sábado, 11 de abril de 2026

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #3

Um café antes do Polo Norte

A volta para a rota clássica de circum-navegação, dessa vez longe da capital, trouxe um tipo novo de movimento. O tempo nublado da noite anterior havia se transformado em uma chuva fina e persistente, que reduziu a velocidade de nossa manhã. O acampamento estava relativamente cheio, mas se esvaziava rapidamente, à medida que outros viajantes partiam com seus carros.

O acampamento, na cidade de Skagaströnd, contava com uma cozinha bem equipada; foi conveniente empregar mais tempo ali na preparação do café da manhã. Nossa rotina alimentar na campervan começava a se consolidar. Trouxemos na mala para a Islândia uma cuscuzeira, flocão de milho e tapioca, que serviriam como principais fontes de energia ao longo da viagem. De preparação muito simples, bastava água quente e uma boca de fogão. Quando passávamos por mercados nas maiores cidades, abastecíamos o carro com frutas, verduras e ovos, as bases da alimentação diária. Também tínhamos macarrão, que temperávamos com molho de tomate pronto, e eventualmente comprávamos pães e frios. Para lanches mais rápidos, recorríamos a iogurte, castanhas e barrinhas de cereal. Andávamos sempre com macarrão instantâneo para as situações mais improvisadas e, claro, compramos salsichas para fazermos o tradicional cachorro-quente.

Enquanto fazíamos nosso cuscuz, quase todos os outros campistas já haviam partido, mas duas menininhas se aproximaram para entender o que era aquela comida estranha. Logo depois, começamos a conversar com os pais. Eram uma família de holandeses que viviam em um trailer, viajando pela Europa sem muita pressa. Na mesa ao lado da nossa, na cozinha do camping, a mãe dava aula para as crianças - faziam homeschooling enquanto viajavam. Eles trouxeram o próprio veículo para a Islândia. O caminho é feito a partir de um porto na Dinamarca, o desembarque em uma pitoresca cidade a leste, Seyðisfjörður, a qual visitaríamos dentro de alguns dias. A viagem, eles nos contaram, dura três dias.

Depois da passagem pelos Westfjords, eu pensava que me acostumaria com as paisagens. Talvez houvesse algum ponto em que toda aquela beleza se tornaria para mim natural. Mas, logo depois de deixarmos o camping, passamos pelo que me lembro como um dos pedaços mais bonitos da Rota 1. Foi no trecho entre Blönduós e Varmahlíð, cujo traçado da estrada acompanha o rio Blanda. Ele ilustra bem o ciclo da água na Islândia: de uma geleira na meseta central, desce para a planície e termina em um fiorde. Ainda não havia visto um rio como aquele, que se mostrou como uma introdução à força do norte do país.

O norte, por sua vez, conta com sua própria capital, à qual chegamos logo a seguir. Akureyri tem menos encantos que Reykjavik, mas preserva os mesmos ares de pequena metrópole. Com 20 mil habitantes, é a segunda maior cidade do país fora da região metropolitana da capital. A chegada, repleta de centros comerciais, quebra brevemente a desolação da Ring Road. Localizada nas margens de um dos mais largos fiordes do país, contudo, as mesmas paisagens que tanto admirávamos no caminho estavam, também ali, presentes.

A chuva voltou a apertar e fizemos o melhor que se podia fazer por ali: tomar um café em uma casa islandesa. No alto de uma colina, bem no centro da cidade, fica o Kaffi Ilmur, uma cafeteria instalada em uma das casas mais antigas de Akureyri. Construída entre 1911 e 1916, a casa começou como uma selaria, depois se tornou uma ourivesaria, até ser restaurada pela neta do fundador e transformada em café, um século após sua construção. A atmosfera acolhedora e a mobília do século XX trouxeram muito conforto à nossa passagem pela cidade, apesar da chuva.

No destino seguinte, alcançamos, finalmente, uma das regiões vulcânicas mais fascinantes da Islândia, nos arredores do lago Mývatn. À medida que a lava se espalhou pela área, alcançou zonas úmidas; o contato com a água provocou fortes explosões de vapor, dando origem às chamadas pseudocrateras, que moldam uma paisagem dramática - visíveis em pontos ao redor do lago. Já às margens da Ring Road, fica Hverir, uma área geotérmica compacta, porém impressionante, de aspecto quase desértico, com solo tingido por minerais e pouca vegetação, onde poças de lama borbulhante expelem gases quentes com forte cheiro de enxofre.

Encerramos a passagem por Mývatn como ela merecia: mergulhando nos banhos termais. Permanecemos nas piscinas até o dia escurecer, embora tivéssemos sido informados de que o lugar nunca fecha (apesar de o horário oficial indicar funcionamento até as 22h). São águas aquecidas naturalmente pela atividade geotérmica, cujos minerais a deixam com uma coloração azul leitosa. A temperatura varia entre 36°C e 40°C, proporcionando um relaxamento imediato, sobretudo pelo contraste com a atmosfera fria. A piscina, em meio a um entorno vulcânico, tem borda infinita, enquanto o vapor sobe constantemente. O único inconveniente é o cheiro de enxofre, que lembra ovo podre.


Hverir

Centro de Akureyri

Cinema em Akureyri


Café Kaffi Ilmur

Banhos termais de Mývatn


Baleias em Husavík

O dia amanheceu sem chuva em Husavík, cidade portuária de 2500 habitantes, conhecida como um dos melhores lugares do mundo para observação de baleias. Localizada em uma baía relativamente fechada, com abundância de alimento e alta biodiversidade marinha, em razão do encontro da corrente fria do Ártico com águas mais temperadas, é um destino que reúne condições específicas muito favoráveis para a presença desses grandes mamíferos marinhos.

