domingo, 15 de fevereiro de 2026

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #2

Este texto é a segunda parte do relato de viagem pela Islândia. Clique aqui para a Parte 1

"Aquele é o Snæfellsjökull... um dos mais notáveis ​​em toda a ilha, e certamente destinado a ser o mais célebre do mundo, por meio de sua cratera vamos chegar ao centro da Terra" 
Viagem ao centro da Terra, Julio Verne.

Uma Ring Road dentro da Ring Road

Dormir dentro da van foi uma experiência melhor do que esperávamos. O sono foi leve, inspirado pela emoção da aurora boreal, e intenso pelo cansaço ainda não recuperado da chegada à Islândia. Apesar de ser apertada, a sensação é semelhante à de dormir em uma cama de casal; o conforto depende diretamente da qualidade do colchão, dos travesseiros e dos cobertores - que eram razoavelmente bons.

A temperatura dentro da van também não foi um problema. O aquecedor funcionava bem e, inclusive, deixava o interior mais quente do que o confortável em pouco tempo. Durante a viagem, às vezes acordávamos com frio, ligávamos o aquecedor por uns vinte minutos e voltávamos a dormir. O maior problema, no entanto, foi a claridade. Todas as janelas, exceto a frontal do motorista, já eram tapadas ou tinham cortinas, que serviam mais para garantir privacidade do que para escurecer o carro. Para isso, a única solução foi usar máscara de dormir.

Embora não afetasse muito a qualidade do sono, percebemos que o espaço reduzido atrapalharia bastante a organização do dia a dia. Como em uma barraca de camping, não era possível ficar em pé dentro do carro, o que nos obrigava a nos arrastar para nos movimentar. Por outro lado, poder acordar junto com o início de um novo dia, já praticamente prontos para viajar, trazia a deliciosa sensação de que estávamos vivendo plenamente o lugar, do nascer ao pôr do sol.

Tomamos banho no chuveiro do acampamento, preparamos o café da manhã na van e partimos rumo à Península de Snæfellsnes para percorrer um roteiro frequentemente chamado de “Islândia em miniatura”. Em nossa viagem, foi como percorrer o primeiro círculo formado quando uma pedrinha toca a superfície da água: era uma versão concentrada do país, em que a mesma essência se repetia em outra escala e intensidade, mas com a mesma força do que havíamos começado a explorar.

No pequeno anel rodoviário que contorna a península estão reunidos todos os elementos que tornam a Islândia tão fascinante: montanhas, falésias, praias de areia negra, geleiras, faróis e povoados minúsculos. Já nas redondezas de Akranes, a estrada - e a paisagem - passaram a exibir as características que nos acompanhariam por praticamente todo o percurso. A Ring Road é uma via estreita, com uma faixa em cada mão, raros acostamentos e barras amarelas dispostas nas beiradas para aumentar a visibilidade. A velocidade máxima permitida em todo o país é de 90 km/h, regra que a maioria dos motoristas respeita, mantendo velocidade e distância constantes em relação a outros veículos. A beleza, por sua vez, vem de todas as direções.

Em especial, as quedas-d’água que se formavam pelo caminho eram impressionantes. O interior do país é predominantemente planáltico, o que cria um grande desnível em relação ao litoral. Essa transição - justamente por onde passa a Ring Road - é marcada por falésias, bordas de planalto e escarpas. O degelo permanente, mesmo no verão, alimenta rios e riachos continuamente, que descem essas encostas e, guiados pelas rochas vulcânicas, formam inúmeras cachoeiras antes de finalmente alcançarem o mar. Toda a brutalidade daquele terreno encontrava um desfecho refinado, que me fazia sempre ansiar pela próxima curva.

Encantado com as vistas, eu queria parar o carro a todo momento, mas isso só era possível em pontos específicos da estrada. Algumas placas indicavam áreas de estacionamento, e logo percebi um padrão: a vista nesses estacionamentos seria ainda mais bonita. Eram lugares pensados para parar com segurança, descer e fotografar com calma. Além disso, placas com o pictograma de piquenique indicavam pontos com mesas, onde era possível descansar e até preparar uma refeição.

A rigor, o caminho do dia passou apenas muito brevemente pela Rota 1. A Península de Snæfellsnes e os Westfjords (fiordes do oeste), que viriam a seguir, são desvios em relação ao traçado clássico. Sair da rota principal significou, também, adentrar no lado mais folclórico da Islândia: Borgarnes, a cidade seguinte depois de deixarmos Akranes, está intimamente ligada à tradição literária envolvendo os primeiros colonos nórdicos que se assentaram na ilha. Seus conflitos e feitos heróicos foram preservados em textos medievais chamados sagas, sendo a Saga de Egill, ambientada nesta região, uma das mais célebres.

Conforme nos afastávamos da capital, as cidades iam ficando sucessivamente menores: dos oito mil habitantes de Akranes aos dois mil de Borgarnes, estávamos nos aproximando da região menos povoada da ilha. Diante de um cenário tão simbólico para a formação da Islândia como nação - e de cidades tão diminutas -, passávamos a dividir a estrada com fantasmas de poetas do passado, que descreveram minuciosamente uma paisagem que praticamente não mudou desde então.

Foi assim que paramos no que seria a caverna de um ser mítico do folclore escandinavo, um híbrido de troll e humano descrito na Saga de Bárðar Snæfellsáss. Diz-se que ali viveu Bárðr, guardião da península que leva seu nome e espírito tutelar da região. Mais precisamente, sua morada estaria no glaciar Snæfellsjökull, o grande protagonista daquele território. O Snæfellsjökull é um glaciar formado sobre um vulcão adormecido de formato cônico, que entrou em erupção apenas três vezes nos últimos dez mil anos. Apresenta-se como um farol natural: em dias de céu limpo, sua presença se impõe a longas distâncias.

