domingo, 21 de dezembro de 2025

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #1

Prólogo: um país de bordas

Em que ponto no tempo começamos a contar uma história? A da Islândia se inicia quando a massa de terra que viríamos a chamar de América se separa daquele que continha o "Velho Mundo". No meio do caminho restou uma dorsal, isto é, uma cadeia de montanhas submarinas. Dentro dessa cadeia, bem ao norte, onde a cordilheira emerge e o sol pouco toca, fica a Islândia.

Essa pequena ilha, perdida na deriva continental, tem cerca de 15 milhões de anos. Em perspectiva, no entanto, é uma das mais jovens do planeta. Se a história da Terra fosse comprimida em um ano, o surgimento da Islândia seria na noite do dia 30 de dezembro. Seu tamanho é grande o suficiente para abrigar uma variedade de paisagens dramáticas, que misturam em um só espaço atividade vulcânica, imensos glaciares e caudalosas cachoeiras, e ainda assim pequeno o suficiente para ser contornado, de carro e a um ritmo suave, em não muito mais do que uma semana.

A Islândia é um planeta em miniatura - não há uma descrição mais óbvia nem tão justa. Assim como a Terra existe em um universo em expansão, a Islândia vive na expansão do oceano, crescendo cerca de 2 cm por ano à medida que as placas tectônicas se afastam. O evento caótico que permitiu a vida ali é diferente de qualquer outro: por sua latitude, próxima ao círculo polar, seria de esperar um lugar muito mais frio e inóspito. Contudo, uma corrente marítima quente vinda do Golfo do México ameniza o clima, que não costuma cair muito abaixo de 0°C nas zonas costeiras, mesmo no inverno. O calor das profundezas do planeta, por sua vez, encontrando ali um fácil caminho até a superfície, garante que quase todas as casas sejam aquecidas com uma fonte inesgotável de energia geotérmica.

Foi com a ideia de pisar em um pedaço vivo da Terra que chegamos à Islândia, em uma viagem que começou antes mesmo do desembarque. Ainda na etapa de criação do roteiro, olhei tantas vezes o mapa da ilha, um tipo de círculo acidentado mas harmonioso, que já me sentia íntimo àquele estranho lugar. Cabia inteiro e com riqueza suficiente de detalhes em uma folha A4 ou tela de computador, como se fosse possível abraçar aquele território. Quando pisei ali pela primeira vez, parecia um lugar já frequentado tantas outras vezes em pensamento.

Abraçar a ilha, no caso da Islândia, tem um sentido quase literal; era, a propósito, o que estávamos prestes a fazer. O interior do país, composto por desertos de lava e gelo, é inóspito, tem um inverno severo e é praticamente inabitado. Isso criou um país de bordas povoadas e interior deserto, onde mais de 90% da população vive em regiões costeiras, e cerca de 60% vive apenas na região metropolitana da capital, Reykjavík. Completando o sentido de abraço, que envolve e acolhe, está a Rota 1, a principal estrada do país: uma via de circum-navegação que permite a qualquer pessoa, com um carro, desbravar esse mundo tão singular.

Primeiras impressões

Acordamos na manhã de primeiro de setembro em uma pousada em Keflavík, perto do único aeroporto internacional da Islândia. Nessa altura do ano, final do verão, os dias ainda são longos, com cerca de catorze horas de sol, e as temperaturas amenas. Fomos andando até a avenida principal da cidade, onde pegaríamos um ônibus até a agência de aluguel de carros. A partir dali, iniciaríamos a viagem de contorno da ilha.

A primeira impressão que tive das cidades islandesas veio desse curioso lugar. Culturalmente ligada aos países escandinavos, a Islândia conserva o estilo nórdico em suas construções, conhecido pelo contraste entre o aconchego interno e o rigor do ambiente externo: as casas são coloridas, integradas à natureza, têm telhados íngremes para evitar o acúmulo de neve e janelas grandes que favorecem a iluminação. Sobretudo, oferecem espaços confortáveis e acolhedores.

A diferença islandesa, contudo, está no material empregado nas fachadas. Embora geralmente construídas em madeira, muitas casas são revestidas por chapas metálicas, semelhantes às de um contêiner. Isolada do mundo, a Islândia passou a adotar o ferro corrugado por ser mais barato, resistente e fácil de importar, vindo principalmente do Reino Unido, onde o material era usado em galpões e fábricas. Aqui, viraram identidade cultural: os islandeses passaram a pintar as chapas com cores vivas, trazendo alegria a um ambiente tão cinzento e escuro durante, ao menos, metade do ano.

Ainda assim, parecia faltar alma à Keflavík. Talvez fosse o fato de a cidade ter crescido em torno de uma base militar dos Estados Unidos, usada desde a Segunda Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria. Talvez fosse por toda a região da península de Reykjanes, onde fica a cidade, ser repleta de portos naturais: o vai e vem de barcos conferia à Keflavík um clima passageiro, de cidade-dormitório. Quando cheguei à avenida principal, não parecia exatamente uma rua, mas uma rodovia. Ali, as construções de ferro formavam edifícios mais retilíneos, como lojas de conveniência de postos de gasolina, drive-thrus de restaurantes ou galpões, completando a aparência industrial do lugar.

Uma casa móvel

Ao norte da cidade, perto de um entroncamento de estradas, em um amplo terreno cercado por galpões industriais, ficava a oficina da Go Campers, empresa de aluguel de carros. Diante de mim, mais uma vez, um mapa da Islândia emoldurado na parede: tracei mentalmente a rota de circum-navegação, ansiando pelo que estava por vir. Em uma sala atrás do balcão de atendimento, a funcionária recolheu uma mesa e duas cadeiras de campismo, junto com cobertores, travesseiros e dois cartuchos de gás. Em seguida, conduziu-me até o carro e fez uma breve demonstração sobre o seu uso.

O veículo era uma Peugeot Partner, um tipo de furgão leve e versátil. A parte destinada aos passageiros havia sido adaptada para uma pequenina casa móvel: algumas estacas de madeira sustentavam a cama, cuja altura chegava aproximadamente aos ombros do motorista. O estrado era formado por duas tábuas de madeira, sobre as quais se apoiavam os colchões, perfeitamente ajustados ao espaço. Sob a cama, havia um compartimento amplo, onde se podiam guardar malas e outros pertences. Na parte de trás, um móvel com prateleiras fazia as vezes de cozinha, abrigando um fogareiro, uma caixa com louça, panelas e demais utensílios. Havia ainda um pequeno frigobar, uma lâmpada com baterias próprias e um carregador USB e aquecedor conectados à bateria do carro. Para cozinhar, havia duas opções: abrir as portas traseiras da van e apoiar o fogareiro sobre o tampo das prateleiras, ou abaixar uma tábua de madeira presa à lateral, que servia como mesa improvisada.

