Prólogo: um país de bordas
Em que ponto no tempo começamos a contar uma história? A da Islândia se inicia quando a massa de terra que viríamos a chamar de América se separa daquele que continha o "Velho Mundo". No meio do caminho restou uma dorsal, isto é, uma cadeia de montanhas submarinas. Dentro dessa cadeia, bem ao norte, onde a cordilheira emerge e o sol pouco toca, fica a Islândia.
Essa pequena ilha, perdida na deriva continental, tem cerca de 15 milhões de anos. Em perspectiva, no entanto, é uma das mais jovens do planeta. Se a história da Terra fosse comprimida em um ano, o surgimento da Islândia seria na noite do dia 30 de dezembro. Seu tamanho é grande o suficiente para abrigar uma variedade de paisagens dramáticas, que misturam em um só espaço atividade vulcânica, imensos glaciares e caudalosas cachoeiras, e ainda assim pequeno o suficiente para ser contornado, de carro e a um ritmo suave, em não muito mais do que uma semana.
A Islândia é um planeta em miniatura - não há uma descrição mais óbvia nem tão justa. Assim como a Terra existe em um universo em expansão, a Islândia vive na expansão do oceano, crescendo cerca de 2 cm por ano à medida que as placas tectônicas se afastam. O evento caótico que permitiu a vida ali é diferente de qualquer outro: por sua latitude, próxima ao círculo polar, seria de esperar um lugar muito mais frio e inóspito. Contudo, uma corrente marítima quente vinda do Golfo do México ameniza o clima, que não costuma cair muito abaixo de 0°C nas zonas costeiras, mesmo no inverno. O calor das profundezas do planeta, por sua vez, encontrando ali um fácil caminho até a superfície, garante que quase todas as casas sejam aquecidas com uma fonte inesgotável de energia geotérmica.
Foi com a ideia de pisar em um pedaço vivo da Terra que chegamos à Islândia, em uma viagem que começou antes mesmo do desembarque. Ainda na etapa de criação do roteiro, olhei tantas vezes o mapa da ilha, um tipo de círculo acidentado mas harmonioso, que já me sentia íntimo àquele estranho lugar. Cabia inteiro e com riqueza suficiente de detalhes em uma folha A4 ou tela de computador, como se fosse possível abraçar aquele território. Quando pisei ali pela primeira vez, parecia um lugar já frequentado tantas outras vezes em pensamento.
Abraçar a ilha, no caso da Islândia, tem um sentido quase literal; era, a propósito, o que estávamos prestes a fazer. O interior do país, composto por desertos de lava e gelo, é inóspito, tem um inverno severo e é praticamente inabitado. Isso criou um país de bordas povoadas e interior deserto, onde mais de 90% da população vive em regiões costeiras, e cerca de 60% vive apenas na região metropolitana da capital, Reykjavík. Completando o sentido de abraço, que envolve e acolhe, está a Rota 1, a principal estrada do país: uma via de circum-navegação que permite a qualquer pessoa, com um carro, desbravar esse mundo tão singular.
Primeiras impressões
Acordamos na manhã de primeiro de setembro em uma pousada em Keflavík, perto do único aeroporto internacional da Islândia. Nessa altura do ano, final do verão, os dias ainda são longos, com cerca de catorze horas de sol, e as temperaturas amenas. Fomos andando até a avenida principal da cidade, onde pegaríamos um ônibus até a agência de aluguel de carros. A partir dali, iniciaríamos a viagem de contorno da ilha.
A primeira impressão que tive das cidades islandesas veio desse curioso lugar. Culturalmente ligada aos países escandinavos, a Islândia conserva o estilo nórdico em suas construções, conhecido pelo contraste entre o aconchego interno e o rigor do ambiente externo: as casas são coloridas, integradas à natureza, têm telhados íngremes para evitar o acúmulo de neve e janelas grandes que favorecem a iluminação. Sobretudo, oferecem espaços confortáveis e acolhedores.
