Um café antes do Polo Norte
A volta para a rota clássica de circum-navegação, dessa vez longe da capital, trouxe um tipo novo de movimento. O tempo nublado da noite anterior havia se transformado em uma chuva fina e persistente, que reduziu a velocidade de nossa manhã. O acampamento estava relativamente cheio, mas se esvaziava rapidamente, à medida que outros viajantes partiam com seus carros.
O acampamento, na cidade de Skagaströnd, contava com uma cozinha bem equipada; foi conveniente empregar mais tempo ali na preparação do café da manhã. Nossa rotina alimentar na campervan começava a se consolidar. Trouxemos na mala para a Islândia uma cuscuzeira, flocão de milho e tapioca, que serviriam como principais fontes de energia ao longo da viagem. De preparação muito simples, bastava água quente e uma boca de fogão. Quando passávamos por mercados nas maiores cidades, abastecíamos o carro com frutas, verduras e ovos, as bases da alimentação diária. Também tínhamos macarrão, que temperávamos com molho de tomate pronto, e eventualmente comprávamos pães e frios. Para lanches mais rápidos, recorríamos a iogurte, castanhas e barrinhas de cereal. Andávamos sempre com macarrão instantâneo para as situações mais improvisadas e, claro, compramos salsichas para fazermos o tradicional cachorro-quente.
Enquanto fazíamos nosso cuscuz, quase todos os outros campistas já haviam partido, mas duas menininhas se aproximaram para entender o que era aquela comida estranha. Logo depois, começamos a conversar com os pais. Eram uma família de holandeses que viviam em um trailer, viajando pela Europa sem muita pressa. Na mesa ao lado da nossa, na cozinha do camping, a mãe dava aula para as crianças - faziam homeschooling enquanto viajavam. Eles trouxeram o próprio veículo para a Islândia. O caminho é feito a partir de um porto na Dinamarca, o desembarque em uma pitoresca cidade a leste, Seyðisfjörður, a qual visitaríamos dentro de alguns dias. A viagem, eles nos contaram, dura três dias.
Depois da passagem pelos Westfjords, eu pensava que me acostumaria com as paisagens. Talvez houvesse algum ponto em que toda aquela beleza se tornaria para mim natural. Mas, logo depois de deixarmos o camping, passamos pelo que me lembro como um dos pedaços mais bonitos da Rota 1. Foi no trecho entre Blönduós e Varmahlíð, cujo traçado da estrada acompanha o rio Blanda. Ele ilustra bem o ciclo da água na Islândia: de uma geleira na meseta central, desce para a planície e termina em um fiorde. Ainda não havia visto um rio como aquele, que se mostrou como uma introdução à força do norte do país.
O norte, por sua vez, conta com sua própria capital, à qual chegamos logo a seguir. Akureyri tem menos encantos que Reykjavik, mas preserva os mesmos ares de pequena metrópole. Com 20 mil habitantes, é a segunda maior cidade do país fora da região metropolitana da capital. A chegada, repleta de centros comerciais, quebra brevemente a desolação da Ring Road. Localizada nas margens de um dos mais largos fiordes do país, contudo, as mesmas paisagens que tanto admirávamos no caminho estavam, também ali, presentes.
A chuva voltou a apertar e fizemos o melhor que se podia fazer por ali: tomar um café em uma casa islandesa. No alto de uma colina, bem no centro da cidade, fica o Kaffi Ilmur, uma cafeteria instalada em uma das casas mais antigas de Akureyri. Construída entre 1911 e 1916, a casa começou como uma selaria, depois se tornou uma ourivesaria, até ser restaurada pela neta do fundador e transformada em café, um século após sua construção. A atmosfera acolhedora e a mobília do século XX trouxeram muito conforto à nossa passagem pela cidade, apesar da chuva.
No destino seguinte, alcançamos, finalmente, uma das regiões vulcânicas mais fascinantes da Islândia, em torno do lago Mývatn. À medida que a lava se espalhou pela área, alcançou zonas úmidas. O contato entre a lava e a água provocou fortes explosões de vapor, que deram origem às chamadas pseudocrateras - que moldam uma paisagem dramática. Às margens da Ring Road, é possível observar algumas dessas formações em Hverir, uma área geotérmica compacta, porém impressionante, de aspecto quase desértico, com solo tingido por minerais e pouca vegetação, onde poças de lama borbulhante expelem gases quentes com forte cheiro de enxofre.
