sábado, 26 de maio de 2018

Liverpool e o direito ao mito

Existem caminhos que já nascem lendários. É o caso da estrada de ferro entre Manchester e Liverpool, a mais antiga do mundo a fazer o trajeto entre duas cidades. Os bens de consumo das indústrias de Manchester iam para o porto de Liverpool, que, por sua vez, recebia matérias primas e as enviava para as indústrias de Manchester. Uma revolução tecnológica tornava as distâncias mais curtas e as comunicações mais rápidas. As transformações que aconteceram sobre o trajeto desses trilhos foram tão profundas que criaram um ponto de separação na linha do tempo da humanidade, marcando o início da era industrial, do capitalismo moderno, do incremento de riqueza, das concentrações urbanas. Isto é, foi aqui que o mundo, para nós, ocidentais, começou a ficar parecido com o que vemos hoje.

A viagem que começou lendária entre as estações de Manchester Victoria e Liverpool Lime Street permaneceu lendária durante toda a minha estadia em Liverpool. Como principal porto da principal potência imperialista global, Liverpool se tornou um ponto de confluência de tudo o que existia no mundo. Seu papel crucial no comércio transatlântico permitia a chegada de produtos, mercadorias e pessoas, mas também fez a cidade se tornar alvo de fortes bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, a humanidade é uma força muito poderosa: mesmo em cenários terríveis - como o de uma destruição pós guerra - ela é capaz de se recriar e ressurgir do nada, ainda mais em lugares de inovação e criatividade, como Liverpool.

Os anos de guerra não foram nada prósperos. As perdas populacionais criaram uma lacuna entre a infância e a velhice. Instintivamente, para reverter um quadro humano desfavorável, a sociedade passou a ter mais filhos. As gerações que nasceram durante e após a Segunda Guerra Mundial eram parte, de fato, de uma explosão demográfica. Eram os baby boomers, filhos da grande guerra, que ansiavam por uma nova cultura jovem e que iriam romper com diversos valores políticos, religiosos, culturais e comportamentais das gerações anteriores.



Um novo ambiente revolucionário surgia no mundo, e Liverpool seria um dos polos de disseminação de novas ideias e valores. O lugar que mostrou ao mundo as diversas inovações técnicas da era das revoluções industriais e que inaugurou uma nova forma de se organizar a sociedade, agora faria o rock n' roll chegar a todos os cantos do planeta. A facilidade com que a cultura dos Estados Unidos, que emergia como maior potência global, chegava a Liverpool em razão de uma grande proximidade cultural e de laços de troca, fez nascer nos jovens britânicos um imenso interesse por esse novo gênero musical, rebelde por definição.

O rock, com suas origens na música negra americana - do Jazz, Blues e Boogie Woogie - já nasceu quebrando uma barreira racial que era explícita nos Estados Unidos. No passado, o comércio de escravos enriqueceu muitos mercadores de Liverpool. Estima-se que 1,5 milhão de escravos africanos saíram daqui para a América. Quando os britânicos perceberam que a produção industrial era um melhor negócio e que demandava a existência de um amplo mercado consumidor, além de oferecer bem menos riscos que o comercio de escravos, passaram a fazer uma campanha pela abolição da escravidão. Assim como no cenário europeu pós-guerra, a humanidade também aflorou em um povo que sofreu os mais cruéis tipos de repressão: a cultura negra que ressurgiu na América pelos que foram forçadamente deslocados da África voltava para a Europa sob a alcunha do rock n' roll.

Despontou em Liverpool um incrível cenário musical. Dentre todos os grupos jovens que faziam seu próprio som, a princípio com instrumentos tão arcaicos quanto uma tábua de passar roupa, surgiria um que daria um novo significado ao modo de se fazer música: os Beatles. Como profetas de mente completamente inventiva, eles lançariam o embrião de quase todos os movimentos jovens que iriam surgir desde então e, em efeito cadeia, influenciariam a cultura pop até os dias atuais. Os homens passaram a deixar os cabelos crescer, as mulheres a usar minissaias. Os Beatles foram os primeiros a usar a dissonância no rock, incorporar efeitos sonoros, usar a microfonia. Foram os primeiros a mesclar música erudita e popular, a usar gravações reversas, o double tracking, variações de velocidade e compasso em uma mesma música. Trouxeram instrumentos inusitados como a sitar indiana e instrumentos de processamento eletrônico como o mellotrom. Foram um dos responsáveis pela popularização da cultural oriental no ocidente. Transformaram capas de discos em obras de arte. Lançaram os preceitos para novos subgêneros do rock como o psicodélico, progressivo, punk e heavy metal.

A obra tão extensa e de tanta qualidade, produzida no curto intervalo de tempo de apenas uma década, permite que os Beatles se coloquem no nível das lendas. Todos nós temos direito ao mito, o direito de atribuir um significado maior à nossa existência. Se não podemos viver para sempre, podemos deixar algo que irá, algo que transcenda a nossa breve passagem pela Terra. As lendas estão acima da condição humana, elas ficam para que exista um sentido completo entre as venturas do passado e do presente; para nos lembrar, eventualmente, de que somos capazes de realizar grandes feitos em vida. A mística dos homens que viram lendas reside justamente no ponto em que, uma vez lenda, jamais o deixarão de ser. Não há arma de fogo que assassine lendas. Não há câncer que tire a vida de lendas. Elas vivem na identificação de cada um de nós.

Os Beatles deixaram uma vasta, universal e de fácil compreensão mensagem de paz e amor. Por isso estar em Liverpool é uma experiência religiosa. Lá podemos ver o quão humana, ou seja, o quão parecida conosco uma lenda pode ser. Visitamos locais de nascimento, locais de encontros que mudaram o mundo, cenários que viraram música e poesia. É lá que um grupo de rapazes, por meio de seus discos, fez o mundo mais diverso, inclusivo e tolerante. O meu momento mais lendário dessa viagem aconteceu na casa do Paul, onde pude tocar Let It Be no piano da sala onde morou a família McCartney. A música é à memória de Mother Mary, mãe de Paul, vítima de câncer de mama.

Se, por fim, os mitos servem como espelhos para nós, é bom também lembrar que por trás das pessoas adoradas também existe muita dor, angústia e contradições da condição humana. Dos quatro rapazes, um foi abandonado pelos dois pais e teve uma infância solitária. Dois viram seus pais se separarem na infância. Dois perderam a mãe na adolescência. Um teve tanta doença durante a infância que em diversas ocasiões não pôde sequer frequentar a escola. Um ouviu de professores que jamais seria alguém na vida. Todos os quatro eram filhos da classe trabalhadora e viviam nos subúrbios de Liverpool.



sexta-feira, 4 de maio de 2018

As Regras do Jogo

Nas veias da América Latina correm inúmeras contradições. As riquezas geraram anões e gigantes. O homem, tido como cordial, é produto de migrações forçadas, genocídios, crimes étnicos. A violência é naturalizada e se manifesta nas entrelinhas das relações humanas. Che disse que, se este continente fosse um homem, seria um anão de cabeça grande, pança inchada e braços curtos. 

Certa vez decidi refazer de carro o percurso da antiga rede de estradas indígenas chamada de Peabiru. O Peabiru não era um simples sendeiro no meio da mata, mas uma rede de estradas bem demarcadas que percorria 1200 quilômetros. A trilha seguia pelas nascentes do Rio Iguaçu até seu desague no Rio Paraná. Atravessado o Paraná, o Peabiru conduzia até o Rio Paraguai, onde hoje se localiza Assunção. Eram caminhos largos, que passavam por campos planos repletos de araucárias. De Assunção, por meio da navegação do Rio Pilcomayo, era possível chegar a Potosi, onde existia a lendária serra de prata, motivo de cobiça dos colonizadores europeus. Era lá onde eu queria chegar.