A recolha do carro não foi um mero procedimento, mas um ritual de partida pela Ring Road. Antes de assinar o documento que confirmava as condições em que recebi o veículo, ouvi as últimas e mais enfáticas recomendações da funcionária. A primeira dizia respeito ao uso do aquecedor durante a noite: havia um medidor de bateria, e eu não podia deixá-la baixar além de certo nível, sob o risco de descarregar completamente o carro. A segunda tratava dos fortes ventos da ilha, que frequentemente arrancam as portas dos carros ao serem abertas - um tipo de incidente comum na Islândia e que nenhum seguro cobre. A última advertência referia-se aos animais na estrada, sobretudo as ovelhas, responsáveis pela maioria dos acidentes por atropelamento, também não cobertos pelo seguro.

Liguei a ignição e arrancamos com o carro. Apesar de nunca ter dirigido uma van, logo me acostumei ao seu porte. A primeira parada do dia seria Reykjavík, a apenas quarenta minutos dali. Mas antes, fizemos um desvio até um supermercado da icônica rede Bónus para abastecer o frigobar. Os mercados dessa rede se destacam na paisagem islandesa por estarem sempre bem localizados e por suas cores predominantemente amarelas, com um mascote rosa - um porquinho-cofrinho. Compramos pães, queijos, iogurte, frutas, verduras, macarrão, alguns embutidos e pequenas refeições prontas. Para melhor conservação, as verduras, em vez de ficarem em geladeiras, ficam em salas inteiramente climatizadas, frias, onde é difícil permanecer por muito tempo. A qualidade, por sua vez, é altíssima.

A rede Bónus é tida como a mais econômica do país, o que não significa que seus preços sejam baixos. Afastada das principais rotas comerciais e com um mercado consumidor pequeno, a Islândia enfrenta custos logísticos elevados, que encarecem os bens de consumo. Produtos podem custar duas ou três vezes mais que na Europa continental, já que quase tudo precisa ser importado em pequenos volumes. Soma-se a isso o elevado padrão de vida no país, considerado um dos de maior IDH do mundo, sustentado pelo modelo escandinavo de bem-estar social e por uma carga tributária alta.

Ainda assim, eu me sentia leve. Viajar em uma campervan e fazer compras em supermercados é, de longe, o modo mais econômico de percorrer a Ring Road, evitando estadias em hotéis - caros e nem sempre com uma qualidade que justifique os preços - e refeições em restaurantes. Embora o preço do combustível também figure entre os mais altos do mundo, não haveria maneira mais prática ou acessível de fazer essa viagem.

Superfícies instáveis

Há quem diga que a Islândia poderia ser apagada do mapa sem deixar rastros, e que a história da humanidade pouco teria mudado sem sua existência. Li essa frase em um livro de fotografias sobre a ilha, deixado sobre uma mesa de centro em um dos cafés por onde passei. Muitas vezes omitida em mapas-múndi simplificados, e frequentemente ignorada nos mapas da Europa, a Islândia só costuma aparecer na mídia quando suas atividades vulcânicas interrompem voos e afetam mercados.

São cerca de 130 vulcões na Islândia, dos quais 18 entraram em erupção ao longo da história escrita do país, registrada desde os primeiros povoamentos, no século IX. Em 1783, ocorreu a explosão mais violenta de que se tem notícia: durante oito meses, foram expelidas cerca de 42 bilhões de toneladas de lava, contaminando o solo, arruinando colheitas e causando a morte de metade dos animais e de um quarto da população humana da ilha, seja por intoxicação ou pela fome que se seguiu. A quantidade de dióxido de enxofre lançada à atmosfera provocou uma queda brusca nas temperaturas em todo o mundo, sobretudo na Europa. A escassez resultante das más colheitas, acreditam alguns historiadores, foi uma das causas que contribuíram para a eclosão da Revolução Francesa em 1789.

Mais recentemente, em 2010, a erupção de um vulcão no sul da ilha, o Eyjafjallajökull, fechou o espaço aéreo de mais de vinte países, na que foi a maior interrupção de tráfego aéreo desde a Segunda Guerra Mundial. A partir de 2021, na mesma península de Reykjanes que nós percorríamos a caminho de Reykjavík, uma série de erupções pôs fim a mais de oitocentos anos de dormência vulcânica na região. Esses episódios seguiram um padrão semelhante: durante meses, enxames sísmicos sacudiram o solo até que uma fissura se abrisse.

Diferentes sistemas vulcânicos foram ativados - a maioria, por sorte, distante de centros urbanos. Em 2023, contudo, uma erupção próxima à cidade de Grindavík forçou o deslocamento de toda a população. Em novembro, os moradores foram evacuados; a erupção ocorreu em 18 de dezembro e cessou apenas em meados de janeiro de 2024. A cidade só foi reaberta a residentes e turistas no final do mesmo ano.

Uma obra na ligação direta entre Keflavík e Reykjavík nos obrigou a contornar a península de Reykjanes, prolongando o trajeto justamente por aquele pedaço de terra recém-criado. A impressão era avassaladora. Em alguns pontos, fumaça ainda emanava do solo, como um corpo quente que acaba de esfriar. A paisagem parecia uma destruição generalizada, um inverno vulcânico: o que restou depois de um grande evento de ruptura. Sobre aquele basalto fresco, endurecido em formas irregulares, o musgo - uma das formas de vida mais primitivas - começava a crescer novamente, criando um contraste marcante de cores e trazendo, à escala de tempo de uma vida humana, a potência dos ciclos naturais de destruição e reconstrução.

A vida também se ajustava. A estrada seguia com remendos e desvios para contornar trechos destruídos, e as placas de trânsito alertavam que era proibido parar ali por risco de vida. Quem ousasse estacionar para tirar fotos ainda poderia receber uma pesada multa. O enxofre impregnado no ar provocava um mau cheiro intenso, reforçando que o solo permanecia ativo. Em locais mais estáveis, por outro lado, surgiam placas indicando trilhas guiadas para o avistamento dos vulcões, algumas oferecendo a chance rara de observar a lava sendo expelida.



A maior menor cidade do mundo

Em Reykjavík, a impressão fria que me acompanhara desde Keflavík logo se dissipou. Ali, ficou claro que a noção que se tem de cidade grande ou pequena, aos olhos de quem vem de fora, não pode ser aplicada de modo direto à Islândia. Com cerca de 140 mil habitantes, Reykjavík não figuraria nem entre as duzentas cidades mais populosas do Brasil. Ainda assim, com autenticidade e personalidade próprias, a capital se afirma no mundo como um polo cultural relevante, de ares cosmopolitas, criativa, e também como centro financeiro e de alta tecnologia.