No destino seguinte, alcançamos, finalmente, uma das regiões vulcânicas mais fascinantes da Islândia, nos arredores do lago Mývatn. À medida que a lava se espalhou pela área, alcançou zonas úmidas; o contato com a água provocou fortes explosões de vapor, dando origem às chamadas pseudocrateras, que moldam uma paisagem dramática - visíveis em pontos ao redor do lago. Já às margens da Ring Road, fica Hverir, uma área geotérmica compacta, porém impressionante, de aspecto quase desértico, com solo tingido por minerais e pouca vegetação, onde poças de lama borbulhante expelem gases quentes com forte cheiro de enxofre.
Para arrematar a passagem por ali, nos molhamos nos banhos termais de Mývatn. Ficamos nas piscinas até o dia escurecer, embora tivéssemos sido informados de que o lugar nunca fecha (apesar de o horário oficial indicar funcionamento até as 22h). São águas aquecidas naturalmente pela atividade geotérmica, cujos minerais a deixam com uma coloração azul leitosa. A temperatura varia entre 36°C e 40°C, proporcionando um relaxamento imediato, sobretudo pelo contraste com a atmosfera fria. A piscina, em meio a um entorno vulcânico, tem borda infinita, enquanto o vapor sobe constantemente. O único inconveniente é o cheiro de enxofre, que lembra ovo podre.
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| Hverir |
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| Centro de Akureyri |
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| Cinema em Akureyri |
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| Café Kaffi Ilmur |
Baleias em Husavík
O dia amanheceu sem chuva em Husavík, cidade portuária de 2500 habitantes, conhecida como um dos melhores lugares do mundo para observação de baleias. Localizada em uma baía relativamente fechada, com abundância de alimento e alta biodiversidade marinha, em razão do encontro da corrente fria do Ártico com águas mais temperadas, é um destino que reúne condições específicas muito favoráveis para a presença desses grandes mamíferos marinhos.
O acampamento em que passamos a noite havia sido o mais cheio até então. No dia anterior, quando chegamos, havia no ar um cheiro forte de peixe, que já trazia as primeiras sensações do mar e antecipava o tom de nossa passagem por Husavík. Praticamente dentro da cidade, ficava ao lado de um campo de futebol com vistas para a baía. Como a saída da excursão que contratamos para ver baleias seria apenas às uma da tarde, aproveitamos para dormir mais, tomar café da manhã e lavar as roupas, usando a máquina disponível no local.
Quando chegou a hora, pegamos a van e nos dirigimos até o icônico centrinho da cidade para o embarque. Ali havia uma igreja de madeira, em estilo chalé suíço, que, somada ao porto e às montanhas, conferia um clima rústico e tradicional à cidade. Em frente à igreja, havia um píer, com acesso ao porto, onde as agências que organizam os passeios se localizam.
No escritório de nossa agência, recebemos algumas instruções e fomos fortemente instruídos a comprar remédio para enjoo - o mar estava agitado naqueles dias. Havia um enfático aviso sobre o fim da temporada de avistamento dos papagaios-do-mar (lundi no idioma local), outro ícone islandês que pode ser facilmente encontrado na região entre os meses de verão, de maio a agosto. De aparência fofa e quase caricata, lembrando um pinguim, o animal vive majoritariamente no Atlântico Norte, disperso pelo oceano durante o inverno. No verão, muitos retornam à costa islandesa para se reproduzir. Estima-se que cerca de 60% da população mundial da espécie esteja na Islândia.