O Peabiru é um grande exemplar do que havia na América antes da conquista. Uma extensa rede de comunicação entre diferentes povos permitia que um tupi do litoral brasileiro tivesse conhecimento sobre os picos de gelo eterno da cordilheira dos Andes, assim como sobre a magnífica civilização que ali habitava.

Depois de alcançar Foz do Iguaçu, descobri no Paraguai um país de poucos e pobres. Lá fiquei encurralado, impedido de seguir meu caminho até Potosi. O Paraguai hoje é um dos mais sofridos e maltratados países do continente, mas no passado desenvolveu uma política autárquica e protecionista de desenvolvimento, completamente diferente de seus vizinhos. Espremido entre os dois gigantes locais, Brasil e Argentina, sem saída para o mar, o país não fez completamente parte do modelo agrário-exportador que permeou a típica relação entre as colônias americanas e as metrópoles europeias. Diversificou os gêneros agrícolas, buscou a autossuficiência investindo em educação e industrialização; cronistas da época diziam que não existia no país uma criança que não soubesse ler e escrever. O projeto desenvolvimentista do Paraguai, contudo, dependia da ampliação do comércio externo, ao passo que o trânsito de mercadorias do país estava sujeito às arbitrariedades de Brasil e Argentina.

Fez-se a Guerra do Paraguai e, com ela, toda uma nação se foi. Patrocinados pela Inglaterra, a Tríplice Aliança composta por Argentina, Brasil e Uruguai deu cabo das pretensões paraguaias. Grande parte da população adulta masculina sucumbiu no conflito. A guerra chegou ao absurdo ponto em que crianças paraguaias, alistadas para a guerra, usavam barbas postiças em uma tentativa de intimidar as tropas inimigas. 

O passado sangrento tem consequências, ainda, no presente. Assim, uma série de desventuras marcou minha passagem pelo Paraguai, desde a entrada via Ponte da Amizade até a chegada em Assunção. Como resultado de uma profunda estagnação econômica desde a guerra, o país embarcou no submundo do contrabando, pirataria e corrupção. A corrupção no Paraguai não é exclusiva dos detentores de grande poder. Logo eu descobriria isso da pior forma. Uma placa escrita em espanhol e guarani me dava as boas vindas após uma lenta travessia pela Ponte da Amizade, onde mercadorias contrabandeadas circulavam sem nenhuma fiscalização. Segui caminho até Assunção. Logo nos primeiros 30 quilômetros de estrada, um policial nos para. Olha bem para o interior do carro, pergunta se temos alguma câmera ligada. Então cobra uma multa por estarmos trafegando com lanterna acessa, em vez de farol baixo.

Não demorou muito até que fôssemos parados novamente. Dessa vez o policial alegou ter recebido uma informação de que trafegávamos acima do limite de velocidade e nos cobrou nova multa. Não aceitamos facilmente essa cobrança. Argumentávamos que não excedemos o limitey e que, inclusive, diversos carros nos ultrapassavam. O policial um pouco mais tenso, em tom de ameaça, aconselhava-nos resolver a questão ali logo antes que ele precisasse chamar seu superior.

Como discutir com alguém que deixa a mão encostada em um revolver preso na cintura enquanto nos fita com olhar ameaçador? E se, ainda, este homem tem a prerrogativa legal do uso da força? E se, para piorar, você é um estrangeiro, no interior de um país miserável, sem ter a quem recorrer? Assim foi minha recepção no Paraguai.

Ainda assim, quanto mais percorremos a América Latina, mais somos invadidos pela sensação de se estar em casa. Passamos a ver no rosto dos outros, o nosso. Depois de duas abordagens policiais e alguns guaranis - moeda local - a menos no bolso, ainda fomos parados uma terceira vez. Agora, sabendo melhor as regras do jogo, pudemos seguir viagem sem prejuízos até Assunção.

A língua também cumpre um papel importante para nos fazer sentir em casa. Se existe um lugar no mundo onde o Portunhol é, de fato, uma língua corrente, esse lugar é o Paraguai, onde as fronteiras entre as Américas portuguesa e espanhola durante muitos anos não eram claras. Um aspecto peculiar da proximidade linguística está na palavra propina. Quando os policiais nos pediam propina, usavam a palavra com o significado espanhol, que significa algo como gorjeta. Nós, brasileiros, a entendemos como suborno. Mesmo intercambiando o significado de um falso cognato, a comunicação segue com duas possíveis e corretas interpretações de uma única palavra.

Se me perguntarem se o dinheiro que dei aos policiais era gorjeta ou suborno, eu fico com o primeiro significado. Nosso bolso, claro, é um órgão sensível, não gostamos de perder dinheiro injustamente. No entanto, nunca saberemos se o policial que leva um dinheiro a mais para casa no final de um dia de trabalho está com estômago cheio, ou se seus pequenos filhos terão fraldas para usar até o fim do mês.

Nessa imensa e infama contradição que é a América Latina, a injustiça social está escancarada na face de todos, dos que têm e dos que não têm. Todos têm seu papel e sua parcela de culpa nas diversas manifestações de corrupção em pequena escala que se dá nos mais variados tipos de relação humana. É muito fácil de ver o momento em que uma suposta malandragem, ou mesmo maldade, mau caratismo ou má fé dos policiais se transforma em desespero. No regresso para o Brasil, fomos abordados, pela quarta vez, por um policial na estrada. Ele pediu para revistar o carro e, sem motivos explícitos para nos multar, passou a pedir artigos do nosso porta-malas como regalos para sua filha.


O que me fez regressar ao Brasil, porém, foi uma última desventura no Paraguai, que me impediu de seguir viagem até Potosi. Iria cruzar bem cedo a fronteira entre Paraguai e Argentina via Rio Paraguai. Enquanto esperava a primeira balsa do dia, abri um mapa da América do Sul para estudar as rotas até Salta. Um grupo de estivadores me viu com o mapa e, cheios de curiosidade, se aglomeraram em volta de mim de um modo que até me assustou; parecia uma emboscada. Eles me olharam com um estranhamento que eu jamais havia experimentado em minha vida. Perguntei se eles sabiam me dizer o melhor caminho até Salta. Um deles tentou olhar o mapa, mas, sem saber nenhuma resposta, disse que ali eram todos burros, com essa exata terminologia.

Todos tomavam o tererê, mate de ervas amplamente consumido no Paraguai. É semelhante ao chimarrão gaúcho, porém é bebido frio. Os paraguaios levam seus garrafões para todos os lugares, e muitos são decorados com escudos de times de futebol. Foi o ponto que encontramos para estabelecer uma conversa. Enquanto eu experimentava sua bebida típica nacional, falamos bastante sobre futebol, o lubrificante social, amado em toda a América Latina por todas as classes sociais.

