sábado, 16 de agosto de 2025

Viagem ao Borborema (cordel)

Buíque tinha a aparência de um corpo aleijado: o largo da Feira formava o tronco, a rua da Pedra e a rua da Palha serviam de pernas, uma quase estirada, a outra curvada, dando um passo, galgando um monte; a rua da Cruz, onde ficava o cemitério velho, constituía o braço único, levantado; e a cabeça era a igreja, de torre fina, povoada de corujas.

 

(...) porque nos redemoinhos que açoitavam a catinga pelada havia provavelmente um ser furioso, soprando, assobiando, torcendo paus e rebentando galhos. Essa criatura de sonho e bagunça, um cavalo de asas, não me causou espanto.  

Graciliano Ramos, Infância 




Como um dia prometi
Fui-me embora pro sertão
Onde a vida é austera
Mas não foi de supetão
Fui até o Borborema
Onde o vento é oração.

Levo pouco na mochila
Pois escolho a liberdade
Quero tempo pra viver
Com vigor e sobriedade
Carrego só o preciso
Para andar com lealdade.

Eu corro por essa serra
Sem pressa ou temor
O que ponho nesses versos
É fruto do bom humor
O cordel cruza o tempo
Deixo aqui o meu clamor.

***

Começo por Alagoas
Que já foi Capitania
Junto à Pernambuco outrora
Conquistou soberania
Quando a Coroa puniu
Quem República queria.

Bem depois do litoral,
Onde sobem altos prédios
Fica União dos Palmares
Como um forte intermédio
Cidade menor que a lenda
Que venceu mil sacrilégios.

No Brasil, muitos quilombos
Conseguiram resistir
Mas nenhum foi tão valente
Nem tão duro de cair
Quanto o dos Palmares livres
Que descrevo a seguir.

Foi na Serra da Barriga
Ventre antigo de pedra gasta
Isolada dos engenhos
Prova da história nefasta
De negros escravizados
Que os grilhões já não arrastam.
 
Em lugar de muita mata
Onde o branco não pisava
Cresciam muitas palmeiras
Entre o mato e serra brava
Seus frutos e sua palha
O quilombo alimentava.

Quilombo vem do Bantu,
Quer dizer acampamento
O termo exato é Mucambo,
Refúgio em movimento
Mas virou sinônimo forte
De união e pertencimento.

Por doze grandes mucambos
Palmares foi formado.
O maior deste país,
Quase um Estado alçado.
Teve vinte mil pessoas,
No Nordeste assentado.

Ganga Zumba era então
Um líder muito querido
Mas um trato mal pensado
Com os portugueses cumprido
Foi pior que traição:
Foi um passo mal medido.

Esse combinado dizia:
Quem dali fosse nascido
Já seria homem livre
Mas o negro foragido
Era entregue aos senhores,
Mesmo tendo ali abrigo.

Um novo líder assim
Foi pelo povo aclamado
Homem de pele retinta
Por seus iguais respeitado
Zumbi dos Palmares rei
Resistir foi seu legado.

Zumbi nasceu em Palmares
Aos seis anos virou Francisco
Batizado como cristão
Sua vida tinha menos risco
Sobrinho de Ganga Zumba
Se tornou guerreiro mítico.

Zumbi, tal qual o príncipe,
Tinha o sangue em ebulição,
Ao ver seu povo vendido
Por acordo e traição.
Não vingava um só destino,
Mas lutava a nação.

Com o branco, não deu acordo
Liberdade é valentia
Negro nunca se dobrava
Nem fazia parceria
Zumbi voltou pro Quilombo
E a revolta principia.

Para derrotar Palmares,
Bandeirantes traiçoeiros,
Pela Coroa recrutados,
Feitos nobres cavaleiros,
Eram os verdadeiros selvagens
Que deram golpe derradeiro.

Zumbi foi apunhalado
Mas lutou bravamente
Sua cabeça foi cortada
E levada de presente
Para servir como exemplo
Mesmo sendo ele inocente.

Objetivo declarado
Era provar, por A mais B
Que Zumbi não era eterno,
Mas taí pra quem quer ver:
O nome de Zumbi vive
Em quem luta pra vencer.

Eu me pergunto insistente
Se a humanidade tem cura
Quando esconde os seus heróis
Sob o véu da amargura
Mas Zumbi segue presente
Na memória que perdura.

***

De Palmares me despedi
Com respeito e reverência
Mas o chão do sertão vasto
Tem mais que resistência
Tem pedra, rio e silêncio
Que falam com inteligência.

Fui então ao Catimbau
Na cidade de Buíque
Entre agreste e sertão
Com olhar que multiplique
Essa terra de belezas
Muito além do xique-xique.

Parece coisa de filme
Do tipo de Hollywood
Mas com molho brasileiro
De gente de atitude
No Catimbau cada cena
É poesia em plenitude.

Vamos falar da cidade
Que é berço de literatura,
Inspirou Graciliano
Na Infância, rija e dura.
Denunciou a pobreza
Com palavra sem censura.

Sobre Buíque disse o autor:
Tem aparência aleijada
Seu tronco era largo e curvo,
Com a espinha encurvada.
Duas ruas eram as pernas,
Uma delas estirada.

Mais acima da cidade,
Nos agudos da serra fria,
Surge o Vale encantado,
Feito sonho ou fantasia
Tem pintura nas pedras
E uma bruma de magia.

Por inteira na Caatinga,
A floresta esbranquiçada
Quando chove fica verde
E esclarece a madrugada
É Brasil em sua essência,
Parte de qualquer jornada.