Sobre as baleias, a agência, chamada Gentle Giants, anunciava com orgulho que, no ano anterior, 99% das saídas tiveram sucesso na observação do animal. De tradição familiar, acumulam 160 anos de experiência nesses mares, - antes com pesca, hoje com turismo - iniciada com o tataravô do atual dono. A própria embarcação usada na excursão mantém a tradição dos antigos barcos de pesca, feitos de carvalho. A empresa forneceu, ainda, vestimentas de flutuação que mantinham o corpo bem aquecido, além de coletes salva-vidas. Em um mastro central, os guias indicavam a direção em que as baleias apareciam utilizando um sistema semelhante ao de um relógio de ponteiros: as 12 horas correspondem à parte frontal da embarcação, as 6 horas à traseira, e assim por diante.
Pouco tempo passou até que a primeira baleia aparecesse. Mamíferos que são, elas precisam nadar até a superfície de tempos em tempos para poder respirar com seus pulmões. Nesse processo, seu espiráculo - o orifício no topo da cabeça - libera ar quente com água condensada, que se assemelha a um jato d'água, visível de longe e frequentemente usado como primeira evidência de presença de baleias na área. Seu movimento segue um padrão ondulatório: primeiro, a cabeça emerge e o vapor é expelido; em seguida, surge o dorso; por fim, aparece a cauda, que fornece o impulso necessário para o mergulho. Isso nos permite, mesmo na superfície, observar toda a amplitude de seus corpos.
A única espécie que conseguimos observar dessa vez foi a baleia-de-bico-de-garrafa, típica das águas frias do Atlântico Norte. Há ao menos uma dezena de outras espécies de baleias e golfinhos que frequentam a baía, como a baleia-jubarte, a orca e até a baleia-azul, o maior animal do planeta. Por alguns instantes, as baleias emergiam, mergulhavam e, pouco depois, reapareciam a muitos metros de distância. O protocolo da embarcação recomenda manter uma distância entre 300 m e 50 m dos animais, sendo necessário desligar o motor quando essa distância se torna muito pequena. Em um ambiente selvagem e imprevisível, não foi um dia de muita sorte. Os melhores avistamentos ocorreram na primeira hora da excursão, que se prolongou por mais três horas na busca por outras espécies. O barco balançava bastante, e boa parte dos passageiros começou a sofrer com o mal-estar.
Em terra firme, recuperamos um pouco as forças almoçando o tradicional prato de fish and chips que podia ser facilmente encontrado no porto, preparado com peixes frescos. Depois, seguimos viagem por um itinerário chamado Círculo de Diamantes, roteiro turístico que passa pelo Lago Myvatn, Husavík e a cachoeira Dettifoss - a maior da Europa em volume d'água -, o local que ainda nos faltava conhecer no norte do país.
Ao deixar a baía onde se localiza Husavík pela Rota 85, passamos a dirigir ao longo da costa aberta do Oceano Ártico. Em algum momento do trajeto, cruzamos o ponto mais setentrional de nossas vidas, superando em alguns graus de latitude a altura que alcançamos durante nossa passagem pelos Westfjords. A partir dali, a viagem começou a se voltar para o sul - e, com ela, a sensação gradual de aproximação do fim.
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| Husavík |
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| Dettifoss |
Um fim que retorna ao início
Depois que deixamos a cachoeira Dettifoss, seguimos até o acampamento Fjalladýrð, em Möðrudalur. Chegar ali foi uma surpresa reconfortante. Em meio a uma região selvagem, após dirigirmos por muitos quilômetros à noite sem ver mais ninguém na estrada, saímos da Rota 1 por um acesso secundário, a Rota 901, até chegarmos ao povoado onde fica o acampamento. Foi como um oásis no deserto.
Möðrudalur é a fazenda mais alta da Islândia, habitada desde os tempos da colonização. Em nossa viagem, foi o mais próximo que chegamos das terras altas islandesas, região central inabitada da ilha. Embora em localização remota, a fazenda é praticamente autossuficiente e conta com estrutura de acomodação, restaurante e lazer. Ao chegarmos, nos permitimos jantar no tradicional restaurante, cujas comidas são preparadas com recursos locais. As casas por ali foram todas construídas com a antiga técnica de turfa, o que deixa o local ainda mais charmoso e autêntico. Como acampamento, não havia, contudo, tanta comodidade na área externa, um espaço muito amplo onde a cozinha, chuveiro e banheiro ficavam muito distantes entre si.