Ao cruzar o Rio Paraguai em uma balsa em direção à Clorinda, já na Argentina, fomos barrados na fronteira. O carro não poderia entrar na Argentina sem o seguro Carta Verde, necessário para o trânsito nos países do Mercosul. Como eu cheguei até ali, pelo Paraguai, sem esse seguro, à mercê de um monte de policiais corruptos, jamais saberei. Fato era que esse seguro só podia ser obtido no Brasil. Atravessamos a fronteira algumas vezes: tentamos obtê-lo em uma seguradora em território argentino, na aduana paraguaia e pela internet, mas nada. Os estivadores ofereceram ajuda como podiam: um deles nos transladou tantas vezes quanto necessário entre as margens do Rio Paraguai em sua balsa, de nome Che Jasmin I, a troco de poucos guaranis. Outro nos acompanhou até encontrarmos algum ponto de acesso à internet, o que não foi tarefa fácil entre todos aqueles aparelhos celulares atrasados em mais de uma década. Fomos forçados a fazer o caminho de volta de Assunção até Foz do Iguaçu, precisando passar novamente pela série de postos policiais. Deixei uma lágrima de decepção no Rio Paraguai e seguimos viagem.

De volta ao Brasil, não havia mais fôlego para chegar a Potosi. Entre araucárias que abraçam o mundo e ruínas das missões jesuítas, talvez a menos trágica experiência colonizadora na América, encontrei conforto antes de voltar para casa. Antes de deixar o Paraguai, porém, ainda tive tempo de visitar restos da frota de navios usados pelo país na guerra contra a Tríplice Aliança. Diante disso tudo me ocorreu que, possivelmente, nem os policiais, tampouco os burros do porto, tivessem conhecimento sobre a guerra que destruiu tudo aquilo, sobre a tragédia que arruinou seu país.


domingo, 22 de outubro de 2017

Pé na areia, Epílogo

Francisco falava pouco ou quase nada. Andava muito a minha frente e, por mais que eu tentasse apressar meus passos, não conseguia diminuir a distância entre nós. Ele conhecia melhor a linguagem do mundo do que a língua portuguesa. Eu queria me comunicar com ele, mas ele parecia em um nível mais elevado, incompreensível para mim. Seu silêncio era denso, me perturbava. Contemplava a radiação emanada da Lua, o som do vento arrastando areia, o balé das águas. Em alguns momentos ele segurava a caminhada, com um gesto, e permanecia em silêncio. Saía do caminho sem dar explicações e indicava que eu deveria esperá-lo ali. Ele colhia ervas, guardava uma parte no bolso. A outra parte, triturava na mão, retirava um papel de seda e tabaco de outro bolso, acendia um cigarro. Nesses momentos, enquanto eu o acompanhava com o meu olhar, tentava, assim como ele, decifrar os sons dos lençóis que entravam em meus ouvidos. Eu o perdia de vista, mas sabia que estava mapeado em sua cabeça: ele conseguia rastrear a presença de qualquer ser em suas imediações. Podia buscar minha presença assim como buscava ervas nas raras formações vegetais da região. Tinha, enfim, uma visão integral, um entendimento geral de todos os fenômenos a sua volta. 

Compreendi, assim, a distância que imperava entre nós. Eu era um homem alheio aos lençóis, um estranho, que não sabia me comunicar com aquela paisagem deslumbrante. Ele detectava minha presença, mas seu radar acionava um alarme de elemento estranho.

Ele me guiou até Santo Amaro. Quando chegamos, ele não descansou. Despachou-me em uma pousada e disse que iria voltar para Queimada dos Britos a tempo do jantar. O Sol estava forte. Ele não sentia nenhum um tipo de pesar pela longa caminhada até ali. Pelo contrário, estava disposto a refazê-la pelo caminho inverso. Ele era capaz de passar todas as horas de Sol do dia e mais um pouco andando sozinho pelos lençóis. Despediu-se de mim como quem acabara de entregar uma mercadoria a um cliente. Agora ele poderia andar pelos lençóis em completa paz, sem presenças estranhas, conversando, ao seu modo, com a areia, as plantas, a água, o vento e os animais. Ele era um homem completo, estava em casa.

Todo homem que anda, em última análise, está tomando o caminho de volta para a casa. Andamos porque queremos abraçar o mundo e tê-lo, ele todo, como casa. Queremos encontrar nosso lugar nele, nosso lugar de conforto, aprender a viver tendo a paisagem como melhor companheira. Aventuramos-nos em uma travessia para poder ter aonde chegar ao final do dia. Saímos do conforto do lar para descobrirmos como ambientes desérticos podem ser confortantes. Uma rede presa entre dois troncos é uma casa, uma cabana é uma casa, uma fazendinha é uma casa, uma pilha de areia é uma casa, um desejo realizado é uma casa. Em casa foi onde me senti quando concluí a travessia. Tirei tudo o que eu vestia para tomar uma ducha e me espreguiçar sobre uma rede. Finalmente, senti-me em casa quando percebi que sentia saudades ao reconstruir os meus passos mentalmente.


A saudade me moveu adiante. Eu começava a deixar minha casa alegórica para partir para minha casa real. Santo Amaro era um núcleo urbano, mas se encontrava, ainda assim, isolado. Nas margens dos lençóis, a via asfaltada até a estrada ainda estava em construção. Apenas veículos tracionados conseguiam fazer aquele trajeto. Entrei em um jipe que fazia o papel de transporte coletivo da cidade e fui conduzido até uma pequena parada na beira da estrada. Uma nova aventura foi proposta a mim quando descobri que o jipe não me deixaria aonde eu precisava chegar. Eu ainda teria que andar mais dois quilômetros até outra parada, de onde eu pegaria um ônibus de volta para São Luis - esse ônibus trazia de Barreirinhas algum dos meus pertences que eu não levei para a travessia. 

Nem sempre o caminhante pode abstrair das dores do corpo. Quando temos uma meta, podemos desfrutar dela enquanto deixamos as dores em segundo plano. Nos lençóis não havia espaço para padecimento. Eu estava encantando com um cenário novo, com seres humanos incríveis, procurando aprender algo entre eles. Quando eu soube que não precisaria mais caminhar longas distâncias no próximo dia, deixei que meu corpo se tornasse dolorido. Foi inglório descobrir que, naquele estado, ainda precisaria andar até o ponto do meu ônibus.

Mesmo as situações inesperadas podem nos trazer gratas recompensas. Comecei a caminhar assustado. No acostamento da estrada, mochila nas costas, sandália nos pés, cabelo ao vento. Agora eu caminhava em terreno sólido, mas queria a areia de volta. Estava de costas para o trânsito, discutia comigo mesmo se eu deveria pedir carona. De carro, dois quilômetros seriam logo ali. Preferi seguir a pé. Atravessei para andar de frente para os carros que se aproximavam. Foi a primeira vez que caminhei  na estrada, e esse momento será sempre para mim inesquecível. As velocidades pareciam altíssimas, eu estava totalmente fora do compasso e só conseguia ver um borrão do que pretendia ser um automóvel. Os caminhões primeiro passavam por mim. Depois vinha o seu som. Em seguida o vento. Por fim, gotículas de água do asfalto umedecido. Cada evento tinha a sua entrada triunfal. Cada um tinha o seu momento, não podiam acontecer juntos para que a energia de um não ricochetasse sobre a de outro. Um acontecimento lindo, não da natureza dessa vez, mas da engenharia das invenções humanas. Que belo contraste. Mal podia aguardar pela minha próxima louca aventura sob o céu.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Pé na areia

Que sensação é essa de estar se afastando das pessoas, até que delas, ao longe, na planície, você só consegue distinguir minipartículas, dissolvendo-se na vastidão do infinito? — é o mundo que nos engole, é a despedida. Mas nos inclinamos à frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.
Jack Kerouac, On the Road 

Meu marco zero era o quilômetro zero da BR-135. Eu estava com 14 kg de mochila nas costas e ia desde o aeroporto de São Luis do Maranhão até o terminal rodoviário. Dentro de uma hora e meia saía um ônibus para Barreirinhas, destino parcial da travessia que eu estava prestes a fazer nos lençóis maranhenses. Pedindo informações aqui e acolá, fui recorrentemente desencorajado a seguir a pé, por riscos de assalto. Quando tudo o que temos está apoiado sobre nossos ombros, quando a mochila é uma extensão do corpo, devemos nos precaver.