Infelizmente, quase não restava gelo sobre o glaciar. No verão de 2012, ele desapareceu completamente pela primeira vez na história registrada. Desde então, o Snæfellsjökull, ao lado de outros glaciares do país, passou a revelar - e a denunciar - ano após ano as transformações climáticas pelas quais o planeta vem passando. Desde 2000, as áreas de geleiras na Islândia já encolheram cerca de um décimo. Em 2014, a geleira Okjökull, na região central do país, foi a primeira a ser declarada oficialmente extinta por pesquisadores.

Em Malarrif fica um instigante centro de visitantes, com mapas e informações sobre o Parque Nacional de Snæfellsjökull. Entre outras orientações, o recepcionista nos contou que a estrada que leva até o glaciar, a F-570, estava aberta e podia ser percorrida. As estradas codificadas com a letra F são estradas de montanha: ficam abertas apenas durante um breve período no verão e, por lei, só podem ser acessadas por veículos 4x4, devido à frequente necessidade de se atravessar rios ou terrenos instáveis. Antes de seguir com o percurso pelo parque, acabei acompanhando placas em direção ao glaciar e, por engano, tive uma pequena amostra do que é uma F-Road - íngreme, sinuosa, de chão de cascalho, destinada aos mais aventureiros.

Encerramos o percurso passando por outras atrações do parque. Primeiro paramos em Djúpalónssandur e Dritvík, duas das mais conhecidas praias de areia negra do país, formadas por antigos derramamentos de lava que se solidificaram ao encontrar o mar. Ali, o oceano revela sua força: sobre o solo de seixos negros estão propositalmente espalhados os destroços de um navio britânico que naufragou naquele ponto, preservados como lembrança permanente dos perigos do Atlântico Norte.

Em seguida, fomos a Öndverðarnes, no extremo oeste da península, um lugar que sintetiza bem o isolamento e, por que não, as doces estranhezas da Islândia. Ali fica a única praia de areia dourada de toda a ilha; o que, para o restante do mundo, é o normal, na Islândia, onde o inesperado se repete com frequência, é a exceção. Na ponta da terra, o mar se abre sem limites, o horizonte é largo e o vento sopra constante e violento. Foi ali que finalmente entendi os relatos de portas de carro arrancadas pelo vento: sair do veículo exigia destreza, e o fiz com muito cuidado, para poder caminhar e sentir a geografia extrema daquele lugar.



Centro de visitantes de Malarrif, Snæfellsjökull ao fundo






Praia de areia negra em Djúpalónssandur

Öndverðarnes, o extremo oeste da península

Digressão pelos fiordes

Em nossa segunda noite, os desconfortos de viajar de campervan começaram a se revelar. O tempo fechou, as luzes da aurora boreal não trouxeram mais suas graças, e o cansaço do dia tornou o momento de preparação do jantar menos glamoroso. Em dias claros e de bom tempo, é possível sair da van, cozinhar e comer em uma mesa ao ar livre; mas, com a escuridão, o frio, o vento ou a chuva, resta-nos o confinamento do próprio veículo. Para piorar a situação, o acampamento não dispunha de duchas: o banho era oferecido em um centro esportivo anexo, cujo funcionamento ia apenas até as 22h. Quando terminamos de jantar, já era tarde demais, e encerramos o dia sem banho. A estratégia para lidar com essas situações era usar lenço umedecido higiênico e lavar bem o rosto.

O camping ficava em Grundarfjörður, bem próximo a um dos lugares mais emblemáticos e mais fotografados de toda a Islândia: o Kirkjufell. Da janela de nossa van estacionada, era possível admirá-lo. Sua fama se deve a seu formato, um cone quase perfeito, à sua localização, em um promontório que avança em direção ao mar, e às quedas d'água que o circundam. Além disso, virou um ícone pop ao aparecer em uma famosa série de TV.

Por ali, abastecemos o carro pela primeira vez antes de rumar para os Westfjords, a região mais selvagem e menos habitada da Islândia. De modo geral, os postos de gasolina são bem distribuídos pelo país, e foi fácil encontrá-los ao longo do trajeto. Naquele momento, porém, sem saber exatamente como seria o caminho durante o restante do dia, pareceu a decisão mais prudente a tomar. Os postos funcionam em sistema de autoatendimento, com pagamento em cartão.

Com o tanque cheio, deixamos Grundarfjörður e logo já estávamos em Stykkishólmur, cidade formada em torno de um porto natural, cercado por uma ilha de basalto. É dali que parte o ferry Baldur, com destino aos Westfjords, por onde seguiríamos viagem dentro de algumas horas. Tivemos, enfim, um tempo de pausa, tanto na cidade quanto na travessia de ferry que viria em seguida. Ali conheci a verdadeira beleza das pequenas cidades islandesas: um lugar repleto de casinhas de cores vivas, erguidas no final do século XIX, que imediatamente me transmitiram uma sensação de aconchego. Entrei em uma delas, que funcionava como café - espaços que, àquela altura, já haviam irremediavelmente me conquistado. Na Islândia, o mais comum é o café filtrado, servido à vontade, trazendo calor e conforto ao corpo.

Antes de embarcarmos, fizemos também mais uma comprinha de mercado. Tamanha foi nossa surpresa quando, naquele lugar tão distante de nós, ouvimos uma mãe conversando em português com o filho, explicando que não poderia comprar todos os brinquedos que ele queria. Demoramos um pouco para processar aquele eco familiar em terra estrangeira, momento que precipitou uma longa conversa, interrompida apenas pela necessidade de chegarmos ao ferry a tempo.