Nos tempos antes de Cristo
Por aqui já tinha gente,
Um povo que a pedra guarda
De maneira permanente
Com tinta na parede bruta,
Revela um grito latente.

O vermelho a reluzir,
Como sangue sobre a rocha
Uma arte geométrica
Das cavernas desabrocha
Em morro alto e pedra nua
Vive o tempo que arrocha.
 
***

Do bando de Lampião
Dezoito vêm dessa terra
O massacre de Angico
A maior de todas guerras
À beira do São Francisco
Foi ao sul algumas léguas.

Quando o bando derrotado,
Com a vida a reconstruir
Sem o líder carismático,
Qual melhor caminho seguir?
Onze chegaram à Buíque
Que acolheu sem reprimir.

Dentre os sobreviventes
Um de nome Candeeiro
Com coragem se armou
Contra um destino certeiro
Lampião foi sua escola
Fez-se bravo cangaceiro.

A história de Candeeiro
No sertão ainda soa
Nunca foi um trapaceiro
Era um pássaro que voa
Só queria sobreviver
Da sina que não perdoa.

Enxergava na distância
Mesmo em noite de breu
Tinha o faro e a esperteza
De quem nunca se perdeu
Candeeiro era a chama
Que do cangaço nasceu.

Nem a lua minguante
Conseguia lhe atrasar  
Andava firme e seguro
Sabendo se camuflar
Tinha o dom de perceber
O perigo a espreitar.

Depois deixou Pernambuco
Pra travar nova missão
Foi soldado nas seringas
Lá pros lados do Acre, então
Na batalha contra a fome
A borracha foi seu pão.

Faleceu lá em Arcoverde  
Com noventa e nove anos  
Foi o último cangaceiro  
Dos que foram veteranos  
Apagou-se a lamparina  
Que alumia os mais humanos.

***

Apresento a trajetória
De outro bravo cangaceiro
Jararaca é sua glória
Homem duro e justiceiro
Santo vivo no sertão 
Mais tenaz que um facheiro.

Nasceu também em Buíque,
Em Mossoró consagrou-se
Contra fazendeiros ricos
O seu rifle levantou-se
Mas de forma violenta
O destino seu fim trouxe.

Foi vítima de autoridade
Que abusou de seu poder
Cavou a própria cova
Sem poder se defender
Enterrado ainda vivo
No suplício até morrer.

No leito de despedida
Pediu perdão ao Senhor
Deixou a vida bandida
Abraçando o Redentor
Via-crúcis sertaneja
O seu fim foi sofredor.

Seu túmulo é destino
De romeiro e procissão
Milagres vêm do divino
Assim conta a tradição
Quando Dia de Finados
É o mais visto do sertão.

***

No Brasil se costuma crer
Que somos pessoas cordiais
Mas quanto mais eu ando,
Mais vejo histórias brutais
Começou lá com Zumbi
E segue até os dias atuais.

O Catimbau virou Parque
Com sessenta mil hectares
A terra virou do Estado
Mas se tu bem me escutares
Verás que já havia gente
Ostentando seus cocares.

Com a identidade roubada,
Muitos já não se entendiam
Se achavam pardos, caboclos,
Mas indígenas já seriam
Na defesa de suas terras,
Suas raízes descobriram.

Se há tanto tempo habitada
É porque a terra é boa
Isso gerou a cobiça
De quem da justiça destoa
Certos fazendeiros querem
Reinar com uma coroa.

O povo Kapinawá
Precisou se defender
Uma terra a demarcar
Os grileiros por vencer
Onde colocar a cerca
Pra seu direito valer?

Já os grileiros se juntavam
Com jagunço e delegado,
Falsificavam papéis
Num cartório combinado
Transformavam a mentira
Num direito registrado.

Ali a demarcação
Não garante proteção,
Pois a terra que sobrou
Foi vendida em traição
Quem ainda nela resiste
Sofre assédio e opressão.

***

Como diz Luiz Gonzaga,
A vida do viajante
Precisa de boas lembranças
E amigos bem marcantes.
Peguei doença de estrada,
Com o peito flamejante.

Uma viagem que se preze
Pelo Nordeste a percorrer
Tem que fazer um desvio
Pro Velho Chico conhecer
Rio que mesmo na seca
Faz a vida florescer.

Vindo de Minas Gerais
Atravessa a Bahia
Em Remanso muda a rota
Pro oceano ele se vira
Vem pra desaguar no mar
Em Piaçabuçu termina.

Entre Alagoas e Sergipe
O rio se encontra ao mar.
Cercado por piaçavas,
Palmeiras a balançar.
Beleza que Pero Vaz
Em suas cartas fez brilhar.

Desse lado do Ocidente
Que os ingleses desconhecem,
Eu conheci o John Lennon,
Barqueiro que tudo esclarece
Mostrando a história da terra
E das dunas que prevalecem.

Com olhar triste ele diz:
"O rio está salgado"
O palmeiral se torna mangue,
Os surubins, enxugados
O mar empurrou com força
Um rio bem castigado.

De um antigo povoado
Só resta ainda o farol.
Ali mais de cem famílias
Perderam tudo, sem dó.
As pescas no rio doce
Já não enchem mais anzol.

***

O que aprendi no caminho
Foi mais que história e chão
Cada passo me ensinou
Com coragem e coração
O sertão guarda segredos
Que ensinam a lição.

Andar por esse país
É buscar o próprio alento
Nos rios, serras e matas
No vento e no firmamento
Talvez um dia eu descanse
Com alegria e acalento.