Pela manhã, pudemos apreciar melhor as belezas da fazenda. O mais encantador foram os animais que vivem nas redondezas. Entre animais domésticos e semidomesticados, vimos coelhos selvagens e três raposas-do-ártico. Há ainda uma rena que é alimentada pelos proprietários, mas que não apareceu durante nossa passagem por ali. Não muito longe da fazenda fica o glaciar Vatnajökull, cujas áreas ao redor são habitadas por renas selvagens. É o único lugar da Islândia onde esses animais vivem livremente.
O que se seguiu à estadia na fazenda foi uma travessia mais rápida pelas regiões leste e sul da ilha, com menos pausas. Cabe, neste ponto, descrever um pouco a magnitude do Vatnajökull, um imenso glaciar - um dos maiores do mundo, sendo o maior fora de regiões polares - que cobre cerca de 8% do território islandês. Ao se observar o mapa da Islândia, é a mancha branca, a sudeste, que rapidamente chama a atenção. Com cerca de 8.300 km², sua extensão alcança regiões costeiras por onde passa a Ring Road, embora ali não tenham se formado grandes povoados. Seu tamanho é três vezes maior que a área de Luxemburgo, e a espessura da camada de gelo varia entre 400 m e 600 m. Por baixo de tanto gelo, existem morros, vales e vulcões ativos.
Foi nesse momento que começamos a enfrentar condições climáticas mais adversas. Fizemos um pequeno desvio na Ring Road para conhecer Seyðisfjörður. O caminho se dá pela Rota 93, a partir de Egilsstaðir, por uma estrada de serra. Havia tanta neblina que a visibilidade não passava de poucos metros à frente. Ao chegar a Seyðisfjörður, no entanto, vimos que o trajeto difícil havia valido a pena. Rodeada por montanhas, com altas quedas d’água descendo em direção ao povoado, tive a impressão de que, após tantos dias, estava enfim diante da cidade mais bonita do país - embora ainda achasse que, na Islândia, o lugar mais bonito fosse sempre o próximo. As poucas construções coloridas, como a igreja azul, e as intervenções artísticas da engajada comunidade tornam o lugar um típico cenário de “conto de fadas”.
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| Casa turfa no acampamento Fjalladýrð |
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| Acampamento Fjalladýrð |
| Raposa-do-ártico |
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| Seyðisfjörður |
Encontramos em Höfn, povoado com 2500 habitantes, praticamente a única opção de pernoite no sudeste da ilha. O camping estava muito cheio, já indicando um fluxo maior de turistas vindos de Reykjavik, de onde saem muitas excursões pela região sul. Nos 200 km seguintes de estrada, até Kirkjubæjarklaustur, ficam uma série de lagos glaciais, deltas de rio com areia negra, desertos costeiros e campos de lava. Só não há uma cidade.
Nessa viagem, eu já havia feito muitas coisas pela primeira vez: viajado em uma campervan, visto a aurora boreal, alcançado latitudes quase polares. Ainda assim, o caminho de volta ainda reservava experiências fantásticas. Ao longo desse trecho, dezenas de rios de gelo descem do Vatnajökull, muitos deles visíveis desde a estrada, permitindo acompanhar o trajeto do gelo montanha abaixo. A água do degelo se infiltra por fendas, túneis e canais no interior do glaciar, formando verdadeiros sistemas subterrâneos. À medida que se acumula, busca saídas nas bordas do gelo, emergindo com força na forma dos chamados rios glaciais.
A lagoa Jökulsárlón talvez seja o mais impressionante exemplo dessas formações ao longo do caminho. Ali, o volume de água é maior, formando um lago facilmente acessível desde a Ring Road. Blocos de gelo se desprendem do glaciar, dando origem a icebergs de tonalidade azul cristalina e formas variadas, esculpidas pelo tempo e pelo vento. Eles podem passar até cinco anos à deriva no lago, seguindo lentamente pelo rio Jökulsá, o mais curto da Islândia, até desaguarem no Atlântico, na chamada Praia dos Diamantes. Passamos algum tempo explorando a lagoa, o rio e a praia, e, para tornar a experiência ainda mais especial, vimos focas nadando por aquelas águas. Fomos então surpreendidos por uma chuva acompanhada de vento forte, que nos obrigou a retornar para a van.