Qual teria sido a trajetória de vida de uma brasileira que fora viver na Islândia? De Belém do Pará, ela nos contou que morava ali havia sete anos, depois de realizar um mestrado em Linguística na Dinamarca. Era casada com um islandês e tinham um filho - bem loiro, de bochechas rosadas e pele muito clara - que escolhia presentes para o seu aniversário de cinco anos. O menino falou português conosco, mas com um sotaque já bastante marcado e sonoridade ofuscada por sua timidez. Sobre viver na Islândia, ela manifestou certa exaustão. Disse que o país é lindo, mas que, no inverno, a falta de luz é terrível. Quanto à criação do filho, teme não encontrar ali, um país nórdico onde tudo parece idílico e perfeito, aquilo que chamou de "mundo real". Antes de nos despedirmos, perguntou se havíamos visto as luzes da aurora boreal que surgiram dois dias antes. Foi o primeiro espetáculo desse tipo no ano, e seu filho, mesmo nascido ali, se emocionava cada vez que a apreciava.

Pontualmente às três horas da tarde, o ferry para os fiordes partiu. O carro ficou estacionado no convés, e subimos para um salão de passageiros que contava com pequenos sofás, uma cafeteria e uma incrível vista panorâmica para a baía de Breiðafjörður, com suas inúmeras ilhas. Foi um convite ao descanso. O percurso pelo ferry encurta a distância da Península de Snæfellsnes para os Westfjords em ao menos duas horas e, durante o verão, é possível parar na ilha Flatey, conhecida por ser um ótimo ponto de observação de aves. Provavelmente por falta de demanda naquele dia, o ferry seguiu diretamente para o outro lado da baía.

Já na embarcação, foi possível perceber como a paisagem se endureceu. A Dorsal Mesoatlântica, que separa as placas tectônicas, passa pelo centro da ilha, fazendo a Islândia crescer do centro para as extremidades. Por ficar afastada da zona de vulcanismo mais ativo, onde terra nova é constantemente criada, a região dos Westfjords é muito mais antiga do que o restante da ilha. Há ali rochas de cerca de 16 milhões de anos, enquanto, no restante do país, o terreno tem por volta de 1 milhão. Essa região é um platô geológico, sem vulcanismo ativo, de clima subártico, fazendo lembrar o ambiente da Groelândia, um pedaço de terra ainda mais antigo, a apenas 300 km dali.

Na metáfora de a Islândia ser um planeta, os Westfjords seriam quase como um satélite, ligados ao restante da ilha por um estreito ístmo. Vistos no mapa, formam um corpo à parte, um bloco irregular que se projeta para noroeste. Como as atividades vulcânicas ali cessaram há muito tempo, o quadro natural que se vê hoje resulta muito mais da ação das geleiras do que do fogo. Faz parte do sistema islandês, mas guarda uma feição própria.

São justamente as geleiras se movendo sobre terras antigas e expostas que criam um fiorde. "Fjörður", aliás, é uma dessas palavras que vai se insinuando em nosso vocabulário quando estamos viajando pela ilha. Ao longo do caminho, aprendemos a identificar formas de relevo a partir de toponímia. Foss significa cachoeira, jökull geleira, fjall montanha. O peso e o movimento do gelo, ao longo do tempo, cortaram o platô de basalto de forma profunda, criando essas entradas de mar extremamente cavadas, rodeadas por montanhas altas de topo plano. Para os antigos vikings, que cunharam o termo, significa "por onde os viajantes passam" ou "porto seguro".

Imediatamente depois de descer do ferry, já na região dos Westfjords, andamos alguns metros de carro e logo paramos para fotografar ovelhas. Esses adoráveis animais estão espalhados por todo o país, mas ali a densidade é especialmente alta - de modo inverso à densidade humana, de apenas sete mil habitantes em uma área que ocupa cerca de 20% do território islandês. A explicação é simples: com clima muito frio, terreno íngreme e poucas terras planas e férteis para agricultura, o pastoreio foi a atividade econômica que melhor se sustentou na região. As ovelhas, resistentes ao clima e bem adaptadas ao relevo, pastam livremente durante os meses mais quentes, muitas vezes utilizando as mesmas estradas que os carros para se deslocar. No outono, voltam para suas fazendas, momento que marca um importante evento social do interior islandês chamado réttir. Nele, os agricultores reúnem os rebanhos em currais circulares para que passem o inverno abrigados. Na estrada, vimos algumas dessas estruturas, ainda vazias.

Situada nas margens do fiorde Arnarfjörður, fica uma das cachoeiras mais bonitas de toda a Islândia, a cachoeira Dynjandi (Fjallfoss). Considerada a joia dos Fiordes Ocidentais, ela fica aproximadamente no meio do caminho entre o ponto de desembarque do ferry, em Brjánslækur, e Ísafjörður, a maior cidade da região. Seu nome significa "estrondosa", em alusão ao volume de água que despenca por um declive de cerca de 100 metros de altura, abrindo-se em forma de véu de noiva. Ao longo do percurso da água, outras pequenas cachoeiras vão se formando em cascata, até o deságue final nas águas do fiorde. O momento da chegada também impressiona: a estrada vem descendo do alto da montanha, em curvas fechadas sobre o cascalho, revelando a paisagem aos poucos. Do estacionamento, sobe-se a pé por uma trilha até a cachoeira, de onde se tem a real dimensão de seu tamanho.

Por fim, conduzimos nossa casa móvel até o destino do dia, uma pequenina cidade chamada Bolungarvík, na região de Ísafjörður. Fomos pegos de surpresa quando, já próximos ao destino, deixamos para trás as vistas abertas dos fiordes e adentramos um túnel extenso, escuro e quase claustrofóbico: o Bolungarvíkurgöng. O túnel foi construído para substituir a antiga estrada costeira entre Ísafjörður e Bolungarvík, considerada a mais perigosa do país por margear penhascos sujeitos a constantes quedas de rochas e avalanches. A sensação lá dentro era de isolamento total. Havia trechos muito escuros, e era nítido que estávamos no interior de uma montanha.