O acampamento em que passamos a noite havia sido o mais cheio até então. No dia anterior, quando chegamos, havia no ar um cheiro forte de peixe, que já trazia as primeiras sensações do mar e antecipava o tom de nossa passagem por Husavík. Praticamente dentro da cidade, situava-se ao lado de um campo de futebol com vistas para a baía. Como a saída da excursão que contratamos para ver baleias seria apenas às uma da tarde, aproveitamos para dormir mais, tomar café da manhã e lavar as roupas, usando a máquina disponível no local.

Quando chegou a hora, pegamos a van e nos dirigimos até o icônico centrinho da cidade para o embarque. Ali havia uma igreja de madeira, em estilo chalé suíço, que, somada ao porto e às montanhas, conferia um clima rústico e tradicional à cidade. Em frente à igreja, havia um píer, com acesso ao porto, onde as agências que organizam os passeios se localizam.

No escritório de nossa agência, recebemos algumas instruções e fomos fortemente instruídos a comprar remédio para enjoo - o mar estava agitado naqueles dias. Havia um enfático aviso sobre o fim da temporada de avistamento dos papagaios-do-mar (lundi no idioma local), outro ícone islandês que pode ser facilmente encontrado na região entre os meses de verão, de maio a agosto. De aparência fofa e quase caricata, lembrando um pinguim, o animal vive majoritariamente no Atlântico Norte, disperso pelo oceano durante o inverno. No verão, muitos retornam à costa islandesa para se reproduzir. Estima-se que cerca de 60% da população mundial da espécie esteja na Islândia.

Sobre as baleias, a agência, chamada Gentle Giants, anunciava com orgulho que, no ano anterior, 99% das saídas tiveram sucesso na observação do animal. De tradição familiar, acumulam 160 anos de experiência nesses mares, - antes com pesca, hoje com turismo - iniciada com o tataravô do atual dono. A própria embarcação usada na excursão mantém a tradição dos antigos barcos de pesca, feitos de carvalho. A empresa forneceu, ainda, vestimentas de flutuação que mantinham o corpo bem aquecido, além de coletes salva-vidas. Em um mastro central, os guias indicavam a direção em que as baleias apareciam utilizando um sistema semelhante ao de um relógio de ponteiros: as 12 horas correspondem à parte frontal da embarcação, as 6 horas à traseira, e assim por diante.

Pouco tempo passou até que a primeira baleia aparecesse. Mamíferos que são, elas precisam nadar até a superfície de tempos em tempos para poder respirar com seus pulmões. Nesse processo, seu espiráculo - o orifício no topo da cabeça - libera ar quente com água condensada, que se assemelha a um jato d'água, visível de longe e frequentemente usado como primeira evidência de presença de baleias na área. Seu movimento segue um padrão ondulatório: primeiro, a cabeça emerge e o vapor é expelido; em seguida, surge o dorso; por fim, aparece a cauda, que fornece o impulso necessário para o mergulho. Isso nos permite, mesmo na superfície, observar toda a amplitude de seus corpos.

A única espécie que conseguimos observar dessa vez foi a baleia-de-bico-de-garrafa, típica das águas frias do Atlântico Norte. Há ao menos uma dezena de outras espécies de baleias e golfinhos que frequentam a baía, como a baleia-jubarte, a orca e até a baleia-azul, o maior animal do planeta. Por alguns instantes, as baleias emergiam, mergulhavam e, pouco depois, reapareciam a muitos metros de distância. O protocolo da embarcação recomenda manter uma distância entre 300 m e 50 m dos animais, sendo necessário desligar o motor quando essa distância se torna muito pequena. Em um ambiente selvagem e imprevisível, não foi um dia de muita sorte. Os melhores avistamentos ocorreram na primeira hora da excursão, que se prolongou por mais três horas na busca por outras espécies. O barco balançava bastante, e boa parte dos passageiros começou a sofrer com o mal-estar.

Em terra firme, recuperamos um pouco as forças almoçando o tradicional prato de fish and chips que podia ser facilmente encontrado no porto, preparado com peixes frescos. Depois, seguimos viagem por um itinerário chamado Círculo de Diamantes, roteiro turístico que passa pelo Lago Myvatn, Husavík e a cachoeira Dettifoss - a maior da Europa em volume d'água -, o local que ainda nos faltava conhecer no norte do país.

Ao deixar a baía onde se localiza Husavík pela Rota 85, passamos a dirigir ao longo da costa aberta do Oceano Ártico. Em algum momento do trajeto, cruzamos o ponto mais setentrional de nossas vidas, superando em alguns graus de latitude a altura que alcançamos durante nossa passagem pelos Westfjords. A partir dali, a viagem começou a se voltar para o sul - e, com ela, a sensação gradual de aproximação do fim.






Husavík



Dettifoss

Um fim que retorna ao início

Depois que deixamos a cachoeira Dettifoss, seguimos até o acampamento Fjalladýrð, em Möðrudalur. Chegar ali foi uma surpresa reconfortante. Em meio a uma região selvagem, após dirigirmos por muitos quilômetros à noite sem ver mais ninguém na estrada, saímos da Rota 1 por um acesso secundário, a Rota 901, até chegarmos ao povoado onde fica o acampamento. Foi como um oásis no deserto.

Möðrudalur é a fazenda mais alta da Islândia, habitada desde os tempos da colonização. Em nossa viagem, foi o mais próximo que chegamos das terras altas islandesas, região central inabitada da ilha. Embora em localização remota, a fazenda é praticamente autossuficiente e conta com estrutura de acomodação, restaurante e lazer. Ao chegarmos, nos permitimos jantar no tradicional restaurante, cujas comidas são preparadas com recursos locais. As casas por ali foram todas construídas com a antiga técnica de turfa, o que deixa o local ainda mais charmoso e autêntico. Como acampamento, não havia, contudo, tanta comodidade na área externa, um espaço muito amplo onde a cozinha, chuveiro e banheiro ficavam muito distantes entre si.