Alto da Serra da Barriga, União dos Palmares


Centro de União dos Palmares




Povoado Vale do Catimbau, município de Buíque






Museu em Buíque



Pinturas Rupestres, sítio Alcobaça



Piaçabuçu, foz do São Francisco





sábado, 2 de agosto de 2025

Islândia: notas e roteiro (Ring Road de Campervan)

Introdução


Passando por praticamente todos os lugares acessíveis na Islândia sem veículos 4x4, a Rota de Circum-navegação (Rota 1, Hringvegur ou Ring Road) é, por definição, uma estrada épica. São 1340 km que contornam o gelado e selvagem interior do país - uma ilha vulcânica pouco povoada, localizada em uma das regiões mais isoladas do planeta. Ao longo do caminho, encontram-se belezas naturais, história, cultura, campos de lava, gêiseres, glaciares, vulcões, inúmeras cachoeiras e banhos termais. Dirigi-la de ponta a ponta, sem paradas, levaria cerca de 16 horas. Com alguns pequenos desvios, é possível acessar regiões ainda mais profundas e cênicas da Islândia.

Viajar pela Islândia no inverno ou no verão são experiências completamente diferentes, mas igualmente fascinantes. A viagem descrita neste roteiro foi planejada para o início de setembro, buscando o melhor dos dois mundos: fugir das multidões e dos altos preços da alta temporada (junho a agosto), mas ainda aproveitar atrações de verão em funcionamento, dias mais longos e, com sorte, presenciar o espetáculo da aurora boreal, que costuma aparecer a partir de meados do mês nas altas latitudes.

Apesar de ser uma rota bastante popular e bem documentada, uma das maiores dificuldades para quem planeja a viagem está nos nomes islandeses: difíceis de pronunciar, lembrar e muitas vezes também de escrever. Criar este roteiro foi, além de tudo, uma forma de registrar e organizar as informações de forma visual, facilitando a consulta durante a viagem. A Ring Road, uma estrada única com incontáveis atrações repousando sobre si, facilita o processo: o caminho é um só, basta decidir se o sentido será o horário ou anti-horário. A maioria dos viajantes opta pelo sentido anti-horário, mas a verdade é que ambos oferecem paisagens igualmente deslumbrantes. Como esta viagem será no final do verão, a escolha foi fazer o percurso no sentido horário, começando pelo Norte - onde as temperaturas caem mais rápido - e deixando o Sul, mais ameno, para os últimos dias.

Este roteiro não tem por finalidade ser seguido à risca. A intenção foi reunir as principais atrações para consulta e os locais de pernoite por dia, sem pressão para percorrer tudo. Pelo contrário, a escolha por viajar de campervan, isto é, um veículo adaptado com cama e cozinha, foi justamente para ter flexibilidade total no itinerário, podendo acelerar ou desacelerar conforme o ritmo da viagem. Além disso, como as opções de hospedagem em regiões mais remotas da Islândia são limitadas e costumam se esgotar rapidamente, dormir no próprio veículo torna-se não só prático, mas muitas vezes a melhor alternativa.

As atrações foram listadas de forma a oferecer opções suficientes, permitindo cortes e alterações sem que se falte o que fazer. Ter um roteiro-base também reduz as decisões a serem tomadas no caminho, permitindo mais tempo para simplesmente aproveitar a estrada e a experiência. Para campistas de primeira viagem como eu, a campervan já traz desafios suficientes em termos de conforto, preparo de refeições e montagem do acampamento - quanto mais prático for o planejamento, melhor.

Por fim, a criação do roteiro foi facilitada pela ampla rede de campings espalhados pelo país. A maioria deles pode ser acessada sem necessidade de reserva, bastando chegar e estacionar. Optamos pelo Camping Card, que, por um preço fixo, permite pernoitar em dezenas de campings durante a temporada de verão. Isso ajudou a definir os pontos de parada, sempre priorizando os campings conveniados e próximos das principais atrações.

Atualização: depois de completar a viagem, adicionei, ao fim de cada dia, comentários sobre a minha experiência seguindo o roteiro proposto. Nessas notas compartilho cortes e inclusões no itinerário, ajustes feitos no caminho, descobertas inesperadas, dicas práticas e recomendações de restaurantes.

Dia 1

Atrações:
  • Centro de Reykjavic (bairro Miðborg):
    • Igreja Hallgrímskirkja: possível subir ao campanário e ver a cidade de cima (mais alta construção da cidade)
    • Harpa (auditório em frente ao mar)
  • Glymur (cachoeira mais alta da Islândia)
Notas e ajustes:
  • A cachoeira Glymur foi cortada do roteiro para que pudéssemos passar mais tempo em Reykjavic. Como a Islândia é repleta de cachoeiras, não havia motivo para correr e encaixar mais uma visita. Sem o desvio até Glymur, que requereria contornar o fiorde de Hvalfjörður, a viagem entre Reykjavic e Akranes passa de 115 km para apenas 50 km. O atalho se dá por um engenhoso túnel subterrâneo que atravessa o fiorde.
  • Aurora boreal: logo na primeira noite de acampamento fomos surpreendidos com a aurora boreal. Espontaneamente, enquanto nos preparávamos para dormir, nos juntamos aos outros campistas para admirar e fotografar o incrível fenômeno das luzes. Fiquei com a impressão que seria fácil ver aurora, mas ela custou a aparecer novamente ao longo da viagem.