A diferença islandesa, contudo, está no material empregado nas fachadas. Embora geralmente construídas em madeira, muitas casas são revestidas por chapas metálicas, semelhantes às de um contêiner. Isolada do mundo, a Islândia passou a adotar o ferro corrugado por ser mais barato, resistente e fácil de importar, vindo principalmente do Reino Unido, onde o material era usado em galpões e fábricas. Aqui, viraram identidade cultural: os islandeses passaram a pintar as chapas com cores vivas, trazendo alegria a um ambiente tão cinzento e escuro durante, ao menos, metade do ano.
Ainda assim, parecia faltar alma à Keflavík. Talvez fosse o fato de a cidade ter crescido em torno de uma base militar dos Estados Unidos, usada desde a Segunda Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria. Talvez fosse por toda a região da península de Reykjanes, onde fica a cidade, ser repleta de portos naturais: o vai e vem de barcos conferia à Keflavík um clima passageiro, de cidade-dormitório. Quando cheguei à avenida principal, não parecia exatamente uma rua, mas uma rodovia. Ali, as construções de ferro formavam edifícios mais retilíneos, como lojas de conveniência de postos de gasolina, drive-thrus de restaurantes ou galpões, completando a aparência industrial do lugar.
Uma casa móvel
Ao norte da cidade, perto de um entroncamento de estradas, em um amplo terreno cercado por galpões industriais, ficava a oficina da Go Campers, empresa de aluguel de carros. Diante de mim, mais uma vez, um mapa da Islândia emoldurado na parede: tracei mentalmente a rota de circum-navegação, ansiando pelo que estava por vir. Em uma sala atrás do balcão de atendimento, a funcionária recolheu uma mesa e duas cadeiras de campismo, junto com cobertores, travesseiros e dois cartuchos de gás. Em seguida, conduziu-me até o carro e fez uma breve demonstração sobre o seu uso.
O veículo era uma Peugeot Partner, um tipo de furgão leve e versátil. A parte destinada aos passageiros havia sido adaptada para uma pequenina casa móvel: algumas estacas de madeira sustentavam a cama, cuja altura chegava aproximadamente aos ombros do motorista. O estrado era formado por duas tábuas de madeira, sobre as quais se apoiavam os colchões, perfeitamente ajustados ao espaço. Sob a cama, havia um compartimento amplo, onde se podiam guardar malas e outros pertences. Na parte de trás, um móvel com prateleiras fazia as vezes de cozinha, abrigando um fogareiro, uma caixa com louça, panelas e demais utensílios. Havia ainda um pequeno frigobar, uma lâmpada com baterias próprias e um carregador USB e aquecedor conectados à bateria do carro. Para cozinhar, havia duas opções: abrir as portas traseiras da van e apoiar o fogareiro sobre o tampo das prateleiras, ou abaixar uma tábua de madeira presa à lateral, que servia como mesa improvisada.
A recolha do carro não foi um mero procedimento, mas um ritual de partida pela Ring Road. Antes de assinar o documento que confirmava as condições em que recebi o veículo, ouvi as últimas e mais enfáticas recomendações da funcionária. A primeira dizia respeito ao uso do aquecedor durante a noite: havia um medidor de bateria, e eu não podia deixá-la baixar além de certo nível, sob o risco de descarregar completamente o carro. A segunda tratava dos fortes ventos da ilha, que frequentemente arrancam as portas dos carros ao serem abertas - um tipo de incidente comum na Islândia e que nenhum seguro cobre. A última advertência referia-se aos animais na estrada, sobretudo as ovelhas, responsáveis pela maioria dos acidentes por atropelamento, também não cobertos pelo seguro.
Liguei a ignição e arrancamos com o carro. Apesar de nunca ter dirigido uma van, logo me acostumei ao seu porte. A primeira parada do dia seria Reykjavík, a apenas quarenta minutos dali. Mas antes, fizemos um desvio até um supermercado da icônica rede Bónus para abastecer o frigobar. Os mercados dessa rede se destacam na paisagem islandesa por estarem sempre bem localizados e por suas cores predominantemente amarelas, com um mascote rosa - um porquinho-cofrinho. Compramos pães, queijos, iogurte, frutas, verduras, macarrão, alguns embutidos e pequenas refeições prontas. Para melhor conservação, as verduras, em vez de ficarem em geladeiras, ficam em salas inteiramente climatizadas, frias, onde é difícil permanecer por muito tempo. A qualidade, por sua vez, é altíssima.