Saltei do ônibus, cheguei à rodoviária e lá tive o primeiro longo diálogo da viagem. Foi em uma lanchonete, com uma senhora conhecida por Toninha. Experimentei um pouco da receptividade do nordestino. Ela falava, eu ouvia, e rapidamente a conversa rumou para assuntos íntimos como família, sexualidade e dinheiro. Ela contou de seus diversos parentes de diversos subúrbios e sertões do Brasil. Pernambuco, Ceará, Favela da Rocinha. Falou de seu período em Pernambuco com um companheiro que, por receber apenas 400 reais de salário, era um peso para ela. Contou de sua filha, que por lá ficou, com o rapaz com quem descobriu o amor. Conversava sobre localidades de São Luis ignorando o fato de eu estar há apenas uma hora na cidade. Aclamava os produtos maranhenses que costumava enviar para filha, a tapioca, a cachaça e o Guaraná Jesus. Era hora de se despedir e embarcar no ônibus, que já recebia passageiros. Saí apressado.

Na rotina, a paz está em cumprir horários, completar tarefas, ter a sensação de estar em dia com todos os nossos afazeres. Para isso, contudo, nos entregamos a prazos falsos e urgentes, não descansamos nossa mente por um instante; a quietude, paradoxalmente, só vem quando encontramos algo explícito com o que se preocupar. Apenas na estrada, em horários não estabelecidos, conseguimos atingir um estado de paz permanente.

A viagem no ônibus para Barreirinhas foi longa. Muitas paradas, muitas entradas e saídas, encontros e despedidas. Enquanto a estrada me engolia, direcionava meus pensamentos para o planejamento de minha trilha. A ideia era simples: na minha mochila eu levava roupa suficiente para quatro dias de caminhada nos lençóis, uma câmera fotográfica, um livro, panelas e comida. Faltava o condutor. Eu havia tentado entrar em contato com alguns para a travessia, mas a comunicação não é tão eficiente nos lençóis maranhenses. Uma troca de mensagens podia demorar cinco dias, tempo em que os condutores estavam em incursão no parque. Como eu descobriria mais tarde, existem grandes comunidades que vivem dentro dos lençóis e que estão a até um dia de caminhada da cidade mais próxima. O contato com o lado de fora depende de rotas que nem sempre podem ser percorridas com veículos, cujo pneu em contato com a areia deixa marcas e rabiscos sobre a aparência magistral das dunas.

Foi na parada para um café na estrada que tive o segundo longo diálogo da viagem, que resolveu o último dos meus problemas. Fui abordado por um rapaz de minha idade, feições indígenas e que se apresentou como Coreano, apelido que recebeu em razão de seu olho puxado e pele morena. Morador de Barreirinhas, havia ido a São Luis prestar um concurso e estava voltando para casa. Disse que havia notado o tamanho de minha mochila, perguntou se eu estava indo fazer a travessia dos lençóis e me ofereceu seus serviços de guia. Seu preço era 200 reais mais barato do que o do único condutor com o qual eu conseguira estabelecer um mínimo de contato. Voltamos para o ônibus e seguimos viagem juntos, em assentos lado a lado. Conversamos bastante sobre o roteiro da trilha, sobre a geografia dos locais por onde passávamos, sobre a Lua cheia que apareceu naquela semana. Agora eu tinha um guia.

Chegamos por volta das 20h em Barreirinhas, e iniciaríamos a trilha às 8h do dia seguinte. Comecei a organizar as últimas pendências. Fomos ao mercado, onde comprei uma batata-doce para complementar minha dieta na travessia e alguns chocolates que me serviriam como lanche rápido nas caminhadas. Arranjamos um barco para nos levar até o ponto de início da caminhada, em Atins. Fomos ao banco sacar a reserva financeira de emergência. Depois fui ao hostel, no que se configurou como minha única caminhada pelo núcleo urbano de Barreirinhas. A cidade é a maior da região dos lençóis e, apesar de um pouco afastada do parque, não deixa de estar sujeita às intempéries causadas pelo movimento de massa. Logo na entrada, uma enorme área em que se encontra uma duna é isolada com muros de concreto. De tempos em tempos a areia avança sobre os muros e causa fechamento das vias de acesso à cidade. É necessário um permanente trabalho de remoção de areia. Em estações mais agressivas, a areia pode invadir e destruir habitações. A cidade margeia o meandrante Rio Preguiça, que também traz sedimentos que se depositam sobre a área urbana. Forma-se uma nova duna bem na beira do rio. Essa duna compõe a região de lazer da cidade; funciona como uma praia fluvial e é onde se concentram o comércio e os restaurantes.

Viajar nos convida a fazer um exercício de desprendimento. Quando cheguei ao hostel e sentei na cama, a última em que eu dormiria pelas três próximas noites, percebi que precisava reduzir peso dos 14 kg de mochila que eu tinha. Chegar naqueles 14 kg, na ocasião que eu estava saindo de casa para embarcar em um avião para São Luis, já tinha exigido de mim uma longa reflexão sobre o que realmente teria valor para mim na viagem. Tal reflexão não fora suficiente, e eu precisava passar por uma nova provação. Boa parte do peso, é verdade, era em razão de água e comida, que são consumidas ao longo da jornada. Eu sabia que não precisaria levar barraca e saco de dormir; os pernoites seriam em redes na casa de nativos. Comecei removendo a bota de caminhada, a conselho do guia. Nas dunas e lagoas, se anda descalço. No máximo se usa um chinelo ou meias se a areia estiver muito quente. De roupas, levei apenas a que ia no corpo e uma muda de roupa seca para passar a noite. Roupa molhada era estendida na mochila e secava durante a caminhada. Uma capa de chuva cumpria a função de vestimenta de frio. Não era necessário nada além disso. Mesmo durante as noites, as temperaturas eram amenas. O que fazia um peso indigesto eram as louças: uma panela para cozinhar macarrão, uma frigideira para fritar linguiça, prato e talher.

Com a mochila pronta e agora com alguns quilos a menos, estava cedo de pé no dia seguinte para iniciar a travessia dos lençóis. Dirigi-me ao cais de Barreirinhas, e o grupo para expedição, então composto apenas por mim e pelo guia, ganhou uma nova integrante: o Coreano resolveu levar sua namorada, Oceline, para a caminhada nos lençóis. O grupo estava completo e começamos a navegar pelo Rio Preguiça. Existem alguns pequenos povoados que vivem às margens do rio, e funcionam como pontos de parada para quem se dirige a Atins, cidadezinha que fica bem na foz do rio. Vassouras abriga os pequenos lençóis, região de dunas, lagoas e manguezais habitados por adoráveis macaquinhos. Mandacuru é uma vila de pescadores com um farol de onde se pode avistar o deságue do Rio Preguiça no Atlântico e uma pequena parte da imensidão dos lençóis maranhenses, assim como a vegetação que os circunda.