Dia 2

Atrações:
  • Borgarnes
    • Uma das primeiras zonas de colonização na Islândia
    • Museu Settlement Center
    • Cenário das sagas do poeta guerreiro Egil Skallagrimsson
  • Snæfellsnes Peninsula
    • Parque Nacional Snæfellsjökull
    • Malarrif (centro de visitantes com mapas)
    • Roteiro nessa ordem pela Rota 574: Malarrif, Vatnshellir Caverna de Lava (apenas com guia), Djúpalónssandur (praia de areia negra), Saxhóll Crater (campos de lava), Öndverðarnesviti (ponta da península), pode-se avistar baleia, Ólafsvík
Notas e ajustes:
  • Há um bom café/restaurante em uma localização perfeita do itinerário, onde recomendaria uma parada para almoço. Junto ao Hotel Snæfellsnes, ele fica no início da península, por onde se passa mais ou menos na hora de almoço ao sair de Akranes. A passagem pela península, visitando todos os pontos, é longa. Estar bem alimentado foi importante. Link do Google Maps.
  • Como os restaurantes na Islândia costumam ser caros, pedir sopa se mostrou uma ótima estratégia: nutritiva, farta e reconfortante diante do clima. Outra solução que funcionou bem foi dividir um prato entre duas pessoas, já que as porções são generosas.
Zoom na Snæfellsnes Peninsula


Dia 3

Ferry Baldur:

Atrações:
  • Antes do ferry:
    • Kirkjufell (montanha com cachoeiras)
    • Stykkishólmur: maior cidade da região, casas coloridas e pitorescas. Há comércio de artesanato local.
  • Depois do ferry:
    • Dynjandi (cachoeira)
Notas e ajustes:
  • Kirkjufell é um dos cartões-postais mais fotografados da Islândia, em parte pela sua aparição em Game of Thrones. A paisagem é, sem dúvida, bonita, mas transmite um certo ar de "armadilha para turistas": a infinidade de fotos em livros e na internet costuma torná-la mais impressionante do que na realidade. Dica prática: evite o estacionamento pago do parque. Há um gratuito um pouco mais adiante, a poucos minutos de caminhada.
  • A cidade de onde parte o ferry, Stykkishólmur, é bem agradável. Esperamos o ferry em um aconchegante café chamado Sjávarborg (Link do Google Maps). Ali, como em praticamente todos os cafés da Islândia, serve-se café filtrado, disponível em garrafas térmicas. O cliente recebe uma caneca e pode se servir de café à vontade. O preço é cerca de 5€.
  • Eu adorei a experiência de ir aos Westfjords de ferry. Quando o seu meio de transporte e local de pernoite é uma van, poder seguir a viagem fora dela me pareceu um luxo. O carro fica no convés, e os passageiros se encaminham para a parte de cima, onde há mesas  com sofás, uma cafeteria e área externa. A travessia dura cerca de 2h e as vistas são bonitas. Lembre-se de levar livros, câmera, carregadores, fone de ouvido, lanche e tudo o que for precisar do carro, pois a garagem é trancada depois que o ferry parte.
  • A alternativa ao ferry seria seguir pela estrada por 290 km (em torno de 4h).
  • Há um bom restaurante do outro lado do ferry chamado Flókalundur. Link do Google Maps.
  • Se tiver que escolher ir a uma única cachoeira na Islândia, diria que seria a de Dynjandi, a mais bonita em minha opinião.


Dia 4

Atrações:
  • Hólmavík (capital do folclore)
Notas e ajustes:
  • Bem no início do dia, incluímos uma parada em Ísafjörður, a maior cidade da região. Dentre outras coisas, há uma antiga livraria com muitos livros sobre a Islândia em inglês.
  • Nos Westfjords estão as estradas e paisagens mais lindas da Islândia, mas também os lugares mais inóspitos. Há restaurantes e mercados de forma esparsa, que aparecem em maior quantidade a partir do momento que se entra na Rota 1, praticamente no fim do dia. Se precisar comer, atente-se ao horário de fechamento dos restaurantes no caminho e evite deixar para fazê-lo muito tarde.
  • No caminho há uma cachoeira chamada Valagil. Ali havia uma pequena área de piquenique onde campistas preparavam um almoço. Há uma trilha de 2km até a cachoeira, mas já é possível admirar sua beleza desde o estacionamento.
  • Incluímos uma parada em Heydalur, uma pequena fazenda com hotel, águas termais, restaurante e área de camping. Quando chegamos, infelizmente, pelo horário, já não estavam servindo almoço, apenas sobremesas. Pagamos uma pequena taxa para usar a piscina e o banheiro do hotel. Há uma piscina "selvagem", um pequeno poço de água quente a céu aberto e piscinas térmicas. Além da experiência relaxante, vale destacar um aspecto prático: os vestiários e áreas de higiene das piscinas na Islândia costumam ser melhor equipados que os campings, que ora cobram chuveiros à parte, ora sequer oferecem banho.
  • É provavelmente a melhor região da Islândia para avistar animais:
    • Ovelhas: muito comuns na paisagem, nessa região muitas vezes ficam na beira da estrada. Há que ter cuidado na direção.
    • Raposa do Ártico: há um centro de preservação da espécie, em Eyrardalur. Link do Google Maps.
    • Baleias: com um olhar atento e um pouco de sorte, pode ser possível ver algumas nadando nos fiordes. É mais fácil identificá-las quando elas saem para respirar e borrifam água de seus espiráculos.
    • Focas: há um ponto na estrada onde muitas focas ficam descansando. Praticamente certeza de avistá-las. Link do Google Maps.