Pela manhã, pudemos apreciar melhor as belezas da fazenda. O mais encantador foram os animais que vivem nas redondezas. Entre animais domésticos e semidomesticados, vimos coelhos selvagens e três raposas-do-ártico. Há ainda uma rena que é alimentada pelos proprietários, mas que não apareceu durante nossa passagem por ali. Não muito longe da fazenda fica o glaciar Vatnajökull, cujas áreas ao redor são habitadas por renas selvagens. É o único lugar da Islândia onde esses animais vivem livremente.

O que se seguiu à estadia na fazenda foi uma travessia mais rápida pelas regiões leste e sul da ilha, com menos pausas. Cabe, neste ponto, descrever um pouco a magnitude do Vatnajökull, um imenso glaciar - um dos maiores do mundo, sendo o maior fora de regiões polares - que cobre cerca de 8% do território islandês. Ao se observar o mapa da Islândia, é a mancha branca, a sudeste, que rapidamente chama a atenção. Com cerca de 8.300 km², sua extensão alcança regiões costeiras por onde passa a Ring Road, embora ali não tenham se formado grandes povoados. Seu tamanho é três vezes maior que a área de Luxemburgo, e a espessura da camada de gelo varia entre 400 m e 600 m. Por baixo de tanto gelo, existem morros, vales e vulcões ativos.

Foi nesse momento que começamos a enfrentar condições climáticas mais adversas. Fizemos um pequeno desvio na Ring Road para conhecer Seyðisfjörður. O caminho se dá pela Rota 93, a partir de Egilsstaðir, por uma estrada de serra. Havia tanta neblina que a visibilidade não passava de poucos metros à frente. Ao chegar a Seyðisfjörður, no entanto, vimos que o trajeto difícil havia valido a pena. Rodeada por montanhas, com altas quedas d’água descendo em direção ao povoado, tive a impressão de que, após tantos dias, estava enfim diante da cidade mais bonita do país - embora ainda achasse que, na Islândia, o lugar mais bonito fosse sempre o próximo. As poucas construções coloridas, como a igreja azul, e as intervenções artísticas da engajada comunidade conferem ao lugar uma beleza que a geografia já havia começado e os moradores decidiram terminar.

Casa turfa no acampamento Fjalladýrð


Acampamento Fjalladýrð

Raposa-do-ártico


Seyðisfjörður




Encontramos em Höfn, povoado com 2500 habitantes, praticamente a única opção de pernoite no sudeste da ilha. O camping estava muito cheio, já indicando um fluxo maior de turistas vindos de Reykjavik, de onde saem muitas excursões pela região sul. Nos 200 km seguintes de estrada, até Kirkjubæjarklaustur, ficam uma série de lagos glaciais, deltas de rio com areia negra, desertos costeiros e campos de lava. Só não há uma cidade.

Nessa viagem, eu já havia feito muitas coisas pela primeira vez: viajado em uma campervan, visto a aurora boreal, alcançado latitudes quase polares. Ainda assim, o caminho de volta ainda reservava experiências fantásticas. Ao longo desse trecho, dezenas de rios de gelo descem do Vatnajökull, muitos deles visíveis desde a estrada, permitindo acompanhar o trajeto do gelo montanha abaixo. A água do degelo se infiltra por fendas, túneis e canais no interior do glaciar, formando verdadeiros sistemas subterrâneos. À medida que se acumula, busca saídas nas bordas do gelo, emergindo com força na forma dos chamados rios glaciais.

A lagoa Jökulsárlón talvez seja o mais impressionante exemplo dessas formações ao longo do caminho. Ali, o volume de água é maior, formando um lago facilmente acessível desde a Ring Road. Blocos de gelo se desprendem do glaciar, dando origem a icebergs de tonalidade azul cristalina e formas variadas, esculpidas pelo tempo e pelo vento. Eles podem passar até cinco anos à deriva no lago, seguindo lentamente pelo rio Jökulsá, o mais curto da Islândia, até desaguarem no Atlântico, na chamada Praia dos Diamantes. Passamos algum tempo explorando a lagoa, o rio e a praia, e, para tornar a experiência ainda mais especial, vimos focas nadando por aquelas águas. Fomos então surpreendidos por uma chuva acompanhada de vento forte, que nos obrigou a retornar para a van.

Por muitos séculos, os rios glaciais do sul foram obstáculos difíceis para os viajantes. Foi apenas em 1974, com a construção da ponte sobre o rio Skeiðará, que o último elo da Ring Road se completou, permitindo a circunavegação total da ilha e reduzindo o isolamento dessa região. Ainda hoje, no entanto, esses rios podem encher rapidamente e destruir a estrada com relativa facilidade. Foi o que aconteceu poucas semanas depois de nossa passagem por ali, na região de Höfn. Uma inundação levou parte do asfalto e, sem rotas alternativas para chegar a Reykjavík, viajantes foram obrigados a dar a volta completa pela ilha, pelo norte.

Trata-se, sobretudo, de uma região dinâmica. A lagoa Jökulsárlón, por exemplo, apesar de lembrar uma paisagem da Era do Gelo, existe há menos de cem anos. O imenso Vatnajökull, por sua vez, vem encolhendo com as mudanças climáticas, recuando progressivamente e se afastando do litoral. Nada ali é fixo: o gelo avança e recua, os rios mudam de curso, a terra se refaz. O que mais impressiona é a sensação de que, naquele pedaço do mundo, a paisagem ainda está em construção.