Por muitos séculos, os rios glaciais do sul foram obstáculos difíceis para os viajantes. Foi apenas em 1974, com a construção da ponte sobre o rio Skeiðará, que o último elo da Ring Road se completou, permitindo a circunavegação total da ilha e reduzindo o isolamento dessa região. Ainda hoje, no entanto, esses rios podem encher rapidamente e destruir a estrada com relativa facilidade. Foi o que aconteceu poucas semanas depois de nossa passagem por ali, na região de Höfn. Uma inundação levou parte do asfalto e, sem rotas alternativas para chegar a Reykjavík, viajantes foram obrigados a dar a volta completa pela ilha, pelo norte.
Trata-se, sobretudo, de uma região dinâmica. A lagoa Jökulsárlón, por exemplo, apesar de lembrar uma paisagem da Era do Gelo, existe há menos de cem anos. O imenso Vatnajökull, por sua vez, vem encolhendo com as mudanças climáticas, recuando progressivamente e se afastando do litoral. Nada ali é fixo: o gelo avança e recua, os rios mudam de curso, a terra se refaz. O que mais impressiona é a sensação de que, naquele pedaço do mundo, a paisagem ainda está em construção.
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| Lago glacial Jökulsárlón |
| Rio glacial descendo pela montanha |
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| Rio Jökulsá |
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| Vík í Mýrdal |
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| Vista de Vík í Mýrdal a partir da praia de areia negra |
Tivemos uma passagem rápida por Vík í Mýrdal, o ponto habitado mais ao sul da Islândia, conhecido por sua extensa praia de areia negra. Com menos de mil habitantes, o povoado funciona como um pequeno polo de serviços, com restaurantes, mercados e postos de gasolina, além de ter um caráter surpreendentemente cosmopolita: pesquisadores de diversas partes do mundo passam pela região para estudar vulcanismo na universidade local. Por ser um ponto conveniente de parada na estrada, aproveitamos para visitar a piscina pública e tomar banho ali. Como espaço de convivência dos moradores, pudemos observar um fluxo de estrangeiros residentes - não turistas - conversando em inglês, trocando impressões sobre vida e trabalho na região.
Quando paramos no acampamento próximo ao vilarejo de Hella para passar a noite, recebemos o último sinal de que poderíamos concluir a viagem em paz. As luzes da aurora boreal, que haviam aparecido em nossa primeira noite na Ring Road, voltaram a surgir agora, quase no fim do percurso. Desta vez, estávamos em um acampamento vazio, éramos praticamente os únicos ali. Todas as noites anteriores haviam sido nubladas, por vezes chuvosas, sem qualquer chance de ver as luzes. Naquela noite, porém, o céu estava mais aberto, e eu ainda alimentava a esperança de poder vê-las uma última vez antes de partir.
Já dentro da van, depois do jantar, eu observava o céu quando notei um clarão esbranquiçado. Sem qualquer experiência em identificar auroras boreais, ainda assim sabia que aquilo não era uma nuvem comum. A tonalidade era clara e densa, não acinzentada e difusa como costumam ser as nuvens. A confirmação veio pelas lentes da câmera do celular: ao apontá-la para o céu, surgiu o verde inconfundível. A aurora boreal havia aparecido novamente para nós.
O sono durante aquela noite talvez tenha sido o melhor de todos, em que um sonho foi vivido sem a sensação de que o despertar poria fim àquilo. Na manhã seguinte, fizemos o roteiro turístico conhecido como Circuito Dourado e retornamos a Reykjavík, nosso ponto de partida. Voltávamos ao início, mas já não éramos os mesmos. A viagem se completava em forma de círculo: retornar significava, afinal, poder olhar para o mesmo lugar, mas de outra maneira.
| Aurora boreal em Hella |
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| Parque Nacional de Þingvellir (Circuito Dourado) |
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| Geysir (Circuito Dourado) |






















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