Desembarcamos na praia de Caburé, trajamos a mochila e começamos a caminhada até Canto do Atins. Foi quando meu pé tocou na areia, e nela afundou, pela primeira vez. Como uma iniciação em um terreno diferente, no primeiro dia caminhamos por quatro quilômetros à beira mar. O caminho passava por áreas pantanosas, e logo descobri que o melhor jeito de se andar por ali era, de fato, descalço: a sandália encharca, e a areia que nela gruda, em contato com a pele, prejudica o andar. A paisagem indica que estamos entrando em um mundo deserto. A vegetação logo vai dando lugar à areia, os animais surgem com pouca gordura e avulsos, desconexos de seu lugar no mundo.

O primeiro pernoite foi em um restaurante na praia. Chegamos por volta das quatro da tarde e, antes do pôr do sol, arrisquei-me a andar até perder o restaurante de vista. Buscava meu contato pleno com os lençóis, sozinho, despido. Os 155 mil hectares de parque são uma ironia, um ultraje à nossa tola civilização. Tudo ali é formado pela poeira vital do mundo, por tudo o que mais pode existir de bruto no planeta, pela matéria prima da vida, por terra, areia e ar, os elementos essenciais, que se movem, têm força, estão em mutação, se aglomeram formando dunas e lagoas, se chocam entre si. O que não é chão é céu, e nessa dicotomia meu corpo não tinha lugar. Era eu ali, misturado, de algum modo, em algum lugar entre o chão e o céu, mas sem posse nenhuma sobre nada, nem sobre os membros do meu corpo.

Do duelo entre a água e a areia, surge uma imensa rede de dunas preenchidas por lagoas de coloração de tons que variam entre verde e azul. A água fica aprisionada nas sucessivas zonas de baixo relevo das dunas, imprimindo no solo as feições de um lençol amarrotado. Algumas lagoas acumulam volume tão grande de água que se transformam em verdadeiros rios, com forte fluxo d'água e vida marinha. A natureza mostra como ser bela e fascinante com tão pouco requinte.



Embora os lençóis maranhenses tenham o aspecto de um deserto, a pluviosidade é bem alta, e minha primeira noite foi marcada por uma tempestade. Em uma área anexa ao restaurante existia um redário, onde os caminhantes podiam pernoitar. Durante a noite acordei com os pés molhados. Amanheceu e a chuva continuava. A saída para o segundo dia de caminhada seria às seis, já era meio dia e a chuva persistia. Para não atrasarmos a chegada ao ponto de parada da segunda noite, usufruímos do principal meio de transporte usado pela população local para percorrer a região: o quadriciclo. Esses pequenos veículos off-road percorrem com facilidade as dunas e os cursos d'água do parque. Juninho, um nativo dos lençóis que trabalhava com o transporte de passageiros entre Atins e as praias e lagoas mais isoladas da região, foi nosso condutor. Em um único quadriciclo éramos quatro, dispostos nos espaços que não eram ocupados pelas mochilas. Motorizados, percorremos, assim, dez dos quase trinta quilômetros de caminhada previstos para o dia.

Desembarcamos do quadriciclo em um pequeno aglomerado de cabanas de pescadores. Foi meu primeiro contato com os fantásticos moradores dos lençóis. Tão essencial como as rochas no deserto, são essas pessoas no deserto da história. Finalmente eu aprenderia algo entre tais homens que, ali para mim, pegando emprestado as palavras de Kerouac, seriam a origem, a força essencial da humanidade, primitiva e chorosa que se estende como um cinturão ao redor da barriga equatorial do planeta. São humanos desertos que buscam abrigo no vasto deserto do mundo. A força que descobriu como viver em terras longínquas, que domesticou os recursos disponíveis em seu favor.

Vivem em cabanas feitas de palha e passam longas temporadas de pesca imersos nos lençóis. São famílias inteiras, símbolos do milagre da vida. Há a criança, a mãe que cuida da criança, a força de trabalho, o ancião. Se alimentam sobretudo de carne de cabra e peixe. Dormem em redes e pisam na areia. Quase tudo o que possuem na cabana são instrumentos de trabalho: facões, peixeiras, redes, linha e anzol. Dispõem também de algumas embarcações. Aprenderam, incrivelmente, a se orientar nos lençóis, lugar de paisagem maleável e de isolamento. O tom de pele é escuro, e eles são adaptados a viver com tão pouca sombra. Quando o Sol está em seu pico no dia, eles se retiram para as cabanas. Longe da moradia, também existem cabanas construídas em locais estratégicos, para um repouso do Sol nos momentos de trabalho.

Vi, assim, o rosto do brasileiro, ao passo que começava a deixar a praia e tomar meu rumo para o interior do parque. Quem habita os lençóis são os descobridores, exploradores e conquistadores dos sertões do Brasil, os verdadeiros brasileiros, como diz Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, especialmente brasileiros mestiços, mamalucos, unidos aos primitivos indígenas da terra. O sertão do Brasil foi descoberto e revelado à Europa por brasileiros e americanos, não por europeus.






Após ter sido convidado a entrar em uma das cabanas e ter passado um tempo com os pescadores, precisei voltar para a trilha. A chuva atrasou o roteiro, e é sempre recomendável chegar ao próximo pernoite antes de escurecer. A travessia havia começado no deságue do Rio Preguiça no Atlântico e seguido todo o caminho do mar até aqui. Agora deixaríamos o mar e adentraríamos nas profundezas dos lençóis maranhenses. Meu ânimo estava renovado por encontrar a pequena comunidade de pescadores. Esse encontro me resgatou o sentimento de socialização - tão necessário para a espécie humana - em um ambiente de retiro, em que quase não se encontra ninguém.

Conforme nos afastamos do litoral, a areia vai ficando mais fofa, impondo maiores desafios à caminhada. O pé afunda, deixa pegadas que são apagadas, aos poucos, pelo vento. Sentimos uma carga maior sobre os pés, que insistem em querer ficar presos ao solo; a passada tem no chão arenoso um adversário. Ao peso do corpo adiciona-se o da mochila. Quando o Sol bate, não há nada, uma árvore, uma pedra, que possa proporcionar sombra. Quando paramos por um instante e olhamos para trás, vemos que andar pode nos levar muito longe - as pegadas vão desaparecendo no horizonte. Quando olhamos para frente, é muito difícil supor qual o caminho seguir. Instrumentos de localização por satélite podem te dizer onde você está e aonde deve chegar. No entanto, não mostram o melhor jeito de transpor as dezenas de lagoas que surgem pelo caminho. Algumas podem ser atravessadas a pé: nesse caso, se retira a mochila das costas e a carrega sobre a cabeça - a água pode chegar até a altura do peito. Outras, por serem muito fundas, largas ou por terem muita correnteza, precisam ser contornadas pelas beiradas. Ao atravessar a lagoa, o solo, embebido de água, torna-se movediço, e o pé pode ser completamente soterrado até a canela. Não há trilha, não há caminhos, não há sinalizações, apenas o conhecimento de mundo de um condutor nascido na região.





Em um determinado momento da caminhada, já escurecendo, começaram a surgir árvores e arbustos. Estávamos chegando a Baixa Grande, um verdadeiro oásis nos lençóis. O cenário muda inesperadamente, a água e areia ganham a companhia de plantas. No solo de areia pouco consolidada se fincam raízes, e a vida ali se prospera. Esses pequenos ecossistemas abrigam famílias que vivem ali há gerações e transmitem o vasto conhecimento necessário para se viver em lugar tão inóspito. São camponeses, ou sertanejos, criadores de cabras e galinhas, agricultores familiares que bebem água de poço e retiram dali o que precisam. Estão muito afastados dos núcleos urbanos e hoje complementam sua renda abrigando os forasteiros que se aventuram na travessia dos lençóis. Vivem em aglomerações bem estruturadas, com geradores de eletricidade, fogão a gás e quadriciclos para melhorar o intercâmbio com as cidadezinhas do entorno do parque. 