Estacionamos a campervan na garagem da Harpa para explorar, durante uma tarde, o tradicional bairro de Miðborg. O percurso se deu principalmente entre dois dos edifícios mais emblemáticos da capital: a própria Harpa, um moderno salão de concertos, e a Hallgrímskirkja, a maior igreja do país. Ambos traduzem, cada um ao seu modo, a ambição de construir uma linguagem arquitetônica que represente a Islândia contemporânea, com formas abertamente inspiradas na paisagem local. Na Harpa - nome de um instrumento musical, mas também do mês que marcava o início do verão no antigo calendário nórdico - a fachada de painéis hexagonais coloridos remete ao basalto, a rocha vulcânica negra tão característica da ilha. Já a catedral, em estilo luterano, evoca montanhas, geleiras e, sobretudo, as formações de basalto colunar em “tubos de órgão”, como as de Svartifoss.

O caminho entre esses dois marcos revela uma cidade inesperadamente colorida. Primeiro, pela pintura das casas, em cores vibrantes, que aquecem visualmente o ambiente que insiste em ser opaco. Na mais movimentada rua do centro, as cores do arco-íris ocupam o próprio asfalto, como declaração pública de um espírito progressista que abraça a diversidade e a inclusão. Por fim, pela presença de gente do mundo todo: trabalhadores imigrantes, sobretudo da Europa Central, do Leste Europeu e das Filipinas, e o constante fluxo de turistas que, ano após ano, movimentam a cidade.

A Islândia saiu muito rapidamente de uma sociedade rural, que vivia de pesca artesanal e agricultura de subsistência, para a sociedade moderna e urbanizada que se vê hoje. Há trinta anos, cerveja era ilegal por questões morais, residentes não podiam ter cachorro para evitar a transmissão de doenças, e o único canal de TV do país saía do ar às quintas-feiras e durante todo o mês de julho. Mesmo assim, vestígios desse passado permanecem: casas de turfa, construídas com técnicas medievais que empregam solo orgânico, musgo, pedras e madeiras, ainda podem ser encontradas em todo o país, como vestígios de um passado não tão distante quanto parece.

Outra peculiaridade da cidade é a ausência das grandes redes internacionais de fast-food. Em contrapartida, o cachorro-quente islandês, o pylsa, se tornou um verdadeiro ícone nacional e melhor amigo do viajante. Servido com cebola crua ou crocante, katchup e mostarda, ele se diferencia sobretudo pela salsicha: um tipo único feito principalmente com carne de cordeiro. Comer fora na Islândia é caro mesmo para a população local, de modo que o pylsa se popularizou como opção barata, saborosa e fácil de encontrar. Para quem cruza a Ring Road, é o lanche típico dos postos de gasolina.

Reykjavík simboliza, assim, a autenticidade e, de certo modo, a resistência islandesa diante da modernização abrupta. Ao mesmo tempo em que o turismo de massa e as lojas de lembrancinhas genéricas se multiplicam no centro, os séculos de domínio colonial ensinaram à Islândia certa cautela na assimilação de influências estrangeiras. O comércio de segunda mão é parte visível do cotidiano, menos suscetível a impulsos consumistas e distante de artigos supérfluos. Marcas locais, por sua vez, produzem itens de alta qualidade, resistentes e feitos para durar muitos invernos. Mesmo sob a inevitabilidade da mudança, Reykjavík demonstra que é possível preservar uma postura genuína.







Aurora Borealis: largada na circum-navegação

Iniciamos, definitivamente, a jornada pela Ring Road. Escolhemos percorrê-la no sentido horário para aproveitar melhores temperaturas ao norte, onde o frio chega mais rapidamente que no sul, conforme o verão vai se aproximando do fim. Assim, seguimos viagem em direção à cidade de Akranes, situada a apenas 50 km a norte de Reykjavík.

Akranes surgiu como uma parada natural em uma região próxima à capital, onde havíamos passado a maior parte do dia. Cogitamos ir até a cachoeira de Gylmur, mas seria inviável pelas distâncias. O trajeto exigiria contornar todo o fiorde Hvalfjörður, em uma viagem de mais de 100 km. Para chegar à queda d'água, seria necessário, ainda, caminhar por uma trilha de 7 km entre ida e volta.

Até 1998, esse contorno era a única rota possível entre Reykjavík e Akranes. Um fiorde, afinal, é uma entrada de mar estreita e profunda, em forma de U, ladeada por encostas íngremes; uma cicatriz lenta, escavada por antigas geleiras. É ele que torna tão recortado o litoral de regiões frias como a Islândia. A abertura do túnel de Hvalfjörður, todavia, encurtou o percurso drasticamente: o que antes levava mais de uma hora passou a ser atravessado em poucos minutos. São quase 6 km de túnel, dos quais cerca da metade corre abaixo do nível do mar, unindo diretamente as duas extremidades do fiorde.

Logo chegamos a Akranes para nossa primeira noite dormindo na van. A cidade se estende por uma península rodeada de mar por quase todos os lados, onde a terra plana encontra um oceano amplo, criando uma calma peculiar. O camping ficava à beira de uma pequena praia, de onde era possível ver o céu e o mar. Por volta das oito da noite, o dia ainda permanecia claro. Estacionamos a van com a traseira voltada para o mar e tiramos a mesa e as cadeiras de camping para preparar o jantar ao ar livre, aproveitando o bom tempo que fazia.

Calhou de descobrirmos que Akranes, com aquele céu sem interrupções, era um ótimo lugar para a observação da aurora boreal. Não era esperado que a víssemos já naquela viagem; em geral, elas começam a aparecer mais para o fim de setembro. Em dado momento, porém, uma agitação tomou conta do acampamento. Saímos da van e, ao olhar para cima, o céu estava verde.

Acho que a aurora boreal é um tipo de fenômeno que premia aqueles confinados nos lugares mais frios do planeta. É o mundo revelando como pode ser belo mesmo durante a longa noite de seis meses das regiões polares. Não apenas belo, mas misterioso: os tons verdes, às vezes inclinando-se ao roxo, parecem obra de alguém dado ao exagero e ao espetáculo, como se dissesse, com certo deboche: "olha o que consigo fazer sem esforço algum".