A rede Bónus é tida como a mais econômica do país, o que não significa que seus preços sejam baixos. Afastada das principais rotas comerciais e com um mercado consumidor pequeno, a Islândia enfrenta custos logísticos elevados, que encarecem os bens de consumo. Produtos podem custar duas ou três vezes mais que na Europa continental, já que quase tudo precisa ser importado em pequenos volumes. Soma-se a isso o elevado padrão de vida no país, considerado um dos de maior IDH do mundo, sustentado pelo modelo escandinavo de bem-estar social e por uma carga tributária alta.
Ainda assim, eu me sentia leve. Viajar em uma campervan e fazer compras em supermercados é, de longe, o modo mais econômico de percorrer a Ring Road, evitando estadias em hotéis - caros e nem sempre com uma qualidade que justifique os preços - e refeições em restaurantes. Embora o preço do combustível também figure entre os mais altos do mundo, não haveria maneira mais prática ou acessível de fazer essa viagem.
Superfícies instáveis
Há quem diga que a Islândia poderia ser apagada do mapa sem deixar rastros, e que a história da humanidade pouco teria mudado sem sua existência. Li essa frase em um livro de fotografias sobre a ilha, deixado sobre uma mesa de centro em um dos cafés por onde passei. Muitas vezes omitida em mapas-múndi simplificados, e frequentemente ignorada nos mapas da Europa, a Islândia só costuma aparecer na mídia quando suas atividades vulcânicas interrompem voos e afetam mercados.
São cerca de 130 vulcões na Islândia, dos quais 18 entraram em erupção ao longo da história escrita do país, registrada desde os primeiros povoamentos, no século IX. Em 1783, ocorreu a explosão mais violenta de que se tem notícia: durante oito meses, foram expelidas cerca de 42 bilhões de toneladas de lava, contaminando o solo, arruinando colheitas e causando a morte de metade dos animais e de um quarto da população humana da ilha, seja por intoxicação ou pela fome que se seguiu. A quantidade de dióxido de enxofre lançada à atmosfera provocou uma queda brusca nas temperaturas em todo o mundo, sobretudo na Europa. A escassez resultante das más colheitas, acreditam alguns historiadores, foi uma das causas que contribuíram para a eclosão da Revolução Francesa em 1789.
Mais recentemente, em 2010, a erupção de um vulcão no sul da ilha, o Eyjafjallajökull, fechou o espaço aéreo de mais de vinte países, na que foi a maior interrupção de tráfego aéreo desde a Segunda Guerra Mundial. A partir de 2021, na mesma península de Reykjanes que nós percorríamos a caminho de Reykjavík, uma série de erupções pôs fim a mais de oitocentos anos de dormência vulcânica na região. Esses episódios seguiram um padrão semelhante: durante meses, enxames sísmicos sacudiram o solo até que uma fissura se abrisse.
Diferentes sistemas vulcânicos foram ativados - a maioria, por sorte, distante de centros urbanos. Em 2023, contudo, uma erupção próxima à cidade de Grindavík forçou o deslocamento de toda a população. Em novembro, os moradores foram evacuados; a erupção ocorreu em 18 de dezembro e cessou apenas em meados de janeiro de 2024. A cidade só foi reaberta a residentes e turistas no final do mesmo ano.
Uma obra na ligação direta entre Keflavík e Reykjavík nos obrigou a contornar a península de Reykjanes, prolongando o trajeto justamente por aquele pedaço de terra recém-criado. A impressão era avassaladora. Em alguns pontos, fumaça ainda emanava do solo, como um corpo quente que acaba de esfriar. A paisagem parecia uma destruição generalizada, um inverno vulcânico: o que restou depois de um grande evento de ruptura. Sobre aquele basalto fresco, endurecido em formas irregulares, o musgo - uma das formas de vida mais primitivas - começava a crescer novamente, criando um contraste marcante de cores e trazendo, à escala de tempo de uma vida humana, a potência dos ciclos naturais de destruição e reconstrução.