Existem dois oásis na região, Baixa Grande e Queimada dos Britos, distantes dez quilômetros um do outro. Tive um pernoite em cada um. Cheguei à noite em Baixa Grande e fui muito bem recebido por Dona Dete, uma senhora que viveu ali a vida inteira. Havia um banheiro onde pude tomar banho e recebi uma rede em uma palhota para dormir, como os moradores dos lençóis costumam fazer. Comecei a fazer meu macarrão para a janta, e Dona Dete achou meu modo de preparo bastante curioso. Nesse momento percebi que trouxera mantimentos em excesso para a travessia e dei a ela um pacote de tapioca. Ela achou mais curioso ainda o modo como já a vendem pronta em supermercados e me explicou como fazia artesanalmente. Conversávamos então sobre as diferenças de nossas vidas, até que me retirei para dormir e recebi instruções de como repousar adequadamente à rede, de modo a evitar as temíveis dores nas costas.

No dia seguinte saí cedo em direção à Queimada dos Britos. A caminhada era curta, mas o caminho impunha suas dificuldades. Havia longas subidas, seguidas por longas descidas de dunas. Nesse dia também enfrentei o Sol quase equatorial a pino. Até então as caminhadas se deram em Sol baixo e até com chuva. Dessa vez, porém, fomos sem pressa, acordamos tarde, tomamos um café da manhã preparado por Dona Dete. Sabendo da ferocidade do Sol, nos programamos para chegar em uma gigantesca lagoa próximo ao meio dia. E assim seguimos, deixando o mínimo de partes do corpo expostas. Coreano se enrolou em uma canga. Eu usava chapéu, óculos escuros, calça e mangas longas. De fato, próximo ao meio dia, enquanto o Sol mostrava seu lado mais agressivo, chegamos a uma esplêndida lagoa. Com poucas opções para me proteger, passei mais de uma hora mergulhado nas águas.




Em Queimada dos Britos fomos recebidos por outra família tradicional dos lençóis maranhenses; tradicional a ponto de incorporarem, aos seus nome, Queimada, em referência ao local de nascimento. Esse oásis era maior e abrigava mais famílias, formando um pequeno povoado. Logo na chegada foi possível ver casas destruídas pelo movimento da areia. A natureza tem sua força descomunal, pode nos engolir com uma extrema facilidade. Reforça, de tempos em tempos, que nada que construímos é durável. O morador dos lençóis é convidado ao nomadismo, seu movimento deve acompanhar o movimento das dunas. Dada a disparidade de poder, é impossível que um movimento se oponha ao outro. A areia dos lençóis é onde pisam, onde desenvolvem suas atividades, mas também pode ser sua penitência. As casas são simples, feitas de palha, de fácil destruição e reconstrução, imitando a ordem da natural das coisas. Proporcional à força da natureza é, contudo, a coragem de quem vive nos lençóis.

Dona Joana era a matriarca da família e gostava de contar histórias dos caminhantes que recebe em sua casa. Desolada em um oceano de areia, sua casinha virou um ponto de encontro global, cosmopolita, multicultural. O mundo vem até ela e chega a pé. Ela fala sobre franceses, alemães, holandeses, espanhóis. Compara seus hábitos com os dos brasileiros que recebe, enquanto mostra o que ganhou de cada visitante. Contou-me, com orgulho, de quando sua casa serviu como suporte para a gravação do filme Casa de Areia, com atuação das Fernandas Torres e Montenegro. Mostrou fotos, mapas, registros. Tomei uma cerveja e joguei cartas com seu marido. Usei sua cozinha para preparar minha janta, e ela adicionou ao meu insosso macarrão com linguiça e batata temperos que retira de sua própria terra. Era meu último dia com os moradores dos lençóis,.

O próximo dia seria o derradeiro e o mais desafiador da travessia. Eu deveria acordar às três da madrugada para chegar a Santo Amaro - destino final - antes do meio dia. Seriam 28 km de caminhada, em areia fofa, com minha nuca castigada pelo sol, minha panturrilha mostrando sinais de fadiga, meu calcanhar dolorido por pisar torto. Precisava suportar as dores do corpo e focar no imenso caminho que se esticava diante de mim. A mochila deveria ser a mais leve possível. Deixei com Dona Joana não somente os mantimentos que continuavam em excesso, como parte das panelas que não me fariam falta depois da trilha. Coreano e Oceline iriam aproveitar um pouco de suas férias em outras direções dos lençóis, e Francisco, membro da família Queimada, me guiou até Santo Amaro.

Quando acordei de madrugada primeiro vi a total escuridão. Acendi a lanterna e minha vista estava embaçada. Vesti a roupa, tomei o café da manhã que Dona Joana deixara pronto. Peguei a mochila que já estava arrumada desde o dia anterior, encontrei o Francisco e partimos sempre a oeste em direção a Santo Amaro. Minha vista foi então se clareando e o uso de lanterna não se fazia mais necessário. Pensei que meu olhar se adaptara à escuridão, mas, na verdade, nosso caminho era iluminado pelas estrelas e por uma esplêndida Lua cheia. Muitas vezes vi a Lua, mas nunca como essa. Nunca ela tinha sido para mim fonte de luz e sabedoria. Podia olhar para ela sem que minha visão ardesse. Podia deixar sua luz me tocar sem me causar queimaduras. Ela nunca havia iluminado minhas noites escuras. O homem foi até ela e trouxe areia, a mesma que eu viera buscar nos lençóis.

A Lua me hipnotizou e eu me tornei sua refém. Ela conhecia meus desejos e segredos, como se estivesse invadindo os meus sonhos mais profundos na quietude da noite. Era suave, linda, brilhava em esplendor. Encontrei na Lua o que não encontrei no fluir da água, no soprar do vento, no resplandecer da areia. Ela era cheia: cheia de magia, cheia de sabedoria. Parecia ter todas as respostas, mas só oferecia novas perguntas. Quando o Sol da manhã surgiu tímido, meu corpo chorou sua despedida. Restava ainda metade do caminho, mas para mim a travessia se encerrou ali. Eu estava no topo de uma duna observando a longa projeção da minha sombra no chão. Meu coração se enchia de felicidade, eu havia encontrado um tesouro escondido.

domingo, 2 de abril de 2017

São Thomé das Letras

O viajante é antes de tudo um colecionador de memórias. Mas memória não pode ser guardada. Ela se projeta no papel, em fotografias e experiências; repetimos o que dá certo e deixamos de fazer o que dá errado. Viajo porque preciso de novas experiências e escrevo porque minhas memórias transbordam no papel, onde deixam de ser abstratas e podem ser colecionadas. Escrevo porque sinto que preciso registrar minhas memórias, quando acho que algo precisa ser dito, quando ideias vêm a minha cabeça e não quero perdê-las. 

Escrever é sobretudo o modo que encontro para colecionar minhas memórias. Também escrevo por prazer. Viajo por mais prazer ainda. Prazer: este não é um texto sobre memorar ou viajar, mas sobre ter prazer. Menciono a viagem porque tudo começa quando viajo. Menciono a escrita porque é como atribuo significado às memórias das minhas andanças. Mas não haveria nem viagem nem escrita sem o prazer.