Lago glacial Jökulsárlón

Rio glacial descendo pela montanha

Rio Jökulsá



Vík í Mýrdal

Vista de Vík í Mýrdal a partir da praia de areia negra

Tivemos uma passagem rápida por Vík í Mýrdal, o ponto habitado mais ao sul da Islândia, conhecido por sua extensa praia de areia negra. Com menos de mil habitantes, o povoado funciona como um pequeno polo de serviços, com restaurantes, mercados e postos de gasolina, além de ter um caráter surpreendentemente cosmopolita: pesquisadores de diversas partes do mundo passam pela região para estudar vulcanismo na universidade local. Por ser um ponto conveniente de parada na estrada, aproveitamos para visitar a piscina pública e tomar banho ali. Como espaço de convivência dos moradores, pudemos observar um fluxo de estrangeiros residentes - não turistas - conversando em inglês, trocando impressões sobre vida e trabalho na região.

Quando paramos no acampamento próximo ao vilarejo de Hella para passar a noite, recebemos o último sinal de que poderíamos concluir a viagem em paz. As luzes da aurora boreal, que haviam aparecido em nossa primeira noite na Ring Road, voltaram a surgir agora, quase no fim do percurso. Desta vez, estávamos em um acampamento vazio, éramos praticamente os únicos ali. Todas as noites anteriores haviam sido nubladas, por vezes chuvosas, sem qualquer chance de ver as luzes. Naquela noite, porém, o céu estava mais aberto, e eu ainda alimentava a esperança de poder vê-las uma última vez antes de partir.

Já dentro da van, depois do jantar, eu observava o céu quando notei um clarão esbranquiçado. Sem qualquer experiência em identificar auroras boreais, ainda assim sabia que aquilo não era uma nuvem comum. A tonalidade era clara e densa, não acinzentada e difusa como costumam ser as nuvens. A confirmação veio pelas lentes da câmera do celular: ao apontá-la para o céu, surgiu o verde inconfundível. A aurora boreal havia aparecido novamente para nós.

O sono durante aquela noite talvez tenha sido o melhor de todos, em que um sonho foi vivido sem a sensação de que o despertar poria fim àquilo. Na manhã seguinte, fizemos o roteiro turístico conhecido como Circuito Dourado e retornamos a Reykjavík, nosso ponto de partida. Voltávamos ao início, mas já não éramos os mesmos. A viagem se completava em forma de círculo: retornar significava, afinal, poder olhar para o mesmo lugar, mas de outra maneira.

Aurora boreal em Hella

Parque Nacional de Þingvellir (Circuito Dourado)

Geysir (Circuito Dourado)



domingo, 15 de fevereiro de 2026

Hringverfir: a rota de circum-navegação na Islândia #2

Este texto é a segunda parte do relato de viagem pela Islândia. Clique aqui para a Parte 1

"Aquele é o Snæfellsjökull... um dos mais notáveis ​​em toda a ilha, e certamente destinado a ser o mais célebre do mundo, por meio de sua cratera vamos chegar ao centro da Terra" 
Viagem ao centro da Terra, Julio Verne.

Uma Ring Road dentro da Ring Road

Dormir dentro da van foi uma experiência melhor do que esperávamos. O sono foi leve, inspirado pela emoção da aurora boreal, e intenso pelo cansaço ainda não recuperado da chegada à Islândia. Apesar de ser apertada, a sensação é semelhante à de dormir em uma cama de casal; o conforto depende diretamente da qualidade do colchão, dos travesseiros e dos cobertores - que eram razoavelmente bons.

A temperatura dentro da van também não foi um problema. O aquecedor funcionava bem e, inclusive, deixava o interior mais quente do que o confortável em pouco tempo. Durante a viagem, às vezes acordávamos com frio, ligávamos o aquecedor por uns vinte minutos e voltávamos a dormir. O maior problema, no entanto, foi a claridade. Apesar de todas as janelas, exceto a frontal do motorista, serem tapadas ou terem cortinas, elas serviam muito mais para garantir privacidade do que para escurecer o carro. Para isso, a única solução foi usar máscara de dormir.

Embora não afetasse muito a qualidade do sono, percebemos que o espaço reduzido atrapalharia bastante a organização do dia a dia. Como em uma barraca de camping, não era possível ficar em pé dentro do carro, o que nos obrigava a nos arrastar para nos movimentar. Por outro lado, poder acordar junto com o início de um novo dia, já praticamente prontos para viajar, trazia a deliciosa sensação de que estávamos vivendo plenamente o lugar, do nascer ao pôr do sol.

Tomamos banho no chuveiro do acampamento, preparamos o café da manhã na van e partimos rumo à Península de Snæfellsnes para percorrer um roteiro frequentemente chamado de “Islândia em miniatura”. Em nossa viagem, foi como percorrer o primeiro círculo formado quando uma pedrinha toca a superfície da água: era uma versão concentrada do país, em que a mesma essência se repetia em outra escala e intensidade, mas com a mesma força do que havíamos começado a explorar.

No pequeno anel rodoviário que contorna a península estão reunidos todos os elementos que tornam a Islândia tão fascinante: montanhas, falésias, praias de areia negra, geleiras, faróis e povoados minúsculos. Já nas redondezas de Akranes, a estrada - e a paisagem - passaram a exibir as características que nos acompanhariam por praticamente todo o percurso. A Ring Road é uma via estreita, com uma faixa em cada mão, raros acostamentos e barras amarelas dispostas nas beiradas para aumentar a visibilidade. A velocidade máxima permitida em todo o país é de 90 km/h, regra que a maioria dos motoristas respeita, mantendo velocidade e distância constantes em relação a outros veículos. A beleza, por sua vez, vem de todas as direções.

Em especial, as quedas-d’água que se formavam pelo caminho eram impressionantes. O interior do país é predominantemente planáltico, o que cria um grande desnível em relação ao litoral. Essa transição - justamente por onde passa a Ring Road - é marcada por falésias, bordas de planalto e escarpas. O degelo permanente, mesmo no verão, alimenta rios e riachos continuamente, que descem essas encostas e, guiados pelas rochas vulcânicas, formam inúmeras cachoeiras antes de finalmente alcançarem o mar. Toda a brutalidade daquele terreno encontrava um desfecho refinado, que me fazia sempre ansiar pela próxima curva.