A vida também se ajustava. A estrada seguia com remendos e desvios para contornar trechos destruídos, e as placas de trânsito alertavam que era proibido parar ali por risco de vida. Quem ousasse estacionar para tirar fotos ainda poderia receber uma pesada multa. O enxofre impregnado no ar provocava um mau cheiro intenso, reforçando que o solo permanecia ativo. Em locais mais estáveis, por outro lado, surgiam placas indicando trilhas guiadas para o avistamento dos vulcões, algumas oferecendo a chance rara de observar a lava sendo expelida.
A maior menor cidade do mundo
Em Reykjavík, a impressão fria que me acompanhara desde Keflavík logo se dissipou. Ali, ficou claro que a noção que se tem de cidade grande ou pequena, aos olhos de quem vem de fora, não pode ser aplicada de modo direto à Islândia. Com cerca de 140 mil habitantes, Reykjavík não figuraria nem entre as duzentas cidades mais populosas do Brasil. Ainda assim, com autenticidade e personalidade próprias, a capital se afirma no mundo como um polo cultural relevante, de ares cosmopolitas, criativa, e também como centro financeiro e de alta tecnologia.
Estacionamos a campervan na garagem da Harpa para explorar, durante uma tarde, o tradicional bairro de Miðborg. O percurso se deu principalmente entre dois dos edifícios mais emblemáticos da capital: a própria Harpa, um moderno salão de concertos, e a Hallgrímskirkja, a maior igreja do país. Ambos traduzem, cada um ao seu modo, a ambição de construir uma linguagem arquitetônica que represente a Islândia contemporânea, com formas abertamente inspiradas na paisagem local. Na Harpa - nome de um instrumento musical, mas também do mês que marcava o início do verão no antigo calendário nórdico - a fachada de painéis hexagonais coloridos remete ao basalto, a rocha vulcânica negra tão característica da ilha. Já a catedral, em estilo luterano, evoca montanhas, geleiras e, sobretudo, as formações de basalto colunar em “tubos de órgão”, como as de Svartifoss.
O caminho entre esses dois marcos revela uma cidade inesperadamente colorida. Primeiro, pela pintura das casas, em cores vibrantes, que aquecem visualmente o ambiente que insiste em ser opaco. Na mais movimentada rua do centro, as cores do arco-íris ocupam o próprio asfalto, como declaração pública de um espírito progressista que abraça a diversidade e a inclusão. Por fim, pela presença de gente do mundo todo: trabalhadores imigrantes, sobretudo da Europa Central, do Leste Europeu e das Filipinas, e o constante fluxo de turistas que, ano após ano, movimentam a cidade.
A Islândia saiu muito rapidamente de uma sociedade rural, que vivia de pesca artesanal e agricultura de subsistência, para a sociedade moderna e urbanizada que se vê hoje. Há trinta anos, cerveja era ilegal por questões morais, residentes não podiam ter cachorro para evitar a transmissão de doenças, e o único canal de TV do país saía do ar às quintas-feiras e durante todo o mês de julho. Mesmo assim, vestígios desse passado permanecem: casas de turfa, construídas com técnicas medievais que empregam solo orgânico, musgo, pedras e madeiras, ainda podem ser encontradas em todo o país, como vestígios de um passado não tão distante quanto parece.
Outra peculiaridade da cidade é a ausência das grandes redes internacionais de fast-food. Em contrapartida, o cachorro-quente islandês, o pylsa, se tornou um verdadeiro ícone nacional e melhor amigo do viajante. Servido com cebola crua ou crocante, katchup e mostarda, ele se diferencia sobretudo pela salsicha: um tipo único feito principalmente com carne de cordeiro. Comer fora na Islândia é caro mesmo para a população local, de modo que o pylsa se popularizou como opção barata, saborosa e fácil de encontrar. Para quem cruza a Ring Road, é o lanche típico dos postos de gasolina.