Vê-la pela primeira vez, logo na primeira noite de acampamento, foi uma emoção, dessas que confirmam que o mundo guarda artimanhas inesgotáveis para nos surpreender. Não poderia haver melhor cartão de visitas para a Ring Road, um aviso luminoso de que aquela estrada ainda teria muito a revelar.



sábado, 16 de agosto de 2025

Viagem ao Borborema (cordel)

Buíque tinha a aparência de um corpo aleijado: o largo da Feira formava o tronco, a rua da Pedra e a rua da Palha serviam de pernas, uma quase estirada, a outra curvada, dando um passo, galgando um monte; a rua da Cruz, onde ficava o cemitério velho, constituía o braço único, levantado; e a cabeça era a igreja, de torre fina, povoada de corujas.

 

(...) porque nos redemoinhos que açoitavam a catinga pelada havia provavelmente um ser furioso, soprando, assobiando, torcendo paus e rebentando galhos. Essa criatura de sonho e bagunça, um cavalo de asas, não me causou espanto.  

Graciliano Ramos, Infância 




Como um dia prometi
Fui-me embora pro sertão
Onde a vida é austera
Mas não foi de supetão
Fui até o Borborema
Onde o vento é oração.

Levo pouco na mochila
Pois escolho a liberdade
Quero tempo pra viver
Com vigor e sobriedade
Carrego só o preciso
Para andar com lealdade.

Eu corro por essa serra
Sem pressa ou temor
O que ponho nesses versos
É fruto do bom humor
O cordel cruza o tempo
Deixo aqui o meu clamor.

***

Começo por Alagoas
Que já foi Capitania
Junto à Pernambuco outrora
Conquistou soberania
Quando a Coroa puniu
Quem República queria.

Bem depois do litoral,
Onde sobem altos prédios
Fica União dos Palmares
Como um forte intermédio
Cidade menor que a lenda
Que venceu mil sacrilégios.

No Brasil, muitos quilombos
Conseguiram resistir
Mas nenhum foi tão valente
Nem tão duro de cair
Quanto o dos Palmares livres
Que descrevo a seguir.

Foi na Serra da Barriga
Ventre antigo de pedra gasta
Isolada dos engenhos
Prova da história nefasta
De negros escravizados
Que os grilhões já não arrastam.
 
Em lugar de muita mata
Onde o branco não pisava
Cresciam muitas palmeiras
Entre o mato e serra brava
Seus frutos e sua palha
O quilombo alimentava.

Quilombo vem do Bantu,
Quer dizer acampamento
O termo exato é Mucambo,
Refúgio em movimento
Mas virou sinônimo forte
De união e pertencimento.

Por doze grandes mucambos
Palmares foi formado.
O maior deste país,
Quase um Estado alçado.
Teve vinte mil pessoas,
No Nordeste assentado.

Ganga Zumba era então
Um líder muito querido
Mas um trato mal pensado
Com os portugueses cumprido
Foi pior que traição:
Foi um passo mal medido.

Esse combinado dizia:
Quem dali fosse nascido
Já seria homem livre
Mas o negro foragido
Era entregue aos senhores,
Mesmo tendo ali abrigo.

Um novo líder assim
Foi pelo povo aclamado
Homem de pele retinta
Por seus iguais respeitado
Zumbi dos Palmares rei
Resistir foi seu legado.

Zumbi nasceu em Palmares
Aos seis anos virou Francisco
Batizado como cristão
Sua vida tinha menos risco
Sobrinho de Ganga Zumba
Se tornou guerreiro mítico.

Zumbi, tal qual o príncipe,
Tinha o sangue em ebulição,
Ao ver seu povo vendido
Por acordo e traição.
Não vingava um só destino,
Mas lutava a nação.

Com o branco, não deu acordo
Liberdade é valentia
Negro nunca se dobrava
Nem fazia parceria
Zumbi voltou pro Quilombo
E a revolta principia.

Para derrotar Palmares,
Bandeirantes traiçoeiros,
Pela Coroa recrutados,
Feitos nobres cavaleiros,
Eram os verdadeiros selvagens
Que deram golpe derradeiro.

Zumbi foi apunhalado
Mas lutou bravamente
Sua cabeça foi cortada
E levada de presente
Para servir como exemplo
Mesmo sendo ele inocente.

Objetivo declarado
Era provar, por A mais B
Que Zumbi não era eterno,
Mas taí pra quem quer ver:
O nome de Zumbi vive
Em quem luta pra vencer.

Eu me pergunto insistente
Se a humanidade tem cura
Quando esconde os seus heróis
Sob o véu da amargura
Mas Zumbi segue presente
Na memória que perdura.

***

De Palmares me despedi
Com respeito e reverência
Mas o chão do sertão vasto
Tem mais que resistência
Tem pedra, rio e silêncio
Que falam com inteligência.

Fui então ao Catimbau
Na cidade de Buíque
Entre agreste e sertão
Com olhar que multiplique
Essa terra de belezas
Muito além do xique-xique.

Parece coisa de filme
Do tipo de Hollywood
Mas com molho brasileiro
De gente de atitude
No Catimbau cada cena
É poesia em plenitude.

Vamos falar da cidade
Que é berço de literatura,
Inspirou Graciliano
Na Infância, rija e dura.
Denunciou a pobreza
Com palavra sem censura.

Sobre Buíque disse o autor:
Tem aparência aleijada
Seu tronco era largo e curvo,
Com a espinha encurvada.
Duas ruas eram as pernas,
Uma delas estirada.

Mais acima da cidade,
Nos agudos da serra fria,
Surge o Vale encantado,
Feito sonho ou fantasia
Tem pintura nas pedras
E uma bruma de magia.

Por inteira na Caatinga,
A floresta esbranquiçada
Quando chove fica verde
E esclarece a madrugada
É Brasil em sua essência,
Parte de qualquer jornada.

Nos tempos antes de Cristo
Por aqui já tinha gente,
Um povo que a pedra guarda
De maneira permanente
Com tinta na parede bruta,
Revela um grito latente.

O vermelho a reluzir,
Como sangue sobre a rocha
Uma arte geométrica
Das cavernas desabrocha
Em morro alto e pedra nua
Vive o tempo que arrocha.
 
***

Do bando de Lampião
Dezoito vêm dessa terra
O massacre de Angico
A maior de todas guerras
À beira do São Francisco
Foi ao sul algumas léguas.

Quando o bando derrotado,
Com a vida a reconstruir
Sem o líder carismático,
Qual melhor caminho seguir?
Onze chegaram à Buíque
Que acolheu sem reprimir.

Dentre os sobreviventes
Um de nome Candeeiro
Com coragem se armou
Contra um destino certeiro
Lampião foi sua escola
Fez-se bravo cangaceiro.

A história de Candeeiro
No sertão ainda soa
Nunca foi um trapaceiro
Era um pássaro que voa
Só queria sobreviver
Da sina que não perdoa.