O percurso de pouco mais de 5 km, praticamente retilíneo e com velocidade limitada a 70 km/h, fez o tempo de travessia parecer mais longo do que realmente é. Em boa parte do caminho, a via é única, compartilhada pelos dois sentidos, com recuos laterais para permitir a passagem de veículos em direções opostas. Na nossa travessia, no entanto, não cruzamos com nenhum carro vindo no sentido contrário. Quando saímos do outro lado, o sol, que já começava a se pôr, havia baixado ainda mais no horizonte, e a noite chegava cada vez mais cedo do que no dia anterior.

Para descansar ao fim de mais um longo dia, tivemos no camping uma experiência que poderíamos chamar de cinco estrelas. O Camping Sundlaug Bolungarvíkur ficava nos fundos do centro esportivo local e contava com uma estrutura que, dadas as condições da viagem, parecia luxo: cozinha equipada com fogão, máquina de lavar, banheiros com ducha quente e um refeitório amplo. Foi um deleite poder sentar à mesa em um ambiente fechado, preparar a própria janta em um fogão de verdade e, finalmente, tomar um banho depois da experiência improvisada da noite anterior. O centro esportivo, ao qual não chegamos a entrar, mas que era acessível pelo próprio refeitório, oferecia ainda piscina aquecida, hidromassagem, sauna e outras amenidades - dizem os locais ter uma piscina muito melhor do que a vizinha Ísafjörður. Devido à sua localização remota, ele estava vazio, e não precisamos disputar espaço na cozinha com outros hóspedes. O cenário era, ainda, abrilhantado por uma bonita igrejinha luterana rural, erguida sobre uma pequena colina aos pés de um maciço rochoso. Ela não buscava protagonismo naquela paisagem, mas sua presença era impossível de se ignorar.






Montanha Kirkjufell



Stykkishólmur

Stykkishólmur

Porto de Stykkishólmur

Estacionamento do ferry Baldur

Cachoeira Dynjandi




Túnel Bolungarvíkurgöng

Camping Sundlaug Bolungarvíkur


Fim do isolamento: reencontro com a Ring Road


Apesar de já termos passado por alguns fiordes, a ideia do que eles eram, de fato, ainda me parecia um tanto abstrata. Vinha mais da observação do mapa e de verbetes enciclopédicos do que de nossa própria vivência. Até então, eram corpos d’água como tantos outros existentes no mundo, os quais eu chamaria de baía, enseada, recôncavo. Só viria a compreendê-los depois de atravessar, de carro, vários deles em sequência, sem túneis ou pontes que abreviassem o trajeto. O roteiro do dia seria, assim, de reconciliação com a Ring Road: percorreríamos cerca de 500 km, em grande parte por vias costeiras, seguindo estradas que se moldavam ao traçado recortado dos fiordes.

Iniciamos o dia em Ísafjörður, a capital dos Westfjords. Depois de tanto tempo trafegando por regiões vazias e isoladas, ela chega a parecer, de certo modo, uma grande metrópole. Há cinema, livraria, cafés, restaurantes de alta cozinha, lojas de marca. Diferentemente de Akureyri e Reykjavik, a cidade não sofreu grandes incêndios ao longo de sua história; por isso, preserva bem seus edifícios do início do século XIX, época em que a economia pesqueira prosperava. Hoje, cerca de 70% das entradas pelo porto, por onde aportam muitos navios transatlânticos, estão ligadas ao turismo.

Já havíamos percorrido, até ali, uma distância considerável dentro dos Westfjords, mas principalmente por seu interior. A partir de Ísafjörður até chegarmos novamente à Ring Road, começamos a contornar os fiordes por suas beiradas. O caminho se dá em forma de zigue-zague, em que trafegávamos por terrenos altos e víamos o mar muito abaixo. Dependendo do formato do relevo, era possível ver com nitidez a cicatriz do mar se afunilando terra adentro e, do outro lado, a segunda perna do fiorde, fechando o U que lhe dá forma. Em alguns casos, a escala do contorno se tornava mais evidente: chegamos a percorrer cerca de 20 km por uma das margens para, em seguida, rodar praticamente a mesma distância em sentido oposto, retornando quase ao ponto de origem - separados apenas pelo curso d’água, agora do outro lado.

Sendo uma região mais deserta, não havíamos incluído muitos pontos de interesse para paradas ao longo do caminho. Deixamos, contudo, espaços abertos para surpresas inesperadas, que não demoraram a acontecer. Logo no início do dia, encontramos, a cerca de vinte minutos de Ísafjörður, um centro de estudo e conservação de raposas-do-ártico, o único mamífero terrestre nativo da Islândia, presente na ilha há pelo menos 3.500 anos, muito antes da chegada dos primeiros colonos vikings, no século X. Do lado de fora de um casarão do século XIX, duas raposas, de tamanho pouco maior que o de um gato doméstico, dormiam em um espaço cercado. No interior, havia um café e uma pequena exposição dedicada a esses animais.

Adaptados a viver em temperaturas extremas de até -70°C, a característica mais singular da espécie é sua camuflagem sazonal, que acompanha as estações do ano. Durante o verão, adquirem a coloração azul. No inverno, a pelagem torna-se branca, permitindo que caminhem pela neve e pelas geleiras quase sem serem notadas. A transição ocorre no outono e na primavera, quando assumem tons intermediários de bege, entre o azul e o branco. Enquanto, no restante do mundo, cerca de 90% das raposas são predominantemente brancas, nos Westfjords aproximadamente 80% são azuis, coloração mais adaptada à vida costeira. O centro de conservação também chama atenção para a caça desses animais, prática cultural secular voltada à obtenção de pele e ainda legalizada em muitas partes do país, sobretudo como forma de proteção aos rebanhos de ovelhas e de controle populacional. Com o manejo correto, a caça e a conservação coexistem em harmonia e a raposa não está, hoje, ameaçada de extinção.