Reykjavík simboliza, assim, a autenticidade e, de certo modo, a resistência islandesa diante da modernização abrupta. Ao mesmo tempo em que o turismo de massa e as lojas de lembrancinhas genéricas se multiplicam no centro, os séculos de domínio colonial ensinaram à Islândia certa cautela na assimilação de influências estrangeiras. O comércio de segunda mão é parte visível do cotidiano, menos suscetível a impulsos consumistas e distante de artigos supérfluos. Marcas locais, por sua vez, produzem itens de alta qualidade, resistentes e feitos para durar muitos invernos. Mesmo sob a inevitabilidade da mudança, Reykjavík demonstra que é possível preservar uma postura genuína.
Aurora Borealis: largada na circum-navegação
Iniciamos, definitivamente, a jornada pela Ring Road. Escolhemos percorrê-la no sentido horário para aproveitar melhores temperaturas ao norte, onde o frio chega mais rapidamente que no sul, conforme o verão vai se aproximando do fim. Assim, seguimos viagem em direção à cidade de Akranes, situada a apenas 50 km a norte de Reykjavík.
Akranes surgiu como uma parada natural em uma região próxima à capital, onde havíamos passado a maior parte do dia. Cogitamos ir até a cachoeira de Gylmur, mas seria inviável pelas distâncias. O trajeto exigiria contornar todo o fiorde Hvalfjörður, em uma viagem de mais de 100 km. Para chegar à queda d'água, seria necessário, ainda, caminhar por uma trilha de 7 km entre ida e volta.
Até 1998, esse contorno era a única rota possível entre Reykjavík e Akranes. Um fiorde, afinal, é uma entrada de mar estreita e profunda, em forma de U, ladeada por encostas íngremes; uma cicatriz lenta, escavada por antigas geleiras. É ele que torna tão recortado o litoral de regiões frias como a Islândia. A abertura do túnel de Hvalfjörður, todavia, encurtou o percurso drasticamente: o que antes levava mais de uma hora passou a ser atravessado em poucos minutos. São quase 6 km de túnel, dos quais cerca da metade corre abaixo do nível do mar, unindo diretamente as duas extremidades do fiorde.
Logo chegamos a Akranes para nossa primeira noite dormindo na van. A cidade se estende por uma península rodeada de mar por quase todos os lados, onde a terra plana encontra um oceano amplo, criando uma calma peculiar. O camping ficava à beira de uma pequena praia, de onde era possível ver o céu e o mar. Por volta das oito da noite, o dia ainda permanecia claro. Estacionamos a van com a traseira voltada para o mar e tiramos a mesa e as cadeiras de camping para preparar o jantar ao ar livre, aproveitando o bom tempo que fazia.
Calhou de descobrirmos que Akranes, com aquele céu sem interrupções, era um ótimo lugar para a observação da aurora boreal. Não era esperado que a víssemos já naquela viagem; em geral, elas começam a aparecer mais para o fim de setembro. Em dado momento, porém, uma agitação tomou conta do acampamento. Saímos da van e, ao olhar para cima, o céu estava verde.
Acho que a aurora boreal é um tipo de fenômeno que premia aqueles confinados nos lugares mais frios do planeta. É o mundo revelando como pode ser belo mesmo durante a longa noite de seis meses das regiões polares. Não apenas belo, mas misterioso: os tons verdes, às vezes inclinando-se ao roxo, parecem obra de alguém dado ao exagero e ao espetáculo, como se dissesse, com certo deboche: "olha o que consigo fazer sem esforço algum".
Vê-la pela primeira vez, logo na primeira noite de acampamento, foi uma emoção, dessas que confirmam que o mundo guarda artimanhas inesgotáveis para nos surpreender. Não poderia haver melhor cartão de visitas para a Ring Road, um aviso luminoso de que aquela estrada ainda teria muito a revelar.



