Encantado com as vistas, eu queria parar o carro a todo momento, mas isso só era possível em pontos específicos da estrada. Algumas placas indicavam áreas de estacionamento, e logo percebi um padrão: a vista nesses estacionamentos seria ainda mais bonita. Eram lugares pensados para parar com segurança, descer e fotografar com calma. Além disso, placas com o pictograma de piquenique indicavam pontos com mesas, onde era possível descansar e até preparar uma refeição.

A rigor, o caminho do dia passou apenas muito brevemente pela Rota 1. A Península de Snæfellsnes e os Westfjords (fiordes do oeste), que viriam a seguir, são desvios em relação ao traçado clássico. Sair da rota principal significou, também, adentrar no lado mais folclórico da Islândia: Borgarnes, a cidade seguinte depois de deixarmos Akranes, está intimamente ligada à tradição literária envolvendo os primeiros colonos nórdicos que se assentaram na ilha. Seus conflitos e feitos heróicos foram preservados em textos medievais chamados sagas, sendo a Saga de Egill, ambientada nesta região, uma das mais célebres.

Conforme nos afastávamos da capital, as cidades iam ficando sucessivamente menores: dos oito mil habitantes de Akranes aos dois mil de Borgarnes, estávamos nos aproximando da região menos povoada da ilha. Diante de um cenário tão simbólico para a formação da Islândia como nação - e de cidades tão diminutas -, passávamos a dividir a estrada com fantasmas de poetas do passado, que descreveram minuciosamente uma paisagem que praticamente não mudou desde então.

Foi assim que paramos no que seria a caverna de um ser mítico do folclore escandinavo, um híbrido de troll e humano descrito na Saga de Bárðar Snæfellsáss. Diz-se que ali viveu Bárðr, guardião da península que leva seu nome e espírito tutelar da região. Mais precisamente, sua morada estaria no glaciar Snæfellsjökull, o grande protagonista daquele território. O Snæfellsjökull é um glaciar formado sobre um vulcão adormecido de formato cônico, que entrou em erupção apenas três vezes nos últimos dez mil anos. Apresenta-se como um farol natural: em dias de céu limpo, sua presença se impõe a longas distâncias.

Infelizmente, quase não restava gelo sobre o glaciar. No verão de 2012, ele desapareceu completamente pela primeira vez na história registrada. Desde então, o Snæfellsjökull, ao lado de outros glaciares do país, passou a revelar - e a denunciar - ano após ano as transformações climáticas pelas quais o planeta vem passando. Desde 2000, as áreas de geleiras na Islândia já encolheram cerca de um décimo. Em 2014, a geleira Okjökull, na região central do país, foi a primeira a ser declarada oficialmente extinta por pesquisadores.

Em Malarrif fica um instigante centro de visitantes, com mapas e informações sobre o Parque Nacional de Snæfellsjökull. Entre outras orientações, o recepcionista nos contou que a estrada que leva até o glaciar, a F-570, estava aberta e podia ser percorrida. As estradas codificadas com a letra F são estradas de montanha: ficam abertas apenas durante um breve período no verão e, por lei, só podem ser acessadas por veículos 4x4, devido à frequente necessidade de se atravessar rios ou terrenos instáveis. Antes de seguir com o percurso pelo parque, acabei acompanhando placas em direção ao glaciar e, por engano, tive uma pequena amostra do que é uma F-Road - íngreme, sinuosa, de chão de cascalho, destinada aos mais aventureiros.

Encerramos o percurso passando por outras atrações do parque. Primeiro paramos em Djúpalónssandur e Dritvík, duas das mais conhecidas praias de areia negra do país, formadas por antigos derramamentos de lava que se solidificaram ao encontrar o mar. Ali, o oceano revela sua força: sobre o solo de seixos negros estão propositalmente espalhados os destroços de um navio britânico que naufragou naquele ponto, preservados como lembrança permanente dos perigos do Atlântico Norte.

Em seguida, fomos a Öndverðarnes, no extremo oeste da península, um lugar que sintetiza bem o isolamento e, por que não, as doces estranhezas da Islândia. Ali fica a única praia de areia dourada de toda a ilha; o que, para o restante do mundo, é o normal, na Islândia, onde o inesperado se repete com frequência, é a exceção. Na ponta da terra, o mar se abre sem limites, o horizonte é largo e o vento sopra constante e violento. Foi ali que finalmente entendi os relatos de portas de carro arrancadas pelo vento: sair do veículo exigia destreza, e o fiz com muito cuidado, para poder caminhar e sentir a geografia extrema daquele lugar.



Centro de visitantes de Malarrif, Snæfellsjökull ao fundo






Praia de areia negra em Djúpalónssandur

Öndverðarnes, o extremo oeste da península

Digressão pelos fiordes

Em nossa segunda noite, os desconfortos de viajar de campervan começaram a se revelar. O tempo fechou, as luzes da aurora boreal não trouxeram mais suas graças, e o cansaço do dia tornou o momento de preparação do jantar menos glamoroso. Em dias claros e de bom tempo, é possível sair da van, cozinhar e comer em uma mesa ao ar livre; mas, com a escuridão, o frio, o vento ou a chuva, resta-nos o confinamento do próprio veículo. Para piorar a situação, o acampamento não dispunha de duchas: o banho era oferecido em um centro esportivo anexo, cujo funcionamento ia apenas até as 22h. Quando terminamos de jantar, já era tarde demais, e encerramos o dia sem banho. A estratégia para lidar com essas situações era usar lenço umedecido higiênico e lavar bem o rosto.

