quando paramos no acampamento próximo ao vilarejo de Hella para passar a noite, recebemos o último sinal de que poderíamos concluir a viagem em paz. As luzes da aurora boreal, que haviam aparecido em nossa primeira noite na Ring Road, voltaram a surgir agora, quase no fim do percurso. Desta vez, estávamos em um acampamento vazio, éramos praticamente os únicos ali. Todas as noites anteriores haviam sido nubladas, por vezes chuvosas, sem qualquer chance de ver as luzes. Naquela noite, porém, o céu estava mais aberto, e eu ainda alimentava a esperança de poder vê-las uma última vez antes de partir.

Já dentro da van, depois do jantar, eu observava o céu quando notei um clarão esbranquiçado. Sem qualquer experiência em identificar auroras boreais, ainda assim sabia que aquilo não era uma nuvem comum. A tonalidade era clara e densa, não acinzentada e difusa como costumam ser as nuvens. A confirmação veio pelas lentes da câmera do celular: ao apontá-la para o céu, surgiu o verde inconfundível. A aurora boreal havia aparecido novamente para nós.

O sono durante aquela noite talvez tenha sido o melhor de todos, em que um sonho foi vivido sem a sensação de que o despertar poria fim àquilo. Na manhã seguinte, fizemos o roteiro turístico conhecido como Circuito Dourado e retornamos a Reykjavík, nosso ponto de partida. Voltávamos ao início, mas já não éramos os mesmos. A viagem se completava em forma de círculo: retornar significava, afinal, poder olhar para o mesmo lugar, mas de outra maneira.

Aurora boreal em Hella

Parque Nacional de Þingvellir (Circuito Dourado)

Geysir (Circuito Dourado)