Foi justamente viajando (ou como tudo começou) que conheci um lugar onde se vive por prazer. Lá qualquer habilidade, qualquer passatempo, vira meio de vida. Muitos vão de passagem, mas chegam e fazem dali seu lar. Não há salário, mas colaboração. Não há obrigação, mas gratidão. Não há serviço, mas comunhão. É o lugar dos desviantes, que sentem que seus valores não são os mesmos da sociedade em que vivem, mas que convergiram para um microuniverso onde suas utopias podem ser realidade.

Um senhor tenta relacionar padrões de arte rupestre com equações de ondas eletromagnéticas. Para estabelecer a ponte dessa relação ele transita por conceitos como Efeito Casemir e autovalores que não se entrelaçam. O que ele diz não é inteligível, mas é dito com muita fé. Ele acredita com tanta paixão em sua teoria que passo a acreditar nele. Vai que o louco sou eu? Talvez eu não acredite em Deus, mas sei que Deus acredita nesse velho sonhador.

No meio-fio de uma das ruas de pedras tortuosamente reunidas da pequena cidade uma mãe divide um baseado de maconha com a filha em plena luz do dia. Um outro senhor se apresenta como bruxo depois de uma conversa estranha e diz que irá me lançar um feitiço de oblívio para eu me esquecer do que ele disse. Outro me lança uma magia negra porque lhe recusei uma esmola. Uma legião troca algum ofício por abrigo. Um sujeito caminha todo dia 17 km da cidade até a fazenda onde trampa. Depois faz o caminho de volta, com a maior serenidade. Lá se viaja de carona sem temor. Dívidas não há, o que existe é troca de gentilezas. O favor não é uma penitência, não causa uma relação de obrigação entre as partes.

Guardo lembrança dos lugares por onde passei e das histórias que ouvi. Agrego estilo de vida dos hedonistas, dos loucos, dos outsiders. Levo a sensação de que o mundo é muito mais fascinante do que se pode registrar com palavras. Aprendo que produzir ideias pouco usuais pode ser um dos tantos caminhos criativos de se seguir na vida.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Viajero Solitário

I - O caminho

Dizem que o melhor de uma viagem é o caminho, não o destino. Assim me engajei em uma viagem de quase 24h em um ônibus entre Lima e Cusco, no Peru. Durante as primeiras cinco ou seis horas de percurso pude desfrutar de meu primeiro encontro com o Pacífico: entretive-me observando a hostil geografia da costa peruana, com uma imensidão de terras áridas, placas de trânsito que preveniam o condutor contra falhas geológicas, falésias moldadas por um mar cinza como o céu do inverno limenho. 

Conforme me afastava do extenso perímetro urbano de Lima e seguia em direção aos Andes, contudo, o caminho se tornava gradativamente duro e agressivo. Seja por estar há muito tempo confinado em um assento de ônibus, sejam pelas curvas da estrada, seja por estar elevando drasticamente minha altitude em relação ao nível do mar, fui tomado por uma forte dor de cabeça que perturbou minha paz por horas a fio de viagem. Era meu primeiro dia sozinho no Peru. O intervalo de tempo entre minha chegada ao aeroporto de Lima e meu embarque no ônibus para Cusco era muito curto. A combinação entre a náusea e estar só, em meu primeiro dia em um país estrangeiro, conferiu contornos desesperadores à minha viagem. Não tinha aonde ir nem a quem recorrer. A única alternativa era esperar a dor passar.

Se existe algo mágico em viagens é deixar-se ser apoderado pelo espírito de que toda e qualquer adversidade faz parte da aventura. Afinal, aventuras são transformadoras e o triunfo sobre elas, a sensação de concluir o que se propôs a fazer, de superar a vontade de desistir, é inigualável. Quando desembarquei em Cusco, já me sentia bem melhor, ao menos com forças suficientes para chegar ao hostel e ter o mais necessário dos descansos antes de desbravar as maravilhas do Peru.

II - O destino

Poucos se dão conta do quanto se deve aos peruanos. Tampouco se lembram que, em nossa maiúscula América, existe um povo que pode, de fato, se equiparar aos mesopotâmicos e egípcios como um dos berços independentes da humanidade. Desde a Civilização Caral ao Império Inca, inúmeras culturas desenvolveram ali incríveis manifestações artísticas, geniais avanços arquitetônicos e um sistema agrícola a frente de seu tempo. Os grandes feitos dos antigos peruanos são ainda hoje notáveis: a cultura andina, em diferentes âmbitos e tempos históricos, se desenvolveu com diversos elementos comuns na agricultura, alimentação, religião, vestimenta, organização social e arte. Como legado, deixaram um vasto patrimônio arqueológico e imaterial. Aspectos da cultura campesina peruana se manifestam sobretudo em sua rica gastronomia e sistemas de plantio.

O Peru a todo momento desafia nossa imaginação. Da imensa cidade planejada de adobe que abrigou cerca de 50 mil habitantes em Chan Chan aos cortes de alta precisão de gigantes pedaços de rocha perfeitamente encaixados em Sacsayhuaman, passando pelas esculturas em forma de jaguar de Chavin de Huantar ou pelas excepcionais cerâmicas mochica, até as impensáveis linhas de Nazca, pouco da história pré-colombiana do Peru pode ser explicada com certeza; não desenvolveram a escrita e quase não deixaram documentos. Boa parte da historiografia peruana é baseada em textos de cronistas da Conquista, tais qual Garcillaso de La Vega.

III - O caminho dos Incas

O milenar desenvolvimento da cultura andina teve seu ápice com os Incas, um império tão breve quanto intenso. Foi o maior da América pré-colombiana, o mais extenso, multinacional e expansionista. Ao lado da arquitetura e dos sistemas de irrigação, em terraços, a abertura de estradas está entre as grandes realizações dos Incas. Com efeito, existe uma série de caminhos que levam a Machu Picchu, e um desses caminhos me trouxe ao Peru.

Antes, porém, de qualquer descrição sobre minhas aventuras nos caminhos dos Incas, devo ressaltar que eles não gostavam de lugares de fácil acesso. Dificilmente as altitudes de operação são menores que 3000 m, chegando, sem esforço, aos 5000 m. Respirar no Peru, por si só, já é um grande desafio. Enquanto a mente produz imagens de moléculas de ar se rarefazendo diante de si, o corpo sente as pulsações do coração na cabeça, as mãos formigam e as pernas parecem não conseguir sustentar o peso do corpo. Os conceitos sobre nossos limites físicos são postos à prova, ficamos expostos a novas formas de percepção. A sabedoria para lidar com o soroche [mal da altitude] vem dos antigos peruanos: folhas e o estimulante chá de coca para oxigenar melhor o sangue, chá de muña para facilitar a digestão e líquido de eucalipto para aliviar o mal-estar são amplamente utilizados para amenizar os efeitos da altitude. Soma-se ainda a irregular topografia, o terreno acidentado, as grandes variações de temperatura ao longo do dia e as montanhas de gelo eterno.

Tais são os fatores que fazem de uma viagem ao Peru um feito extraordinário. Novos caminhos são até hoje descobertos, de tão escondidas que estão algumas das maravilhas incas. Para se chegar a Machu Picchu ou se vai de trem ou em ao menos quatro dias de caminhada. A colorida montanha de Vinicunca, por sua vez, foi aberta a visitação apenas em 2012. Acredita-se que os nativos a escondiam de outros povos por considerá-la sagrada. Ir ao Peru é abrir novos caminhos, ter novas sensações, conhecer melhor os limites de nosso corpo, saber quando desistir e quando seguir em frente.