O camping ficava em Grundarfjörður, bem próximo a um dos lugares mais emblemáticos e mais fotografados de toda a Islândia: o Kirkjufell. Da janela de nossa van estacionada, era possível admirá-lo. Sua fama se deve a seu formato, um cone quase perfeito, à sua localização, em um promontório que avança em direção ao mar, e às quedas d'água que o circundam. Além disso, virou um ícone pop ao aparecer em uma famosa série de TV.

Por ali, abastecemos o carro pela primeira vez antes de rumar para os Westfjords, a região mais selvagem e menos habitada da Islândia. De modo geral, os postos de gasolina são bem distribuídos pelo país, e foi fácil encontrá-los ao longo do trajeto. Naquele momento, porém, sem saber exatamente como seria o caminho durante o restante do dia, pareceu a decisão mais prudente a tomar. Os postos funcionam em sistema de autoatendimento, com pagamento em cartão.

Com o tanque cheio, deixamos Grundarfjörður e logo já estávamos em Stykkishólmur, cidade formada em torno de um porto natural, cercado por uma ilha de basalto. É dali que parte o ferry Baldur, com destino aos Westfjords, por onde seguiríamos viagem dentro de algumas horas. Tivemos, enfim, um tempo de pausa, tanto na cidade quanto na travessia de ferry que viria em seguida. Ali conheci a verdadeira beleza das pequenas cidades islandesas: um lugar repleto de casinhas de cores vivas, erguidas no final do século XIX, que imediatamente me transmitiram uma sensação de aconchego. Entrei em uma delas, que funcionava como café - espaços que, àquela altura, já haviam irremediavelmente me conquistado. Na Islândia, o mais comum é o café filtrado, servido à vontade, trazendo calor e conforto ao corpo.

Antes de embarcarmos, fizemos também mais uma comprinha de mercado. Tamanha foi nossa surpresa quando, naquele lugar tão distante de nós, ouvimos uma mãe conversando em português com o filho, explicando que não poderia comprar todos os brinquedos que ele queria. Demoramos um pouco para processar aquele eco familiar em terra estrangeira, momento que precipitou uma longa conversa, interrompida apenas pela necessidade de chegarmos ao ferry a tempo.

Qual teria sido a trajetória de vida de uma brasileira que fora viver na Islândia? De Belém do Pará, ela nos contou que morava ali havia sete anos, depois de realizar um mestrado em Linguística na Dinamarca. Era casada com um islandês e tinham um filho - bem loiro, de bochechas rosadas e pele muito clara - que escolhia presentes para o seu aniversário de cinco anos. O menino falou português conosco, mas com um sotaque já bastante marcado e sonoridade ofuscada por sua timidez. Sobre viver na Islândia, ela manifestou certa exaustão. Disse que o país é lindo, mas que, no inverno, a falta de luz é terrível. Quanto à criação do filho, teme não encontrar ali, um país nórdico onde tudo parece idílico e perfeito, aquilo que chamou de "mundo real". Antes de nos despedirmos, perguntou se havíamos visto as luzes da aurora boreal que surgiram dois dias antes. Foi o primeiro espetáculo desse tipo no ano, e seu filho, mesmo nascido ali, se emocionava cada vez que a apreciava.

Pontualmente às três horas da tarde, o ferry para os fiordes partiu. O carro ficou estacionado no convés, e subimos para um salão de passageiros que contava com pequenos sofás, uma cafeteria e uma incrível vista panorâmica para a baía de Breiðafjörður, com suas inúmeras ilhas. Foi um convite ao descanso. O percurso pelo ferry encurta a distância da Península de Snæfellsnes para os Westfjords em ao menos duas horas e, durante o verão, é possível parar na ilha Flatey, conhecida por ser um ótimo ponto de observação de aves. Provavelmente por falta de demanda naquele dia, o ferry seguiu diretamente para o outro lado da baía.

Já na embarcação, foi possível perceber como a paisagem se endureceu. A Dorsal Mesoatlântica, que separa as placas tectônicas, passa pelo centro da ilha, fazendo a Islândia crescer do centro para as extremidades. Por ficar afastada da zona de vulcanismo mais ativo, onde terra nova é constantemente criada, a região dos Westfjords é muito mais antiga do que o restante da ilha. Há ali rochas de cerca de 16 milhões de anos, enquanto, no restante do país, o terreno tem por volta de 1 milhão. Essa região é um platô geológico, sem vulcanismo ativo, de clima subártico, fazendo lembrar o ambiente da Groelândia, um pedaço de terra ainda mais antigo, a apenas 300 km dali.

Na metáfora de a Islândia ser um planeta, os Westfjords seriam quase como um satélite, ligados ao restante da ilha por um estreito ístmo. Vistos no mapa, formam um corpo à parte, um bloco irregular que se projeta para noroeste. Como as atividades vulcânicas ali cessaram há muito tempo, o quadro natural que se vê hoje resulta muito mais da ação das geleiras do que do fogo. Faz parte do sistema islandês, mas guarda uma feição própria.

São justamente as geleiras se movendo sobre terras antigas e expostas que criam um fiorde. "Fjörður", aliás, é uma dessas palavras que vai se insinuando em nosso vocabulário quando estamos viajando pela ilha. Ao longo do caminho, aprendemos a identificar formas de relevo a partir de toponímia. Foss significa cachoeira, jökull geleira, fjall montanha. O peso e o movimento do gelo, ao longo do tempo, cortaram o platô de basalto de forma profunda, criando essas entradas de mar extremamente cavadas, rodeadas por montanhas altas de topo plano. Para os antigos vikings, que cunharam o termo, significa "por onde os viajantes passam" ou "porto seguro".