Enxergava na distância
Mesmo em noite de breu
Tinha o faro e a esperteza
De quem nunca se perdeu
Candeeiro era a chama
Que do cangaço nasceu.

Nem a lua minguante
Conseguia lhe atrasar  
Andava firme e seguro
Sabendo se camuflar
Tinha o dom de perceber
O perigo a espreitar.

Depois deixou Pernambuco
Pra travar nova missão
Foi soldado nas seringas
Lá pros lados do Acre, então
Na batalha contra a fome
A borracha foi seu pão.

Faleceu lá em Arcoverde  
Com noventa e nove anos  
Foi o último cangaceiro  
Dos que foram veteranos  
Apagou-se a lamparina  
Que alumia os mais humanos.

***

Apresento a trajetória
De outro bravo cangaceiro
Jararaca é sua glória
Homem duro e justiceiro
Santo vivo no sertão 
Mais tenaz que um facheiro.

Nasceu também em Buíque,
Em Mossoró consagrou-se
Contra fazendeiros ricos
O seu rifle levantou-se
Mas de forma violenta
O destino seu fim trouxe.

Foi vítima de autoridade
Que abusou de seu poder
Cavou a própria cova
Sem poder se defender
Enterrado ainda vivo
No suplício até morrer.

No leito de despedida
Pediu perdão ao Senhor
Deixou a vida bandida
Abraçando o Redentor
Via-crúcis sertaneja
O seu fim foi sofredor.

Seu túmulo é destino
De romeiro e procissão
Milagres vêm do divino
Assim conta a tradição
Quando Dia de Finados
É o mais visto do sertão.

***

No Brasil se costuma crer
Que somos pessoas cordiais
Mas quanto mais eu ando,
Mais vejo histórias brutais
Começou lá com Zumbi
E segue até os dias atuais.

O Catimbau virou Parque
Com sessenta mil hectares
A terra virou do Estado
Mas se tu bem me escutares
Verás que já havia gente
Ostentando seus cocares.

Com a identidade roubada,
Muitos já não se entendiam
Se achavam pardos, caboclos,
Mas indígenas já seriam
Na defesa de suas terras,
Suas raízes descobriram.

Se há tanto tempo habitada
É porque a terra é boa
Isso gerou a cobiça
De quem da justiça destoa
Certos fazendeiros querem
Reinar com uma coroa.

O povo Kapinawá
Precisou se defender
Uma terra a demarcar
Os grileiros por vencer
Onde colocar a cerca
Pra seu direito valer?

Já os grileiros se juntavam
Com jagunço e delegado,
Falsificavam papéis
Num cartório combinado
Transformavam a mentira
Num direito registrado.

Ali a demarcação
Não garante proteção,
Pois a terra que sobrou
Foi vendida em traição
Quem ainda nela resiste
Sofre assédio e opressão.

***

Como diz Luiz Gonzaga,
A vida do viajante
Precisa de boas lembranças
E amigos bem marcantes.
Peguei doença de estrada,
Com o peito flamejante.

Uma viagem que se preze
Pelo Nordeste a percorrer
Tem que fazer um desvio
Pro Velho Chico conhecer
Rio que mesmo na seca
Faz a vida florescer.

Vindo de Minas Gerais
Atravessa a Bahia
Em Remanso muda a rota
Pro oceano ele se vira
Vem pra desaguar no mar
Em Piaçabuçu termina.

Entre Alagoas e Sergipe
O rio se encontra ao mar.
Cercado por piaçavas,
Palmeiras a balançar.
Beleza que Pero Vaz
Em suas cartas fez brilhar.

Desse lado do Ocidente
Que os ingleses desconhecem,
Eu conheci o John Lennon,
Barqueiro que tudo esclarece
Mostrando a história da terra
E das dunas que prevalecem.

Com olhar triste ele diz:
"O rio está salgado"
O palmeiral se torna mangue,
Os surubins, enxugados
O mar empurrou com força
Um rio bem castigado.

De um antigo povoado
Só resta ainda o farol.
Ali mais de cem famílias
Perderam tudo, sem dó.
As pescas no rio doce
Já não enchem mais anzol.

***

O que aprendi no caminho
Foi mais que história e chão
Cada passo me ensinou
Com coragem e coração
O sertão guarda segredos
Que ensinam a lição.

Andar por esse país
É buscar o próprio alento
Nos rios, serras e matas
No vento e no firmamento
Talvez um dia eu descanse
Com alegria e acalento.


Alto da Serra da Barriga, União dos Palmares


Centro de União dos Palmares




Povoado Vale do Catimbau, município de Buíque






Museu em Buíque



Pinturas Rupestres, sítio Alcobaça



Piaçabuçu, foz do São Francisco





sábado, 2 de agosto de 2025

Islândia: notas e roteiro (Ring Road de Campervan)

Introdução


Passando por praticamente todos os lugares acessíveis na Islândia sem veículos 4x4, a Rota de Circum-navegação (Rota 1, Hringvegur ou Ring Road) é, por definição, uma estrada épica. São 1340 km que contornam o gelado e selvagem interior do país - uma ilha vulcânica pouco povoada, localizada em uma das regiões mais isoladas do planeta. Ao longo do caminho, encontram-se belezas naturais, história, cultura, campos de lava, gêiseres, glaciares, vulcões, inúmeras cachoeiras e banhos termais. Dirigi-la de ponta a ponta, sem paradas, levaria cerca de 16 horas. Com alguns pequenos desvios, é possível acessar regiões ainda mais profundas e cênicas da Islândia.

Viajar pela Islândia no inverno ou no verão são experiências completamente diferentes, mas igualmente fascinantes. A viagem descrita neste roteiro foi planejada para o início de setembro, buscando o melhor dos dois mundos: fugir das multidões e dos altos preços da alta temporada (junho a agosto), mas ainda aproveitar atrações de verão em funcionamento, dias mais longos e, com sorte, presenciar o espetáculo da aurora boreal, que costuma aparecer a partir de meados do mês nas altas latitudes.

Apesar de ser uma rota bastante popular e bem documentada, uma das maiores dificuldades para quem planeja a viagem está nos nomes islandeses: difíceis de pronunciar, lembrar e muitas vezes também de escrever. Criar este roteiro foi, além de tudo, uma forma de registrar e organizar as informações de forma visual, facilitando a consulta durante a viagem. A Ring Road, uma estrada única com incontáveis atrações repousando sobre si, facilita o processo: o caminho é um só, basta decidir se o sentido será o horário ou anti-horário. A maioria dos viajantes opta pelo sentido anti-horário, mas a verdade é que ambos oferecem paisagens igualmente deslumbrantes. Como esta viagem será no final do verão, a escolha foi fazer o percurso no sentido horário, começando pelo Norte - onde as temperaturas caem mais rápido - e deixando o Sul, mais ameno, para os últimos dias.