Dia 5

Atrações:

  • Akureyri (segunda maior cidade da Islândia - "capital do Norte")
  • Região boa para observação de Aurora Boreal
  • Godafoss (cachoeira)
  • Lago Myvatn (banho termal)
  • Hverir (zona geotermal muito ativa)
Se sobrar tempo:
  • Fosslaug
Notas e ajustes:
  • Akureyri, a segunda maior cidade da Islândia, não é tão encantadora quanto Reykjavic, mas valeu à pena passar um tempo ali. O ponto alto foi tomar um café na Kaffi Ilmur, na construção mais antiga da cidade - um belo casarão.
  • Na região de Akureyri encontra-se o único pedágio de toda a Ring Road, localizado em um túnel. Existe, porém, uma rota alternativa que o contorna: o trajeto acrescenta apenas cerca de 10 minutos à viagem e ainda oferece paisagens muito bonitas. A recomendação que recebi foi optar pelo túnel apenas em caso de mau tempo.
  • Passamos em Hverir, mas não fizemos a visitação ao gêiser. Há um estacionamento pago, e já estava tarde. Da estrada já é possível ver a impressionante fumaça que emana daquele solo.
  • Optamos por dedicar mais tempo ao Lago Myvatn, considerado a alternativa à famosa Blue Lagoon, com a vantagem de custar cerca da metade do preço. Embora os anúncios indiquem horário de fechamento às 22h, na recepção nos informaram que o local permanece aberto 24 horas por dia. Ficamos até o dia escurecer.


Dia 6

Atrações:
  • Passeio de avistamento de baleias: 13:15 em Húsavík
  • Pela manhã: GeoSea (spa termal) ou piscina pública de Húsavík
  • Dettifoss e Canion de Jökulsárgljúfur depois das baleias

Se sobrar tempo:

Notas e ajustes:
  • O passeio de avistamento de baleias acabou sendo um pouco frustrante. Vimos poucas baleias, todas da espécie baleia-de-bico-de-garrafa. A viagem durou cerca de 4 horas em um barco que balançava bastante, causando mal-estar em boa parte da tripulação. Dica importante: leve seus remédios contra enjoo ou compre-os antecipadamente em uma farmácia próxima à entrada do píer.


Dia 7

Atrações:

  • Egilsstaðir (principal cidade regional, comércio local)
  • Stokksnes (praia de areia negra)
Tours:
  • Desvio para Seyðisfjörður (história e arquitetura) - 27 km distante de Egilsstaðir pela Rota 93
Notas e ajustes:
  • A ida para Seyðisfjörður valeu à pena e foi o destaque do dia. A cidade é cênica, daquelas que dizem ter saído de um conto de fadas.
  • Em Egilsstaðir, recomendamos o café Tehúsið para uma parada. Link do Google Maps.
  • Pegamos mal tempo praticamente todo o dia. Havia muita neblina na Rota 93, que deixou a visibilidade das paisagens muito limitada. Por causa disso, acabamos também por não parar em Stokksnes.
  • Incluí de última hora uma parada em Stuðlagil, um cânion que parecia muito bonito pela foto. É um pequeno desvio de 16 km da Ring Road, mas acabei me distraindo, não colocando a parada no GPS, e perdendo a entrada. Quando me dei conta, já estava muito longe e não retornei.

Dia 8

Paradas:

  • Jökulsárlón (lago glacial)
  • Skaftafell (parque nacional, montanhas e glaciares)
    • Imprescindível: Cânion Fjaðrárgljúfur
    • Laki
  • Vik (areias de basalto negro, ponto cidade mais meridional da Islândia)
    • Vista panorâmica na igreja Vík í Mýrdal
  • Skógafoss
  • Seljalandsfoss (cachoeira em que se passa por baixo)
Tours:
Se sobrar tempo:

Notas e ajustes:

  • Dia também prejudicado pelo mal tempo. Não é viável parar em todas as atrações listadas em apenas um dia. Ou há que priorizar, ou dedicar ao menos dois dias ao sul.
  • Foi a região mais turística de toda a viagem. Chegam ônibus de excursão de Reykjavic e os lugares são mais cheios. Todos os estacionamentos são pagos.
  • Para visitar Skaftafell, reserve tempo: o parque possui uma rede extensa de trilhas que merece exploração.
  • O lago Jökulsárlón é incrível, com uma paisagem única na Ring Road: um lago glacial deságua no mar em uma praia de areia negra. Há passeios de barco, mas achamos que não valeria a pena pelo frio que fazia; apenas contemplando da terra firme a vista já é impressionante. Vimos focas nadando, o que tornou a experiência ainda mais especial.
  • Terminamos o dia em Vík, onde há opções de restaurantes e uma extensa praia de areia negra. Fomos na piscina pública da cidade. Não tivemos tempo de parar nas cachoeiras Skógafoss e Seljalandsfoss.
  • Nesse dia, pela segunda vez na viagem, vimos a aurora boreal no acampamento. Diferentemente do primeiro dia, o céu não parecia verde, mas havia uma imensa mancha branca. Com a lente da câmera foi possível ver melhor. Foram as únicas duas vezes na viagem que vimos a aurora.


Dia 9

Atrações:
  • Círculo Dourado (Golden Circle)
    • Parque Nacional de Þingvellir
    • Geysir e Gullfoss
    • Cratera Keriđ
  • Fim do dia em Reykjavic
Notas e ajustes:
  • Paramos no famoso restaurante e fazenda de tomate Fridheimar. Sem termos conseguindo fazer reserva, ainda que com duas semanas de antecedência, há uma área externa onde se senta por ordem de chegada. Chegamos cedo e conseguimos prontamente uma mesa. Por um preço único, pode-se servir de sopa e pão à vontade. A fazenda é muito bonita e é possível visitar a estufa de tomate. Apesar da experiência mais sofisticada, o que pagamos na refeição foi mais barato que em outros restaurantes mais ordinários da Islândia.
  • Do circuito clássico do Círculo Dourado, priorizamos o Parque Nacional de Þingvellir e Geysir, que seriam experiências mais diferentes em relação ao caminho que já havíamos feito até aqui. O restante, pensamos que seria muito para um só dia. Ainda aproveitamos mais umas horas em Reykjavic.
  • Há diversos estacionamentos que dão acesso ao Parque Nacional de Þingvellir. Uns são mais remotos e também mais baratos, podendo ser uma oportunidade de economizar algum dinheiro. Eu fui no principal, perto do centro de visitantes.