Outra surpresa que tornaria nosso dia melhor foram as focas, que por hábito descansam bem na entrada do fiorde Skötufjörður. Na continuação da viagem, pela Rota 61, enquanto dirigíamos o carro prestando especial atenção no mar, na esperança de poder avistar baleias, chegamos a um ponto de observação de focas. Depois de reparar nos primeiros animais, que de longe pareciam pedras imóveis, percebi ser ali um ponto já bastante conhecido, com placas indicativas, um pequeno estacionamento para parar com calma e até um café instalado em uma graciosa casa de turfa, dessas de telhado coberto por gramado. Foi uma sensação de recompensa depois de tantos quilômetros ao volante, quebrando a monotonia que começava, pouco a pouco, a se insinuar na estrada.

O único lugar do dia que realmente alfinetamos no mapa para conhecer foi a fazenda Heydalur, da qual ouvimos falar no acampamento na noite anterior. Ela ficava a apenas 12 km de desvio da Rota 61 e foi uma ótima oportunidade de explorar ainda mais o lado rural da Islândia. A fazenda conta com fontes termais próprias, pequenas piscinas e banheiras aquecidas naturalmente, além de estufas geotérmicas, onde plantas e vegetais crescem mesmo em climas frios. Relaxamos um pouco nas piscinas, cuja água variava entre 35°C e 40°C. Uma delas era "selvagem", em um poço a céu aberto, e a outra construída, aproveitando o calor geotermal, com vestiário ao lado. Aproveitamos para tomar banho ali mesmo, e dali em diante visitar as piscinas termais passou a fazer parte da nossa rotina de viagem, unindo relaxamento e praticidade ao evitar os banhos improvisados nos acampamentos. Também é possível acampar na fazenda, e havia um grande grupo de motorhomes com placas da Holanda no local.

O plano era termos almoçado em Heydalur, onde há um restaurante bem avaliado, em que muitos dos ingredientes são plantados ali, mas chegamos tarde demais, a tempo apenas da sobremesa. As horas dirigindo pelos fiordes, somadas às muitas paradas pelo caminho, haviam tornado o dia excepcionalmente longo. Depois de deixarmos a fazenda, passamos por Holmavik, maior cidade da região e conhecida como capital do folclore, mas o mercado já estava fechado. Estávamos ainda longe do destino e quase não encontrávamos opções de comida pelo caminho. A noite caiu sobre a estrada. Havia uma esperança de que a aurora boreal surgisse, mas o céu não reunia as condições favoráveis. Entramos em uma pizzaria discreta à beira da estrada, mas a cozinha também já estava fechada.

Quando finalmente alcançamos a Ring Road, a mudança foi instantânea: outro ritmo, mais carros, alguns caminhões, mais luzes, mais movimento. Conseguimos parar em um posto grande, perto de fechar, mas que ainda servia alguns sanduíches. Sentados ali, comendo sob a luz baixa e observando os veículos passando, senti claramente o contraste entre o isolamento dos fiordes e o movimento da Rota 1. Foi o momento que entendemos que retornamos, de uma vez, ao fluxo principal da ilha.

Traçado da estrada que margeia os fiordes

Estrada à beira de um fiorde, de relevo elevado em relação ao mar

Casa turfa próxima ao local de observação de focas

Decoração do restaurante da fazenda Heydalur

Raposa no centro de conservação de raposas-do-ártico


Fazenda Heydalur

domingo, 21 de dezembro de 2025

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #1

Prólogo: um país de bordas

Em que ponto no tempo começamos a contar uma história? A da Islândia se inicia quando a massa de terra que viríamos a chamar de América se separa daquele que continha o "Velho Mundo". No meio do caminho restou uma dorsal, isto é, uma cadeia de montanhas submarinas. Dentro dessa cadeia, bem ao norte, onde a cordilheira emerge e o sol pouco toca, fica a Islândia.

Essa pequena ilha, perdida na deriva continental, tem cerca de 15 milhões de anos. Em perspectiva, no entanto, é uma das mais jovens do planeta. Se a história da Terra fosse comprimida em um ano, o surgimento da Islândia seria na noite do dia 30 de dezembro. Seu tamanho é grande o suficiente para abrigar uma variedade de paisagens dramáticas, que misturam em um só espaço atividade vulcânica, imensos glaciares e caudalosas cachoeiras, e ainda assim pequeno o suficiente para ser contornado, de carro e a um ritmo suave, em não muito mais do que uma semana.

A Islândia é um planeta em miniatura - não há uma descrição mais óbvia nem tão justa. Assim como a Terra existe em um universo em expansão, a Islândia vive na expansão do oceano, crescendo cerca de 2 cm por ano à medida que as placas tectônicas se afastam. O evento caótico que permitiu a vida ali é diferente de qualquer outro: por sua latitude, próxima ao círculo polar, seria de esperar um lugar muito mais frio e inóspito. Contudo, uma corrente marítima quente vinda do Golfo do México ameniza o clima, que não costuma cair muito abaixo de 0°C nas zonas costeiras, mesmo no inverno. O calor das profundezas do planeta, por sua vez, encontrando ali um fácil caminho até a superfície, garante que quase todas as casas sejam aquecidas com uma fonte inesgotável de energia geotérmica.

Foi com a ideia de pisar em um pedaço vivo da Terra que chegamos à Islândia, em uma viagem que começou antes mesmo do desembarque. Ainda na etapa de criação do roteiro, olhei tantas vezes o mapa da ilha, um tipo de círculo acidentado mas harmonioso, que já me sentia íntimo àquele estranho lugar. Cabia inteiro e com riqueza suficiente de detalhes em uma folha A4 ou tela de computador, como se fosse possível abraçar aquele território. Quando pisei ali pela primeira vez, parecia um lugar já frequentado tantas outras vezes em pensamento.