Este roteiro não tem por finalidade ser seguido à risca. A intenção foi reunir as principais atrações para consulta e os locais de pernoite por dia, sem pressão para percorrer tudo. Pelo contrário, a escolha por viajar de campervan, isto é, um veículo adaptado com cama e cozinha, foi justamente para ter flexibilidade total no itinerário, podendo acelerar ou desacelerar conforme o ritmo da viagem. Além disso, como as opções de hospedagem em regiões mais remotas da Islândia são limitadas e costumam se esgotar rapidamente, dormir no próprio veículo torna-se não só prático, mas muitas vezes a melhor alternativa.

As atrações foram listadas de forma a oferecer opções suficientes, permitindo cortes e alterações sem que se falte o que fazer. Ter um roteiro-base também reduz as decisões a serem tomadas no caminho, permitindo mais tempo para simplesmente aproveitar a estrada e a experiência. Para campistas de primeira viagem como eu, a campervan já traz desafios suficientes em termos de conforto, preparo de refeições e montagem do acampamento - quanto mais prático for o planejamento, melhor.

Por fim, a criação do roteiro foi facilitada pela ampla rede de campings espalhados pelo país. A maioria deles pode ser acessada sem necessidade de reserva, bastando chegar e estacionar. Optamos pelo Camping Card, que, por um preço fixo, permite pernoitar em dezenas de campings durante a temporada de verão. Isso ajudou a definir os pontos de parada, sempre priorizando os campings conveniados e próximos das principais atrações.

Atualização: depois de completar a viagem, adicionei, ao fim de cada dia, comentários sobre a minha experiência seguindo o roteiro proposto. Nessas notas compartilho cortes e inclusões no itinerário, ajustes feitos no caminho, descobertas inesperadas, dicas práticas e recomendações de restaurantes.

Dia 1

Atrações:
  • Centro de Reykjavic (bairro Miðborg):
    • Igreja Hallgrímskirkja: possível subir ao campanário e ver a cidade de cima (mais alta construção da cidade)
    • Harpa (auditório em frente ao mar)
  • Glymur (cachoeira mais alta da Islândia)
Notas e ajustes:
  • A cachoeira Glymur foi cortada do roteiro para que pudéssemos passar mais tempo em Reykjavic. Como a Islândia é repleta de cachoeiras, não havia motivo para correr e encaixar mais uma visita. Sem o desvio até Glymur, que requereria contornar o fiorde de Hvalfjörður, a viagem entre Reykjavic e Akranes passa de 115 km para apenas 50 km. O atalho se dá por um engenhoso túnel subterrâneo que atravessa o fiorde.
  • Aurora boreal: logo na primeira noite de acampamento fomos surpreendidos com a aurora boreal. Espontaneamente, enquanto nos preparávamos para dormir, nos juntamos aos outros campistas para admirar e fotografar o incrível fenômeno das luzes. Fiquei com a impressão que seria fácil ver aurora, mas ela custou a aparecer novamente ao longo da viagem.


Dia 2

Atrações:
  • Borgarnes
    • Uma das primeiras zonas de colonização na Islândia
    • Museu Settlement Center
    • Cenário das sagas do poeta guerreiro Egil Skallagrimsson
  • Snæfellsnes Peninsula
    • Parque Nacional Snæfellsjökull
    • Malarrif (centro de visitantes com mapas)
    • Roteiro nessa ordem pela Rota 574: Malarrif, Vatnshellir Caverna de Lava (apenas com guia), Djúpalónssandur (praia de areia negra), Saxhóll Crater (campos de lava), Öndverðarnesviti (ponta da península), pode-se avistar baleia, Ólafsvík
Notas e ajustes:
  • Há um bom café/restaurante em uma localização perfeita do itinerário, onde recomendaria uma parada para almoço. Junto ao Hotel Snæfellsnes, ele fica no início da península, por onde se passa mais ou menos na hora de almoço ao sair de Akranes. A passagem pela península, visitando todos os pontos, é longa. Estar bem alimentado foi importante. Link do Google Maps.
  • Como os restaurantes na Islândia costumam ser caros, pedir sopa se mostrou uma ótima estratégia: nutritiva, farta e reconfortante diante do clima. Outra solução que funcionou bem foi dividir um prato entre duas pessoas, já que as porções são generosas.
Zoom na Snæfellsnes Peninsula


Dia 3

Ferry Baldur:

Atrações:
  • Antes do ferry:
    • Kirkjufell (montanha com cachoeiras)
    • Stykkishólmur: maior cidade da região, casas coloridas e pitorescas. Há comércio de artesanato local.
  • Depois do ferry:
    • Dynjandi (cachoeira)
Notas e ajustes:
  • Kirkjufell é um dos cartões-postais mais fotografados da Islândia, em parte pela sua aparição em Game of Thrones. A paisagem é, sem dúvida, bonita, mas transmite um certo ar de "armadilha para turistas": a infinidade de fotos em livros e na internet costuma torná-la mais impressionante do que na realidade. Dica prática: evite o estacionamento pago do parque. Há um gratuito um pouco mais adiante, a poucos minutos de caminhada.
  • A cidade de onde parte o ferry, Stykkishólmur, é bem agradável. Esperamos o ferry em um aconchegante café chamado Sjávarborg (Link do Google Maps). Ali, como em praticamente todos os cafés da Islândia, serve-se café filtrado, disponível em garrafas térmicas. O cliente recebe uma caneca e pode se servir de café à vontade. O preço é cerca de 5€.
  • Eu adorei a experiência de ir aos Westfjords de ferry. Quando o seu meio de transporte e local de pernoite é uma van, poder seguir a viagem fora dela me pareceu um luxo. O carro fica no convés, e os passageiros se encaminham para a parte de cima, onde há mesas  com sofás, uma cafeteria e área externa. A travessia dura cerca de 2h e as vistas são bonitas. Lembre-se de levar livros, câmera, carregadores, fone de ouvido, lanche e tudo o que for precisar do carro, pois a garagem é trancada depois que o ferry parte.
  • A alternativa ao ferry seria seguir pela estrada por 290 km (em torno de 4h).
  • Há um bom restaurante do outro lado do ferry chamado Flókalundur. Link do Google Maps.
  • Se tiver que escolher ir a uma única cachoeira na Islândia, diria que seria a de Dynjandi, a mais bonita em minha opinião.