Dia 10

  • Resumo: Blue Lagoon 8h e devolver carro 12h

Atrações:

Notas e ajustes:
  • A essa altura, já não havia nem muito tempo, disposição ou orçamento para uma passagem rápida pela Blue Lagoon. A viagem até ali já havia sido muito rica. Também foi importante ter tempo para retirar todas as coisas da camper van com calma no momento da devolução.

Total: 2340 km + 60 km (ferry)


 

Camping Card

  • Site: https://utilegukortid.is/campingcard/?lang=en
  • Preço: €179
  • Funcionamento: Válido para 2 adultos e 4 crianças e uma tenda ou campervan. Pode ser usado por 28 noites a partir do dia em que os acampamentos estiverem abertos (meados de maio ou junho) até 15 de setembro.
  • Custos adicionais: Taxa de pernoite (400 ISK), determinadas comodidades como eletricidade, chuveiros e o uso de máquinas de lavar roupa.
  • Reservas: não é necessário, basta chegar e montar seu acampamento.
  • Descontos: parceria com os postos de combustível Olís e ÓB
    • 14 ISK de desconto por litro de combustível
    • 10% de desconto em alimentos e bebidas
    • 15% de desconto em produtos automotivos e gás de cozinha
    • Café por apenas 65 ISK



Utilitários

Aplicativos:

  • Parka (pagamento em estacionamentos e campings)
  • park4night (aplicativo colaborativo de lugares para acampar com campervan)

Sites:

Aluguel de campervan:

Alimentação e mercado: ideias de preparo para campervan


Café da manhã:
  • Ovos
  • Café da manhã instantâneo
  • Iogurte
  • Frutas
  • Pão
  • Queijo
  • Tapioca
  • Café
Almoço (on the go):
  • Sanduíches: manteiga, presunto, queijo, atum, salmon
  • Salada
Janta:
  • Macarrão
  • Vegetais: tomates-cereja, cogumelos, abobrinha etc.
  • Peixe grelhado
    • Salmão: um dos mais populares
  • Batata cozida
  • Churrasco (com churrasqueira de uso único)
    • Cordeiro é a carne mais popular
    • Hamburguer
    • Salada de batata ou repolho se encontra na seção de gelados dos supermercados
  • Hot dog:
    • Muito popular na Islândia, basta cozinhar as salsichas
  • Salada: alface, tomate, pepino, cenoura
Snacks:
  • Barrinha de proteína e energia
  • Castanhas
Bônus:
  • Levar cuscuzeira e flocão de milho na mala
  • Levar conjuntinho de panela de camping para complementar o da campervan
Itens de mercado:
  • Lenço umedecido
  • Toalhinha higiênica e de limpeza
  • Papel toalha
  • Álcool gel
  • Sabão e esponja para lavar louça

Aurora boreal


Configuração da câmera (Nikon D5000)
  • Equipamentos:
    • Lente grande-angular (ideal: 10–24mm)
    • Tripé
    • Timer automático para evitar trepidação
    • Modo Manual (M)
    • Bateria cheia (o frio consome a bateria mais rápido)
  • Foco:
    • Usar foco manual (MF)
    • Ajustar o foco para o infinito (∞) com precisão
    • Focar em uma estrela ou luz distante usando Live View + zoom digital
    • Ajustar até o ponto mais nítido e não mexer mais na focagem
  • Abertura (f/stop):
    • Usar a menor possível (f mais baixo)
    • Exemplo: f/2.8, f/3.5, f/4
    • Quanto menor o número, mais luz entra (fundamental para fotografia noturna)
  • Velocidade do obturador
    • Começar com exposições de 5 a 15 segundos
    • Evitar passar de 20s para não borrar as estrelas (efeito "star trail")
    • Auroras fracas/lentas: até 15s
    • Auroras fortes e rápidas: 5–8s
    • Quanto mais tempo de exposição, mais luz entra
  • ISO
    • Começar com ISO 1600 ou 3200
    • Subir para ISO 4000–6400 se estiver muito escuro (mas atenção ao ruído)
    • Um valor ISO mais alto torna o sensor mais sensível à luz, permitindo capturar imagens em condições de pouca luz, mas pode aumentar o ruído na imagem
  • Formato da imagem
    • Usar RAW (nunca JPEG)
    • Mais adequado para tratamento digital posterior
  • Balanço de branco
    • Começar com “Luz do dia” (Daylight) ou 4000K–5000K
    • Possível corrigir depois se estiver fotografando em RAW
  • Redução de ruído de longa exposição
    • Desativar se quiser economizar tempo entre fotos
    • A D5000 vai tirar uma segunda foto escura para subtrair ruído, o que dobra o tempo de cada clique

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Marrocos

— Sire, já te falei de todas as cidades que conheço.
— Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça.
— Veneza — disse o Kan.
Marco sorriu. — E de qual julgavas que eu te falava?
O imperador nem pestanejou. — Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: — Sempre que descrevo uma cidade digo qualquer coisa de Veneza.
 — Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te pergunto por Veneza.
— Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis 


1. A cidade e o desenho do tempo

O Marrocos não se descreve, se vive. Mas se fosse possível descrevê-lo, talvez fosse como um tapete entrelaçado por cheiros e cores, onde cada fio conduz a um destino inesperado. Que palavras podem descrever o ar quente de uma medina, onde o cheiro das especiarias se dissolve, ou o céu estrelado visto entre a poeira dourada do deserto do Saara? Cada elemento se insinua na narrativa, mas antes que se possa fixá-lo, já se move como a areia ao vento.