Abraçar a ilha, no caso da Islândia, tem um sentido quase literal; era, a propósito, o que estávamos prestes a fazer. O interior do país, composto por desertos de lava e gelo, é inóspito, tem um inverno severo e é praticamente inabitado. Isso criou um país de bordas povoadas e interior deserto, onde mais de 90% da população vive em regiões costeiras, e cerca de 60% vive apenas na região metropolitana da capital, Reykjavík. Completando o sentido de abraço, que envolve e acolhe, está a Rota 1, a principal estrada do país: uma via de circum-navegação que permite a qualquer pessoa, com um carro, desbravar esse mundo tão singular.

Primeiras impressões

Acordamos na manhã de primeiro de setembro em uma pousada em Keflavík, perto do único aeroporto internacional da Islândia. Nessa altura do ano, final do verão, os dias ainda são longos, com cerca de catorze horas de sol, e as temperaturas amenas. Fomos andando até a avenida principal da cidade, onde pegaríamos um ônibus até a agência de aluguel de carros. A partir dali, iniciaríamos a viagem de contorno da ilha.

A primeira impressão que tive das cidades islandesas veio desse curioso lugar. Culturalmente ligada aos países escandinavos, a Islândia conserva o estilo nórdico em suas construções, conhecido pelo contraste entre o aconchego interno e o rigor do ambiente externo: as casas são coloridas, integradas à natureza, têm telhados íngremes para evitar o acúmulo de neve e janelas grandes que favorecem a iluminação. Sobretudo, oferecem espaços confortáveis e acolhedores.

A diferença islandesa, contudo, está no material empregado nas fachadas. Embora geralmente construídas em madeira, muitas casas são revestidas por chapas metálicas, semelhantes às de um contêiner. Isolada do mundo, a Islândia passou a adotar o ferro corrugado por ser mais barato, resistente e fácil de importar, vindo principalmente do Reino Unido, onde o material era usado em galpões e fábricas. Aqui, viraram identidade cultural: os islandeses passaram a pintar as chapas com cores vivas, trazendo alegria a um ambiente tão cinzento e escuro durante, ao menos, metade do ano.

Ainda assim, parecia faltar alma à Keflavík. Talvez fosse o fato de a cidade ter crescido em torno de uma base militar dos Estados Unidos, usada desde a Segunda Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria. Talvez fosse por toda a região da península de Reykjanes, onde fica a cidade, ser repleta de portos naturais: o vai e vem de barcos conferia à Keflavík um clima passageiro, de cidade-dormitório. Quando cheguei à avenida principal, não parecia exatamente uma rua, mas uma rodovia. Ali, as construções de ferro formavam edifícios mais retilíneos, como lojas de conveniência de postos de gasolina, drive-thrus de restaurantes ou galpões, completando a aparência industrial do lugar.

Uma casa móvel

Ao norte da cidade, perto de um entroncamento de estradas, em um amplo terreno cercado por galpões industriais, ficava a oficina da Go Campers, empresa de aluguel de carros. Diante de mim, mais uma vez, um mapa da Islândia emoldurado na parede: tracei mentalmente a rota de circum-navegação, ansiando pelo que estava por vir. Em uma sala atrás do balcão de atendimento, a funcionária recolheu uma mesa e duas cadeiras de campismo, junto com cobertores, travesseiros e dois cartuchos de gás. Em seguida, conduziu-me até o carro e fez uma breve demonstração sobre o seu uso.

O veículo era uma Peugeot Partner, um tipo de furgão leve e versátil. A parte destinada aos passageiros havia sido adaptada para uma pequenina casa móvel: algumas estacas de madeira sustentavam a cama, cuja altura chegava aproximadamente aos ombros do motorista. O estrado era formado por duas tábuas de madeira, sobre as quais se apoiavam os colchões, perfeitamente ajustados ao espaço. Sob a cama, havia um compartimento amplo, onde se podiam guardar malas e outros pertences. Na parte de trás, um móvel com prateleiras fazia as vezes de cozinha, abrigando um fogareiro, uma caixa com louça, panelas e demais utensílios. Havia ainda um pequeno frigobar, uma lâmpada com baterias próprias e um carregador USB e aquecedor conectados à bateria do carro. Para cozinhar, havia duas opções: abrir as portas traseiras da van e apoiar o fogareiro sobre o tampo das prateleiras, ou abaixar uma tábua de madeira presa à lateral, que servia como mesa improvisada.

A recolha do carro não foi um mero procedimento, mas um ritual de partida pela Ring Road. Antes de assinar o documento que confirmava as condições em que recebi o veículo, ouvi as últimas e mais enfáticas recomendações da funcionária. A primeira dizia respeito ao uso do aquecedor durante a noite: havia um medidor de bateria, e eu não podia deixá-la baixar além de certo nível, sob o risco de descarregar completamente o carro. A segunda tratava dos fortes ventos da ilha, que frequentemente arrancam as portas dos carros ao serem abertas - um tipo de incidente comum na Islândia e que nenhum seguro cobre. A última advertência referia-se aos animais na estrada, sobretudo as ovelhas, responsáveis pela maioria dos acidentes por atropelamento, também não cobertos pelo seguro.

Liguei a ignição e arrancamos com o carro. Apesar de nunca ter dirigido uma van, logo me acostumei ao seu porte. A primeira parada do dia seria Reykjavík, a apenas quarenta minutos dali. Mas antes, fizemos um desvio até um supermercado da icônica rede Bónus para abastecer o frigobar. Os mercados dessa rede se destacam na paisagem islandesa por estarem sempre bem localizados e por suas cores predominantemente amarelas, com um mascote rosa - um porquinho-cofrinho. Compramos pães, queijos, iogurte, frutas, verduras, macarrão, alguns embutidos e pequenas refeições prontas. Para melhor conservação, as verduras, em vez de ficarem em geladeiras, ficam em salas inteiramente climatizadas, frias, onde é difícil permanecer por muito tempo. A qualidade, por sua vez, é altíssima.