Dia 4

Atrações:
  • Hólmavík (capital do folclore)
Notas e ajustes:
  • Bem no início do dia, incluímos uma parada em Ísafjörður, a maior cidade da região. Dentre outras coisas, há uma antiga livraria com muitos livros sobre a Islândia em inglês.
  • Nos Westfjords estão as estradas e paisagens mais lindas da Islândia, mas também os lugares mais inóspitos. Há restaurantes e mercados de forma esparsa, que aparecem em maior quantidade a partir do momento que se entra na Rota 1, praticamente no fim do dia. Se precisar comer, atente-se ao horário de fechamento dos restaurantes no caminho e evite deixar para fazê-lo muito tarde.
  • No caminho há uma cachoeira chamada Valagil. Ali havia uma pequena área de piquenique onde campistas preparavam um almoço. Há uma trilha de 2km até a cachoeira, mas já é possível admirar sua beleza desde o estacionamento.
  • Incluímos uma parada em Heydalur, uma pequena fazenda com hotel, águas termais, restaurante e área de camping. Quando chegamos, infelizmente, pelo horário, já não estavam servindo almoço, apenas sobremesas. Pagamos uma pequena taxa para usar a piscina e o banheiro do hotel. Há uma piscina "selvagem", um pequeno poço de água quente a céu aberto e piscinas térmicas. Além da experiência relaxante, vale destacar um aspecto prático: os vestiários e áreas de higiene das piscinas na Islândia costumam ser melhor equipados que os campings, que ora cobram chuveiros à parte, ora sequer oferecem banho.
  • É provavelmente a melhor região da Islândia para avistar animais:
    • Ovelhas: muito comuns na paisagem, nessa região muitas vezes ficam na beira da estrada. Há que ter cuidado na direção.
    • Raposa do Ártico: há um centro de preservação da espécie, em Eyrardalur. Link do Google Maps.
    • Baleias: com um olhar atento e um pouco de sorte, pode ser possível ver algumas nadando nos fiordes. É mais fácil identificá-las quando elas saem para respirar e borrifam água de seus espiráculos.
    • Focas: há um ponto na estrada onde muitas focas ficam descansando. Praticamente certeza de avistá-las. Link do Google Maps.


Dia 5

Atrações:

  • Akureyri (segunda maior cidade da Islândia - "capital do Norte")
  • Região boa para observação de Aurora Boreal
  • Godafoss (cachoeira)
  • Lago Myvatn (banho termal)
  • Hverir (zona geotermal muito ativa)
Se sobrar tempo:
  • Fosslaug
Notas e ajustes:
  • Akureyri, a segunda maior cidade da Islândia, não é tão encantadora quanto Reykjavic, mas valeu à pena passar um tempo ali. O ponto alto foi tomar um café na Kaffi Ilmur, na construção mais antiga da cidade - um belo casarão.
  • Na região de Akureyri encontra-se o único pedágio de toda a Ring Road, localizado em um túnel. Existe, porém, uma rota alternativa que o contorna: o trajeto acrescenta apenas cerca de 10 minutos à viagem e ainda oferece paisagens muito bonitas. A recomendação que recebi foi optar pelo túnel apenas em caso de mau tempo.
  • Passamos em Hverir, mas não fizemos a visitação ao gêiser. Há um estacionamento pago, e já estava tarde. Da estrada já é possível ver a impressionante fumaça que emana daquele solo.
  • Optamos por dedicar mais tempo ao Lago Myvatn, considerado a alternativa à famosa Blue Lagoon, com a vantagem de custar cerca da metade do preço. Embora os anúncios indiquem horário de fechamento às 22h, na recepção nos informaram que o local permanece aberto 24 horas por dia. Ficamos até o dia escurecer.


Dia 6

Atrações:
  • Passeio de avistamento de baleias: 13:15 em Húsavík
  • Pela manhã: GeoSea (spa termal) ou piscina pública de Húsavík
  • Dettifoss e Canion de Jökulsárgljúfur depois das baleias

Se sobrar tempo:

Notas e ajustes:
  • O passeio de avistamento de baleias acabou sendo um pouco frustrante. Vimos poucas baleias, todas da espécie baleia-de-bico-de-garrafa. A viagem durou cerca de 4 horas em um barco que balançava bastante, causando mal-estar em boa parte da tripulação. Dica importante: leve seus remédios contra enjoo ou compre-os antecipadamente em uma farmácia próxima à entrada do píer.


Dia 7

Atrações:

  • Egilsstaðir (principal cidade regional, comércio local)
  • Stokksnes (praia de areia negra)
Tours:
  • Desvio para Seyðisfjörður (história e arquitetura) - 27 km distante de Egilsstaðir pela Rota 93
Notas e ajustes:
  • A ida para Seyðisfjörður valeu à pena e foi o destaque do dia. A cidade é cênica, daquelas que dizem ter saído de um conto de fadas.
  • Em Egilsstaðir, recomendamos o café Tehúsið para uma parada. Link do Google Maps.
  • Pegamos mal tempo praticamente todo o dia. Havia muita neblina na Rota 93, que deixou a visibilidade das paisagens muito limitada. Por causa disso, acabamos também por não parar em Stokksnes.
  • Incluí de última hora uma parada em Stuðlagil, um cânion que parecia muito bonito pela foto. É um pequeno desvio de 16 km da Ring Road, mas acabei me distraindo, não colocando a parada no GPS, e perdendo a entrada. Quando me dei conta, já estava muito longe e não retornei.

Dia 8

Paradas:

  • Jökulsárlón (lago glacial)
  • Skaftafell (parque nacional, montanhas e glaciares)
    • Imprescindível: Cânion Fjaðrárgljúfur
    • Laki
  • Vik (areias de basalto negro, ponto cidade mais meridional da Islândia)
    • Vista panorâmica na igreja Vík í Mýrdal
  • Skógafoss
  • Seljalandsfoss (cachoeira em que se passa por baixo)
Tours:
Se sobrar tempo:

Notas e ajustes:

  • Dia também prejudicado pelo mal tempo. Não é viável parar em todas as atrações listadas em apenas um dia. Ou há que priorizar, ou dedicar ao menos dois dias ao sul.
  • Foi a região mais turística de toda a viagem. Chegam ônibus de excursão de Reykjavic e os lugares são mais cheios. Todos os estacionamentos são pagos.
  • Para visitar Skaftafell, reserve tempo: o parque possui uma rede extensa de trilhas que merece exploração.
  • O lago Jökulsárlón é incrível, com uma paisagem única na Ring Road: um lago glacial deságua no mar em uma praia de areia negra. Há passeios de barco, mas achamos que não valeria a pena pelo frio que fazia; apenas contemplando da terra firme a vista já é impressionante. Vimos focas nadando, o que tornou a experiência ainda mais especial.
  • Terminamos o dia em Vík, onde há opções de restaurantes e uma extensa praia de areia negra. Fomos na piscina pública da cidade. Não tivemos tempo de parar nas cachoeiras Skógafoss e Seljalandsfoss.
  • Nesse dia, pela segunda vez na viagem, vimos a aurora boreal no acampamento. Diferentemente do primeiro dia, o céu não parecia verde, mas havia uma imensa mancha branca. Com a lente da câmera foi possível ver melhor. Foram as únicas duas vezes na viagem que vimos a aurora.