Imediatamente depois de descer do ferry, já na região dos Westfjords, andamos alguns metros de carro e logo paramos para fotografar ovelhas. Esses adoráveis animais estão espalhados por todo o país, mas ali a densidade é especialmente alta - de modo inverso à densidade humana, de apenas sete mil habitantes em uma área que ocupa cerca de 20% do território islandês. A explicação é simples: com clima muito frio, terreno íngreme e poucas terras planas e férteis para agricultura, o pastoreio foi a atividade econômica que melhor se sustentou na região. As ovelhas, resistentes ao clima e bem adaptadas ao relevo, pastam livremente durante os meses mais quentes, muitas vezes utilizando as mesmas estradas que os carros para se deslocar. No outono, voltam para suas fazendas, momento que marca um importante evento social do interior islandês chamado réttir. Nele, os agricultores reúnem os rebanhos em currais circulares para que passem o inverno abrigados. Na estrada, vimos algumas dessas estruturas, ainda vazias.

Situada nas margens do fiorde Arnarfjörður, fica uma das cachoeiras mais bonitas de toda a Islândia, a cachoeira Dynjandi (Fjallfoss). Considerada a joia dos Fiordes Ocidentais, ela fica aproximadamente no meio do caminho entre o ponto de desembarque do ferry, em Brjánslækur, e Ísafjörður, a maior cidade da região. Seu nome significa "estrondosa", em alusão ao volume de água que despenca por um declive de cerca de 100 metros de altura, abrindo-se em forma de véu de noiva. Ao longo do percurso da água, outras pequenas cachoeiras vão se formando em cascata, até o deságue final nas águas do fiorde. O momento da chegada também impressiona: a estrada vem descendo do alto da montanha, em curvas fechadas sobre o cascalho, revelando a paisagem aos poucos. Do estacionamento, sobe-se a pé por uma trilha até a cachoeira, de onde se tem a real dimensão de seu tamanho.

Por fim, conduzimos nossa casa móvel até o destino do dia, uma pequenina cidade chamada Bolungarvík, na região de Ísafjörður. Fomos pegos de surpresa quando, já próximos ao destino, deixamos para trás as vistas abertas dos fiordes e adentramos um túnel extenso, escuro e quase claustrofóbico: o Bolungarvíkurgöng. O túnel foi construído para substituir a antiga estrada costeira entre Ísafjörður e Bolungarvík, considerada a mais perigosa do país por margear penhascos sujeitos a constantes quedas de rochas e avalanches. A sensação lá dentro era de isolamento total. Havia trechos muito escuros, e era nítido que estávamos no interior de uma montanha.

O percurso de pouco mais de 5 km, praticamente retilíneo e com velocidade limitada a 70 km/h, fez o tempo de travessia parecer mais longo do que realmente é. Em boa parte do caminho, a via é única, compartilhada pelos dois sentidos, com recuos laterais para permitir a passagem de veículos em direções opostas. Na nossa travessia, no entanto, não cruzamos com nenhum carro vindo no sentido contrário. Quando saímos do outro lado, o sol, que já começava a se pôr, havia baixado ainda mais no horizonte, e a noite chegava cada vez mais cedo do que no dia anterior.

Para descansar ao fim de mais um longo dia, tivemos no camping uma experiência que poderíamos chamar de cinco estrelas. O Camping Sundlaug Bolungarvíkur ocupava os fundos do centro esportivo local e contava com uma estrutura que, dadas as condições da viagem, parecia luxo: cozinha equipada com fogão, máquina de lavar, banheiros com ducha quente e um refeitório amplo. Foi um deleite poder sentar à mesa em um ambiente fechado, preparar a própria janta em um fogão de verdade e, finalmente, tomar um banho depois da experiência improvisada da noite anterior. O centro esportivo, ao qual não chegamos a entrar, mas que era acessível pelo próprio refeitório, oferecia ainda piscina aquecida, hidromassagem, sauna e outras amenidades - dizem os locais ter uma piscina muito melhor do que a vizinha Ísafjörður. Devido à sua localização remota, ele estava vazio, e não precisamos disputar espaço na cozinha com outros hóspedes. O cenário era, ainda, abrilhantado por uma bonita igrejinha luterana rural, erguida sobre uma pequena colina aos pés de um maciço rochoso. Ela não buscava protagonismo naquela paisagem, mas sua presença era impossível de se ignorar.






Montanha Kirkjufell



Stykkishólmur

Stykkishólmur

Porto de Stykkishólmur

Estacionamento do ferry Baldur

Cachoeira Dynjandi




Túnel Bolungarvíkurgöng

Camping Sundlaug Bolungarvíkur


Fim do isolamento: reencontro com a Ring Road


Apesar de já termos passado por alguns fiordes, a ideia do que eles eram, de fato, ainda me parecia um tanto abstrata. Vinha mais da observação do mapa e de verbetes enciclopédicos do que de nossa própria vivência. Até então, eram corpos d’água como tantos outros existentes no mundo, os quais eu chamaria de baía, enseada, recôncavo. Só viria a compreendê-los depois de atravessar, de carro, vários deles em sequência, sem túneis ou pontes que abreviassem o trajeto. O roteiro do dia seria, assim, de reconciliação com a Ring Road: percorreríamos cerca de 500 km, em grande parte por vias costeiras, seguindo estradas que se moldavam ao traçado recortado dos fiordes.

Iniciamos o dia em Ísafjörður, a capital dos Westfjords. Depois de tanto tempo trafegando por regiões vazias e isoladas, ela chega a parecer, de certo modo, uma grande metrópole. Há cinema, livraria, cafés, restaurantes de alta cozinha, lojas de marca. Diferentemente de Akureyri e Reykjavik, a cidade não sofreu grandes incêndios ao longo de sua história; por isso, preserva bem seus edifícios do início do século XIX, época em que a economia pesqueira prosperava. Hoje, cerca de 70% das entradas pelo porto, por onde aportam muitos navios transatlânticos, estão ligadas ao turismo.