Marraquexe me recebeu com a agitação própria dos grandes acontecimentos. Havia ali um festival internacional de cinema, pelas ruas transitavam mulheres em vestidos elegantes e homens de trajes impecáveis. Como um estrangeiro que acabou de aterrissar no país, o que vi foi um país moderno, aberto para o mundo. Do aeroporto até minha hospedagem, foi um curto caminho, apesar do tumulto causado pelo festival.

Minha primeira noite foi breve, em um conjunto habitacional perto da estação de trem, por onde tomaria meu rumo em direção a Casablanca na manhã seguinte. A entrada do edifício, com um emaranhado de corredores que não pareciam traçados por um arquiteto, já era um prenúncio das medinas medievais. O apartamento tinha um jogo de espaços que carregavam a tradição marroquina: uma sala ampla, quase vazia, exceto por um grande sofá que percorria todas as paredes, um tapete de centro e uma pequena mesa que podia ser facilmente transportada de um lado para outro. Parecia uma tenda, como às dos nômades do deserto, maleável e disfarçada de apartamento. O amplo espaço era um convite à reunião, ao convívio.

Alcancei a hospedagem às 22h e logo percebi que não seria difícil achar comida a essa altura do dia. Ao lado, uma cafeteria funcionava a noite inteira, estava movimentada, homens traziam seus computadores para trabalhar, sorviam chá e fumavam seus cigarros. Mais adiante, barracas de comida perfilavam-se ao longo da calçada, servindo passageiros do terminal de ônibus que também ficava por ali. O ambiente era iluminado pela luz difusa das lâmpadas, filtrada por lustres e abajures ornamentais. A noite era um extensão do dia, talvez como um eco da antiga tradição do Ramadã entre sociedades muçulmanas, quando se deve jejuar durante a luz do dia e saciar-se à noite.   

Pela manhã, cheguei à estação central de Marraquexe. Sua estrutura é grandiosa, homenageia as construções fortificadas tão presentes no Magrebe. Por dentro, o ambiente era novo, havia uma praça de alimentação com as principais redes internacionais de fast-food, lojas e o silêncio adequado às viagens de trem, quebrado apenas pelo arrastar das malas. Entrei em meu vagão e encontrei meu assento em uma cabine de seis lugares, com fileiras de três assentos dispostas de frente para outra, daquelas em que os passageiros são obrigados a se encararem. O fluxo de pessoas entre as estações no caminho criava histórias efêmeras. Um grupo de quatro senhoras tentava remanejar seus assentos com outros passageiros para sentarem juntas. Uma mulher estudava os papéis de sua universidade escritos em francês. Ao meu lado, um senhor de tempos em tempos lia passagens do alcorão. O trem avançava sob a paisagem árida.

Depois de três horas e meia no trem, chega-se à Casablanca. Desembarquei na estação Casa Voyageurs, tingida de branco, em estilo colonial francês. Dali tomei um bonde em direção ao Marché Central, que deslizou pelo longo Boulevard Mohamed V, com seus diversos exemplares da arquitetura Art Decó, de edifícios claros, cor branca e varandas ornamentadas. Ao branco contrastava o vermelho dos meios de transportes, dos taxis e do próprio bonde em que eu estava, pulsando como o sangue da cidade entre os edifícios estáticos. As palmeiras completavam a paisagem essencialmente urbana de uma metrópole distinta das outras, de forte identidade.

Completei o trajeto até a minha riad a pé, atravessando uma fronteira muito clara nas grandes cidades marroquinas, entre a cidade velha e a nova. Os bairros novos, chamados de Villes Nouvelles, foram erguidos durante o período do protetorado francês (1912-1956), planejados com conceitos urbanos modernos para abrigar os expatriados europeus. A ideia era atender aos interesses econômicos coloniais: em Casablanca, foi criado um complexo automotivo e industrial que incluía ruas planejadas, malha ferroviária e o porto. A cidade velha, chamada de medina, por sua vez, surgiu de forma orgânica, ao longo de muitos séculos, dentro de muros, onde as técnicas de construção e habitação dos antigos marroquinos se prolonga no tempo.

Não foi muito difícil de me orientar na medina de Casablanca. A riad em que me hospedei ficava logo próxima a uma entrada, por um largo boulevard. Também a medina de Casablanca não é, relativamente, tão antiga, já que foi reconstruída depois do grande terremoto de 1755, o mesmo que destruiu Lisboa e cujos efeitos foram sentidos até no litoral de Pernambuco. Achada a rua, a maior dificuldade foi, contudo, perceber, no meio de tantas portas, em qual eu deveria entrar. Do lado de fora, a riad apresenta-se com discrição: um muro sólido, uma porta estreita, sem sinais de opulência. Por dentro, esconde luxo e um frescor que silencia o barulho da medina.

Riad - jardim em árabe - é o nome que se dá às tradicionais habitações das medinas no Marrocos. Elas são fechadas para o exterior e contam com um pátio central interno, de formato retangular, geralmente ajardinado. Possuem não mais do que três andares, e às vezes uma dezena de quartos, todos com portas voltadas para o pátio interno. Eram habitações construídas por famílias ricas e decoradas tais qual um palácio. Do terraço, pode-se ver o pôr do sol, a laje de outras riades e tomar um chá. Em anos mais recentes, as famílias ricas preferiram se mudar das medinas para os bairros novos, deixando muitas riades abandonadas e deterioradas. Hoje, renasceram como hotéis e restaurantes.