Dia 9

Atrações:
  • Círculo Dourado (Golden Circle)
    • Parque Nacional de Þingvellir
    • Geysir e Gullfoss
    • Cratera Keriđ
  • Fim do dia em Reykjavic
Notas e ajustes:
  • Paramos no famoso restaurante e fazenda de tomate Fridheimar. Sem termos conseguindo fazer reserva, ainda que com duas semanas de antecedência, há uma área externa onde se senta por ordem de chegada. Chegamos cedo e conseguimos prontamente uma mesa. Por um preço único, pode-se servir de sopa e pão à vontade. A fazenda é muito bonita e é possível visitar a estufa de tomate. Apesar da experiência mais sofisticada, o que pagamos na refeição foi mais barato que em outros restaurantes mais ordinários da Islândia.
  • Do circuito clássico do Círculo Dourado, priorizamos o Parque Nacional de Þingvellir e Geysir, que seriam experiências mais diferentes em relação ao caminho que já havíamos feito até aqui. O restante, pensamos que seria muito para um só dia. Ainda aproveitamos mais umas horas em Reykjavic.
  • Há diversos estacionamentos que dão acesso ao Parque Nacional de Þingvellir. Uns são mais remotos e também mais baratos, podendo ser uma oportunidade de economizar algum dinheiro. Eu fui no principal, perto do centro de visitantes.


Dia 10

  • Resumo: Blue Lagoon 8h e devolver carro 12h

Atrações:

Notas e ajustes:
  • A essa altura, já não havia nem muito tempo, disposição ou orçamento para uma passagem rápida pela Blue Lagoon. A viagem até ali já havia sido muito rica. Também foi importante ter tempo para retirar todas as coisas da camper van com calma no momento da devolução.

Total: 2340 km + 60 km (ferry)


 

Camping Card

  • Site: https://utilegukortid.is/campingcard/?lang=en
  • Preço: €179
  • Funcionamento: Válido para 2 adultos e 4 crianças e uma tenda ou campervan. Pode ser usado por 28 noites a partir do dia em que os acampamentos estiverem abertos (meados de maio ou junho) até 15 de setembro.
  • Custos adicionais: Taxa de pernoite (400 ISK), determinadas comodidades como eletricidade, chuveiros e o uso de máquinas de lavar roupa.
  • Reservas: não é necessário, basta chegar e montar seu acampamento.
  • Descontos: parceria com os postos de combustível Olís e ÓB
    • 14 ISK de desconto por litro de combustível
    • 10% de desconto em alimentos e bebidas
    • 15% de desconto em produtos automotivos e gás de cozinha
    • Café por apenas 65 ISK



Utilitários

Aplicativos:

  • Parka (pagamento em estacionamentos e campings)
  • park4night (aplicativo colaborativo de lugares para acampar com campervan)

Sites:

Aluguel de campervan:

Alimentação e mercado: ideias de preparo para campervan


Café da manhã:
  • Ovos
  • Café da manhã instantâneo
  • Iogurte
  • Frutas
  • Pão
  • Queijo
  • Tapioca
  • Café
Almoço (on the go):
  • Sanduíches: manteiga, presunto, queijo, atum, salmon
  • Salada
Janta:
  • Macarrão
  • Vegetais: tomates-cereja, cogumelos, abobrinha etc.
  • Peixe grelhado
    • Salmão: um dos mais populares
  • Batata cozida
  • Churrasco (com churrasqueira de uso único)
    • Cordeiro é a carne mais popular
    • Hamburguer
    • Salada de batata ou repolho se encontra na seção de gelados dos supermercados
  • Hot dog:
    • Muito popular na Islândia, basta cozinhar as salsichas
  • Salada: alface, tomate, pepino, cenoura
Snacks:
  • Barrinha de proteína e energia
  • Castanhas
Bônus:
  • Levar cuscuzeira e flocão de milho na mala
  • Levar conjuntinho de panela de camping para complementar o da campervan
Itens de mercado:
  • Lenço umedecido
  • Toalhinha higiênica e de limpeza
  • Papel toalha
  • Álcool gel
  • Sabão e esponja para lavar louça

Aurora boreal


Configuração da câmera (Nikon D5000)
  • Equipamentos:
    • Lente grande-angular (ideal: 10–24mm)
    • Tripé
    • Timer automático para evitar trepidação
    • Modo Manual (M)
    • Bateria cheia (o frio consome a bateria mais rápido)
  • Foco:
    • Usar foco manual (MF)
    • Ajustar o foco para o infinito (∞) com precisão
    • Focar em uma estrela ou luz distante usando Live View + zoom digital
    • Ajustar até o ponto mais nítido e não mexer mais na focagem
  • Abertura (f/stop):
    • Usar a menor possível (f mais baixo)
    • Exemplo: f/2.8, f/3.5, f/4
    • Quanto menor o número, mais luz entra (fundamental para fotografia noturna)
  • Velocidade do obturador
    • Começar com exposições de 5 a 15 segundos
    • Evitar passar de 20s para não borrar as estrelas (efeito "star trail")
    • Auroras fracas/lentas: até 15s
    • Auroras fortes e rápidas: 5–8s
    • Quanto mais tempo de exposição, mais luz entra
  • ISO
    • Começar com ISO 1600 ou 3200
    • Subir para ISO 4000–6400 se estiver muito escuro (mas atenção ao ruído)
    • Um valor ISO mais alto torna o sensor mais sensível à luz, permitindo capturar imagens em condições de pouca luz, mas pode aumentar o ruído na imagem
  • Formato da imagem
    • Usar RAW (nunca JPEG)
    • Mais adequado para tratamento digital posterior
  • Balanço de branco
    • Começar com “Luz do dia” (Daylight) ou 4000K–5000K
    • Possível corrigir depois se estiver fotografando em RAW
  • Redução de ruído de longa exposição
    • Desativar se quiser economizar tempo entre fotos
    • A D5000 vai tirar uma segunda foto escura para subtrair ruído, o que dobra o tempo de cada clique