Já havíamos percorrido, até ali, uma distância considerável dentro dos Westfjords, mas principalmente por seu interior. A partir de Ísafjörður até chegarmos novamente à Ring Road, começamos a contornar os fiordes por suas beiradas. O caminho se dá em forma de zigue-zague, em que trafegávamos por terrenos altos e víamos o mar muito abaixo. Dependendo do formato do relevo, era possível ver com nitidez a cicatriz do mar se afunilando terra adentro e, do outro lado, a segunda perna do fiorde, fechando o U que lhe dá forma. Em alguns casos, a escala do contorno se tornava mais evidente: chegamos a percorrer cerca de 20 km por uma das margens para, em seguida, rodar praticamente a mesma distância em sentido oposto, retornando quase ao ponto de origem - separados apenas pelo curso d’água, agora do outro lado.

Sendo uma região mais deserta, não havíamos incluído muitos pontos de interesse para paradas ao longo do caminho. Deixamos, contudo, espaços abertos para surpresas inesperadas, que não demoraram a acontecer. Logo no início do dia, encontramos, a cerca de vinte minutos de Ísafjörður, um centro de estudo e conservação de raposas-do-ártico, o único mamífero terrestre nativo da Islândia, presente na ilha há pelo menos 3.500 anos, muito antes da chegada dos primeiros colonos vikings, no século IX. Do lado de fora de um casarão do século XIX, duas raposas, de tamanho pouco maior que o de um gato doméstico, dormiam em um espaço cercado. No interior, havia um café e uma pequena exposição dedicada a esses animais.

Adaptados a viver em temperaturas extremas de até -70°C, a característica mais singular da espécie é sua camuflagem sazonal, que acompanha as estações do ano. Durante o verão, adquirem a coloração azul. No inverno, a pelagem torna-se branca, permitindo que caminhem pela neve e pelas geleiras quase sem serem notadas. A transição ocorre no outono e na primavera, quando assumem tons intermediários de bege, entre o azul e o branco. Enquanto, no restante do mundo, cerca de 90% das raposas são predominantemente brancas, nos Westfjords aproximadamente 80% são azuis, coloração mais adaptada à vida costeira. O centro de conservação também chama atenção para a caça desses animais, prática cultural secular voltada à obtenção de pele e ainda legalizada em muitas partes do país, sobretudo como forma de proteção aos rebanhos de ovelhas e de controle populacional. Com o manejo correto, a caça e a conservação coexistem em harmonia e a raposa não está, hoje, ameaçada de extinção.

Outra surpresa que tornaria nosso dia melhor foram as focas, que por hábito descansam bem na entrada do fiorde Skötufjörður. Na continuação da viagem, pela Rota 61, enquanto dirigíamos o carro prestando especial atenção no mar, na esperança de poder avistar baleias, chegamos a um ponto de observação de focas. Depois de reparar nos primeiros animais, que de longe pareciam pedras imóveis, percebi ser ali um ponto já bastante conhecido, com placas indicativas, um pequeno estacionamento para parar com calma e até um café instalado em uma graciosa casa de turfa, dessas de telhado coberto por gramado. Foi uma sensação de recompensa depois de tantos quilômetros ao volante, quebrando a monotonia que começava, pouco a pouco, a se insinuar na estrada.

O único lugar do dia que realmente alfinetamos no mapa para conhecer foi a fazenda Heydalur, da qual ouvimos falar no acampamento na noite anterior. Ela estava a apenas 12 km de desvio da Rota 61 e foi uma ótima oportunidade de explorar ainda mais o lado rural da Islândia. A fazenda conta com fontes termais próprias, pequenas piscinas e banheiras aquecidas naturalmente, além de estufas geotérmicas, onde plantas e vegetais crescem mesmo em climas frios. Relaxamos um pouco nas piscinas, cuja água variava entre 35°C e 40°C. Uma delas era "selvagem", em um poço a céu aberto, e a outra construída, aproveitando o calor geotermal, com vestiário ao lado. Aproveitamos para tomar banho ali mesmo, e dali em diante visitar as piscinas termais passou a fazer parte da nossa rotina de viagem, unindo relaxamento e praticidade ao evitar os banhos improvisados nos acampamentos. Também é possível acampar na fazenda, e havia um grande grupo de motorhomes com placas da Holanda no local.

O plano era termos almoçado em Heydalur, onde havia um restaurante bem avaliado, em que muitos dos ingredientes são plantados ali mesmo. No entanto, chegamos tarde demais, a tempo apenas da sobremesa. As horas dirigindo pelos fiordes, somadas às muitas paradas pelo caminho, haviam tornado o dia excepcionalmente longo. Depois de deixarmos a fazenda, passamos por Holmavik, maior cidade da região  - conhecida como a capital do folclore -, mas o mercado já estava fechado. Estávamos ainda longe do destino e quase não encontrávamos opções de alimentação pelo caminho. A noite caiu sobre a estrada. Havia uma esperança de que a aurora boreal surgisse, o que traria ânimo àquele arrastado fim de dia, mas o céu não reunia as condições favoráveis. Entramos em uma pizzaria discreta à beira da estrada, porém a cozinha também já estava fechada.

Quando finalmente alcançamos a Ring Road, a mudança foi instantânea: outro ritmo, mais carros, alguns caminhões, mais luzes, mais movimento. Conseguimos parar em um posto grande, perto de fechar, mas que ainda servia alguns sanduíches. Sentados ali, comendo sob a luz baixa e observando os veículos passando, senti claramente o contraste entre o isolamento dos fiordes e o movimento da Rota 1. Foi o momento que entendemos que retornamos, de uma vez, ao fluxo principal da ilha.

Traçado da estrada que margeia os fiordes

Estrada à beira de um fiorde, de relevo elevado em relação ao mar

Casa turfa próxima ao local de observação de focas

Decoração do restaurante da fazenda Heydalur

Raposa no centro de conservação de raposas-do-ártico


Fazenda Heydalur