A rede Bónus é tida como a mais econômica do país, o que não significa que seus preços sejam baixos. Afastada das principais rotas comerciais e com um mercado consumidor pequeno, a Islândia enfrenta custos logísticos elevados, que encarecem os bens de consumo. Produtos podem custar duas ou três vezes mais que na Europa continental, já que quase tudo precisa ser importado em pequenos volumes. Soma-se a isso o elevado padrão de vida no país, considerado um dos de maior IDH do mundo, sustentado pelo modelo escandinavo de bem-estar social e por uma carga tributária alta.

Ainda assim, eu me sentia leve. Viajar em uma campervan e fazer compras em supermercados é, de longe, o modo mais econômico de percorrer a Ring Road, evitando estadias em hotéis - caros e nem sempre com uma qualidade que justifique os preços - e refeições em restaurantes. Embora o preço do combustível também figure entre os mais altos do mundo, não haveria maneira mais prática ou acessível de fazer essa viagem.

Superfícies instáveis

Há quem diga que a Islândia poderia ser apagada do mapa sem deixar rastros, e que a história da humanidade pouco teria mudado sem sua existência. Li essa frase em um livro de fotografias sobre a ilha, deixado sobre uma mesa de centro em um dos cafés por onde passei. Muitas vezes omitida em mapas-múndi simplificados, e frequentemente ignorada nos mapas da Europa, a Islândia só costuma aparecer na mídia quando suas atividades vulcânicas interrompem voos e afetam mercados.

São cerca de 130 vulcões na Islândia, dos quais 18 entraram em erupção ao longo da história escrita do país, registrada desde os primeiros povoamentos, no século IX. Em 1783, ocorreu a explosão mais violenta de que se tem notícia: durante oito meses, foram expelidas cerca de 42 bilhões de toneladas de lava, contaminando o solo, arruinando colheitas e causando a morte de metade dos animais e de um quarto da população humana da ilha, seja por intoxicação ou pela fome que se seguiu. A quantidade de dióxido de enxofre lançada à atmosfera provocou uma queda brusca nas temperaturas em todo o mundo, sobretudo na Europa. A escassez resultante das más colheitas, acreditam alguns historiadores, foi uma das causas que contribuíram para a eclosão da Revolução Francesa em 1789.

Mais recentemente, em 2010, a erupção de um vulcão no sul da ilha, o Eyjafjallajökull, fechou o espaço aéreo de mais de vinte países, na que foi a maior interrupção de tráfego aéreo desde a Segunda Guerra Mundial. A partir de 2021, na mesma península de Reykjanes que nós percorríamos a caminho de Reykjavík, uma série de erupções pôs fim a mais de oitocentos anos de dormência vulcânica na região. Esses episódios seguiram um padrão semelhante: durante meses, enxames sísmicos sacudiram o solo até que uma fissura se abrisse.

Diferentes sistemas vulcânicos foram ativados - a maioria, por sorte, distante de centros urbanos. Em 2023, contudo, uma erupção próxima à cidade de Grindavík forçou o deslocamento de toda a população. Em novembro, os moradores foram evacuados; a erupção ocorreu em 18 de dezembro e cessou apenas em meados de janeiro de 2024. A cidade só foi reaberta a residentes e turistas no final do mesmo ano.

Uma obra na ligação direta entre Keflavík e Reykjavík nos obrigou a contornar a península de Reykjanes, prolongando o trajeto justamente por aquele pedaço de terra recém-criado. A impressão era avassaladora. Em alguns pontos, fumaça ainda emanava do solo, como um corpo quente que acaba de esfriar. A paisagem parecia uma destruição generalizada, um inverno vulcânico: o que restou depois de um grande evento de ruptura. Sobre aquele basalto fresco, endurecido em formas irregulares, o musgo - uma das formas de vida mais primitivas - começava a crescer novamente, criando um contraste marcante de cores e trazendo, à escala de tempo de uma vida humana, a potência dos ciclos naturais de destruição e reconstrução.

A vida também se ajustava. A estrada seguia com remendos e desvios para contornar trechos destruídos, e as placas de trânsito alertavam que era proibido parar ali por risco de vida. Quem ousasse estacionar para tirar fotos ainda poderia receber uma pesada multa. O enxofre impregnado no ar provocava um mau cheiro intenso, reforçando que o solo permanecia ativo. Em locais mais estáveis, por outro lado, surgiam placas indicando trilhas guiadas para o avistamento dos vulcões, algumas oferecendo a chance rara de observar a lava sendo expelida.



A maior menor cidade do mundo

Em Reykjavík, a impressão fria que me acompanhara desde Keflavík logo se dissipou. Ali, ficou claro que a noção que se tem de cidade grande ou pequena, aos olhos de quem vem de fora, não pode ser aplicada de modo direto à Islândia. Com cerca de 140 mil habitantes, Reykjavík não figuraria nem entre as duzentas cidades mais populosas do Brasil. Ainda assim, com autenticidade e personalidade próprias, a capital se afirma no mundo como um polo cultural relevante, de ares cosmopolitas, criativa, e também como centro financeiro e de alta tecnologia.

Estacionamos a campervan na garagem da Harpa para explorar, durante uma tarde, o tradicional bairro de Miðborg. O percurso se deu principalmente entre dois dos edifícios mais emblemáticos da capital: a própria Harpa, um moderno salão de concertos, e a Hallgrímskirkja, a maior igreja do país. Ambos traduzem, cada um ao seu modo, a ambição de construir uma linguagem arquitetônica que represente a Islândia contemporânea, com formas abertamente inspiradas na paisagem local. Na Harpa - nome de um instrumento musical, mas também do mês que marcava o início do verão no antigo calendário nórdico - a fachada de painéis hexagonais coloridos remete ao basalto, a rocha vulcânica negra tão característica da ilha. Já a catedral, em estilo luterano, evoca montanhas, geleiras e, sobretudo, as formações de basalto colunar em “tubos de órgão”, como as de Svartifoss.