IV - Pachamama (ou A Mãe Terra)


De todas as excentricidades que fazem do Peru um lugar ímpar no mundo, a geografia tem lugar de destaque. O oceano encontra o continente em um enorme deserto que rapidamente se transforma na Cordilheira dos Andes. Quando atravessada, as montanhas nevadas dão lugar à vastos territórios de floresta tropical. O cenário é altamente mutável; transforma-se muito rapidamente. Os desafios impostos pela natureza e a ascensão da cultura andina como civilização são intrínsecos. Desde os primórdios da povoação na região foi necessário lidar com terremotos, vulcanismo, avalanches e alterações climáticas.

Com quase 6800 m de elevação, o nevado Huascarán, localizado na província de Ancash, é o ponto culminante do país. Em 1970 um terremoto causou o pior desastre natural já registrado no Peru. O forte movimento sísmico fez despencar do Huascarán enormes blocos de gelo e rocha, que, em três minutos, soterraram todo o povoado de Yungay. O aluvião, que pode ter assumido velocidades da ordem de 300 km/h, deixou 25.000 mortos. Apenas 300 foram os sobreviventes da tragédia. Yunagay foi reconstruída a 1km dali, e a área do acidente é hoje um campo santo, onde é proibido qualquer tipo de escavação. Pouco da antiga cidade pode ser vista; restaram apenas parte da carroceria de um ônibus e ruínas da antiga catedral.

De fato, a terra sempre teve um papel vital para os andinos. Pachamama não somente é a deidade máxima nos Andes, como também uma filosofia que prega o bem viver e o amor à terra. No Peru, afinal, a realidade não é exclusivamente antropocêntrica. Devemos respeitar a natureza e compreender suas próprias regras, descobrir que ela não é contra e, tampouco, a nosso favor.

V - A construção

Às quatro horas da manhã saí de Cusco em direção a Mollepata. Preparei uma mochila com o essencial para passar o dia caminhando, e outra, maior, para ser levada pelos arrieros e suas mulas. Os arrieros formam uma importante classe social no cenário andino, em que o trabalho da força animada foi durante muito tempo o único capaz de superar o relevo montanhoso. A palavra descende da interjeição ¡arre!, bradada com o fim de pôr animais de carga em movimento. Assim, a arriaria se desenvolveu sobretudo como atividade econômica introduzida pelos espanhóis no Peru colonial, quando a mão de obra indígena era explorada para transportar ouro desde as minas até os portos. As grandes lideranças rebeldes contra a dominação espanhola surgiram nesse contexto. Por meio de longas viagens, puderam se fazer conhecidos em longas extensões de terra e conheciam todas as dificuldades da vida nas minas, fazendas e povoados .

De Mollepata se caminha em direção ao Apu Salkantay, em uma das conhecidas rotas que levam a Machu Picchu. Quando uma montanha é identificada como Apu, ela é de fato especial; trata-se de uma divindade dos povos dos Andes que remete ao espírito da montanha, regulador do ciclo vital da região em que se encontra. No passado, a região do Salkantay foi cenário de peregrinações e sacrifícios para os deuses. Parte do caminho é feito em confluência com canais incaicos, engenhosidade ainda hoje aproveitada por camponeses que habitam as partes mais baixas da região. Ao longo do trajeto, o domínio natural entra em transição: sobe-se até os 4650 m do Passo Salkantay, para então ver o surgimento da densa vegetação amazônica à medida que se desce até o vale do Rio Urubamba. Esse caminho de razão incompreensível preserva pequenos povoados, a língua quíchua, trilhas sagradas, veredas serpenteantes e vida selvagem.

Andar durante cinco dias até Machu Picchu deve ser uma das melhores experiências conhecidas pelo homem. O último dia antes de se chegar a Aguas Calientes, povoado aos pés da cidade perdida dos incas, é onírico. São 22 km de trilha, os quais os quatro últimos são feitos sobre uma linha de trem, de onde já se é possível avistar as ruínas de Huayna Picchu e as escarpas de Machu Picchu, a jovem e a velha montanha. Esse trecho também foi percorrido em 1911 pelo Professor Hiram Bingham quando tentava chegar à última capital inca, de que até então só ouvira falar. A relação simbiótica entre os incas e sua base geográfica tem nas edificações de Machu Picchu seu melhor arquétipo. A névoa emanada dos Andes, as águas caudalosas do Rio Urubamba, o terreno em terrazas, as construções em trapézio, as montanhas em forma de asas, e a cidade erguida em formato de Condor são os elementos que compõem a mística beleza desse lugar. Enquanto estamos dentro do sítio, esquecemos da exaustão de ter percorrido um longo caminho até ali. Somos, como assertou Che Guevara, preenchidos por um estranho sentimento de nostalgia por um tempo histórico que não nos pertence; por uma sociedade de que não fizemos parte. Como uma cidade dessas pôde dar lugar às informais, subdesenvolvidas e caóticas cidades peruanas?

VI - No ar

O desfecho da viagem se deu no ar, observando mais uma preciosidade em terra: as Linhas de Nazca, geóglifos cuja origem nenhum arqueólogo, etnólogo, historiador consegue cravar. Uma das versões que pretende explicar o motivo dos enormes desenhos no chão diz que era um modo de a civilização Nazca ser vista pelos deuses. Esse momento nefelibático revelou então, para mim, um dos propósitos de se ir ao Peru: somos desafiados a ir mais alto - por terra ou pelo ar - para alcançarmos a sabedoria de uma das civilizações mais fantásticas que já existiu.














sábado, 2 de julho de 2016

Habitat natural

Estimada onça,

     esses dias fui pego me lembrando da mistura entre medo e fascínio que ditou o ritmo de nosso primeiro encontro em seu habitat natural. Resolvi então escrever-lhe esta carta.

Se eu estivesse um pouco mais distraído, com certeza não teria te visto. Você estava descansando após uma caçada, em um pedaço de sombra sobre um pedaço de terra não alagada do Pantanal norte. Parecia tímida, não quis aparecer logo de cara. 

Talvez você, como anfitriã, deveria ter recebido melhor uma visita tão dedicada em ir ao seu encontro quanto eu. Foram cerca de 2000 km de estrada desde o Rio de Janeiro, incluindo os 180 km da selvagem transpantaneira. Passei por uma boiada com centenas e centenas de bovídeos, perdi a hora e me vi quase às cegas quando anoiteceu na estrada. No dia seguinte, foram exaustivas nove horas dentro de um bote a sua busca.

Outros animais que me perdoem, mas eu queria ver você. E sabia que você não iria me decepcionar. Quando saiu da sua confortável sombra, detrás dos arbustos, proporcionou, por poucos segundos, um dos momentos mais mágicos da minha vida. A frequência de meus batimentos cardíacos disparou e minhas mãos tremiam. Eu segurava uma câmera e estava empenhado em registrar imagens do nosso encontro. Dei-me conta, porém, que não valia a pena te ver apenas pela lente da minha câmera. Precisava me certificar que você estava realmente a poucos metros de mim.

Pelo Pantanal, todos têm histórias para contar sobre seus grandes feitos. Todos te temem, e pessoalmente você se mostrou muito mais assustadora do que eu supunha. Olhar-te ali, tão livre e exuberante, paralisou-me. Foi uma sensação rara, que poucas vezes experimentarei novamente. Ao mesmo tempo que meu sangue gelava, eu queria poder chegar ainda mais perto de você para admirar a tamanha beleza da vida selvagem em seu habitat natural.

Apresento os meus melhores cumprimentos.

PS: segue um registro desse encontro, sem um bom foco ou enquadramento. Devido às circunstâncias descritas acima, foi verdadeiramente difícil tirar uma boa foto.