O caminho entre esses dois marcos revela uma cidade inesperadamente colorida. Primeiro, pela pintura das casas, em cores vibrantes, que aquecem visualmente o ambiente que insiste em ser opaco. Na mais movimentada rua do centro, as cores do arco-íris ocupam o próprio asfalto, como declaração pública de um espírito progressista que abraça a diversidade e a inclusão. Por fim, pela presença de gente do mundo todo: trabalhadores imigrantes, sobretudo da Europa Central, do Leste Europeu e das Filipinas, e o constante fluxo de turistas que, ano após ano, movimentam a cidade.

A Islândia saiu muito rapidamente de uma sociedade rural, que vivia de pesca artesanal e agricultura de subsistência, para a sociedade moderna e urbanizada que se vê hoje. Há trinta anos, cerveja era ilegal por questões morais, residentes não podiam ter cachorro para evitar a transmissão de doenças, e o único canal de TV do país saía do ar às quintas-feiras e durante todo o mês de julho. Mesmo assim, vestígios desse passado permanecem: casas de turfa, construídas com técnicas medievais que empregam solo orgânico, musgo, pedras e madeiras, ainda podem ser encontradas em todo o país, como vestígios de um passado não tão distante quanto parece.

Outra peculiaridade da cidade é a ausência das grandes redes internacionais de fast-food. Em contrapartida, o cachorro-quente islandês, o pylsa, se tornou um verdadeiro ícone nacional e melhor amigo do viajante. Servido com cebola crua ou crocante, katchup e mostarda, ele se diferencia sobretudo pela salsicha: um tipo único feito principalmente com carne de cordeiro. Comer fora na Islândia é caro mesmo para a população local, de modo que o pylsa se popularizou como opção barata, saborosa e fácil de encontrar. Para quem cruza a Ring Road, é o lanche típico dos postos de gasolina.

Reykjavík simboliza, assim, a autenticidade e, de certo modo, a resistência islandesa diante da modernização abrupta. Ao mesmo tempo em que o turismo de massa e as lojas de lembrancinhas genéricas se multiplicam no centro, os séculos de domínio colonial ensinaram à Islândia certa cautela na assimilação de influências estrangeiras. O comércio de segunda mão é parte visível do cotidiano, menos suscetível a impulsos consumistas e distante de artigos supérfluos. Marcas locais, por sua vez, produzem itens de alta qualidade, resistentes e feitos para durar muitos invernos. Mesmo sob a inevitabilidade da mudança, Reykjavík demonstra que é possível preservar uma postura genuína.







Aurora Borealis: largada na circum-navegação

Iniciamos, definitivamente, a jornada pela Ring Road. Escolhemos percorrê-la no sentido horário para aproveitar melhores temperaturas ao norte, onde o frio chega mais rapidamente que no sul, conforme o verão vai se aproximando do fim. Assim, seguimos viagem em direção à cidade de Akranes, situada a apenas 50 km a norte de Reykjavík.

Akranes surgiu como uma parada natural em uma região próxima à capital, onde havíamos passado a maior parte do dia. Cogitamos ir até a cachoeira de Gylmur, mas seria inviável pelas distâncias. O trajeto exigiria contornar todo o fiorde Hvalfjörður, em uma viagem de mais de 100 km. Para chegar à queda d'água, seria necessário, ainda, caminhar por uma trilha de 7 km entre ida e volta.

Até 1998, esse contorno era a única rota possível entre Reykjavík e Akranes. Um fiorde, afinal, é uma entrada de mar estreita e profunda, em forma de U, ladeada por encostas íngremes; uma cicatriz lenta, escavada por antigas geleiras. É ele que torna tão recortado o litoral de regiões frias como a Islândia. A abertura do túnel de Hvalfjörður, todavia, encurtou o percurso drasticamente: o que antes levava mais de uma hora passou a ser atravessado em poucos minutos. São quase 6 km de túnel, dos quais cerca da metade corre abaixo do nível do mar, unindo diretamente as duas extremidades do fiorde.

Logo chegamos a Akranes para nossa primeira noite dormindo na van. A cidade se estende por uma península rodeada de mar por quase todos os lados, onde a terra plana encontra um oceano amplo, criando uma calma peculiar. O camping ficava à beira de uma pequena praia, de onde era possível ver o céu e o mar. Por volta das oito da noite, o dia ainda permanecia claro. Estacionamos a van com a traseira voltada para o mar e tiramos a mesa e as cadeiras de camping para preparar o jantar ao ar livre, aproveitando o bom tempo que fazia.

Calhou de descobrirmos que Akranes, com aquele céu sem interrupções, era um ótimo lugar para a observação da aurora boreal. Não era esperado que a víssemos já naquela viagem; em geral, elas começam a aparecer mais para o fim de setembro. Em dado momento, porém, uma agitação tomou conta do acampamento. Saímos da van e, ao olhar para cima, o céu estava verde.

Acho que a aurora boreal é um tipo de fenômeno que premia aqueles confinados nos lugares mais frios do planeta. É o mundo revelando como pode ser belo mesmo durante a longa noite de seis meses das regiões polares. Não apenas belo, mas misterioso: os tons verdes, às vezes inclinando-se ao roxo, parecem obra de alguém dado ao exagero e ao espetáculo, como se dissesse, com certo deboche: "olha o que consigo fazer sem esforço algum".

Vê-la pela primeira vez, logo na primeira noite de acampamento, foi uma emoção, dessas que confirmam que o mundo guarda artimanhas inesgotáveis para nos surpreender. Não poderia haver melhor cartão de visitas para a Ring Road, um aviso luminoso de que aquela estrada ainda teria muito a revelar.