Ao atravessar a cidade velha de Casablanca, cheguei à magnífica Mesquita de Hassan II, construída pelo Rei Hassan II como um mausoléu para o seu pai,  Rei Mohammed V, primeiro rei após a ocupação francesa. A mesquita marca uma continuidade entre a arte marroquina ancestral e as técnicas modernas de construção. O minarete, as típicas torres construídas ao lado das mesquitas, é o segundo mais alto do mundo, visível a quilômetros de distância. Durante a noite, luzes de led apontam a direção de Meca, para onde os muçulmanos devem rezar cinco vezes ao dia. A construção conta com tecnologia anti-sísmica, portas elétricas e teto retrátil. Seis mil artesãos marroquinos, de habilidades excepcionais, trabalharam durante cinco anos na decoração, criando mosaicos deslumbrantes, arcos, colunas de mármore esculpido e portas de bronze ornamentadas. A mesquita pousa sobre o oceano, inspirada em uma passagem do alcorão que diz que o trono de Deus encontrava-se sobre a água.

A mesquita é uma das poucas do mundo que permite a entrada de não muçulmanos, mas apenas em dias e horários específicos, que não coincidiram com minha passagem por ali. Foi projetada para acomodar mais de 100 mil fiéis, 80 mil no amplo pátio exterior, 25 mil nas salas destinadas às orações. Os espaços de reza de homens e mulheres eram separados. Os homens acessavam a mesquita por um imenso e lindo portal, enquanto mulheres usavam uma entrada discreta, pelas laterais, depois de descer um pequeno lance de escadas. Na entrada dos homens, podia-se pegar uma sacola em um baú para colocar os sapatos; para entrar é necessário estar descalço. Um segurança vigiava a porta e barrava a entrada de mulheres desavisadas e homens que julgava não serem muçulmanos. A avaliação se dava apenas pela aparência dos visitantes. Os loiros, altos e brancos, por padrão, eram barrados. Quem não falava árabe, talvez se passasse por turco. Por uma falha do método, quando passei por ali, em meio a turistas e mulheres que se aglomeravam na porta para tentar ver a mesquita por dentro, repeti o gesto de retirar o sapato que os muçulmanos faziam e a minha entrada foi permitida.

Quando se entra, a vastidão impressiona. Não deve haver, no mundo, templo mais digno para um encontro com Deus. Andar descalço, em um espaço tão amplo, o chão todo coberto por suaves tapetes em tons de vermelho e branco, como um deserto domesticado, é uma sensação muito prazerosa que pouco praticamos. Os arcos, o teto alto e a pouca luz que entrava não intimidavam; acolhiam, convidando à introspecção. Diferentemente dos templos cristãos, não há símbolos, imagens humanas retratadas. A arte fala por si só, seu significado é imaginado e moldado pela espiritualidade de cada um. A memória presente naquele lugar, construído por tantos artesãos motivados pela fé, em vez de reforçar nossa irrelevância, nos envolve em sua grandeza.

Marrakesh

Mesquita de Hassan II



Casablanca

2. A cidade e o caos planejado

Na manhã seguinte, continuei meu caminho, novamente em um trem. Aqui deveria ser o início do meu relato, onde o Marrocos parecia de fato começar. Cheguei em Fez e procurei um táxi para me levar até a medina. A riad que reservei havia previamente enviado instruções para encontrá-la. Eu deveria ir até o "Blue Gate", lugar mais próximo que um carro poderia chegar, e depois seguir a pé por dentro da medina. O taxista não entendia o que era "Blue Gate", só soube do que se tratava quando mostrei o nome árabe, "Bab Bou Jeloud", no celular. Seguimos de carro, passamos pelos muros da cidade velha e logo estávamos na entrada daquele mundo enigmático.

Dentro da medina, o lado de fora dá lugar a uma realidade atemporal. A medina de Fez parece uma das cidades descritas por Marco Polo a Kubai Klan em Cidades Invisíveis. Talvez se assemelhe à Zobeida, construída entre muros, pela memória de homens que sonharam o mesmo sonho, em que perseguiam uma mulher nua por uma cidade desconhecida. Ao despertarem, cada um criou o traçado das ruas conforme recordava de seu sonho, erguendo muros para que a mulher não escapasse. Nunca foram, contudo, capazes de encontrá-la. Trata-se de um paradigma diferente de cidade, fictícia e metafórica, como uma realidade construída a partir de um sonho.

É difícil descrever uma medina a partir de referências conhecidas. A primeira impressão que se tem é a de um grande bairro de comércio popular, lembrando a rua da Alfândega no Rio de Janeiro ou a rua 25 de março em São Paulo, ambas cuja origem remete à imigração sírio-libanesa para o Brasil. A medina de Fez, a maior do mundo islâmico, contudo, tem uma escala muito maior, como uma rua da Alfândega multiplicada por mil. O tamanho, a informalidade urbana, as ruas sem traçados planejados, as casas às vezes sem acabamento, as lajes das construções, lembram, a grosso modo, uma favela. Mas a medina não é margem, não é periferia. É centro, é origem, é a essência uma nação.  

Cabe, assim, perguntar: como tudo isso começou, como a cidade evoluiu até ficar desse jeito? Tentei buscar explicações. A que mais me convenceu, e que pude atestar através dos sentidos, é que a forma da medina foi o artifício que tornou a vida no deserto uma hipótese plausível. As ruas apertadas são sombreadas, a casas de barro isolam o calor, feito uma estufa às avessas. Dentro das construções, a temperatura é mais amena que nas ruas, que, por sua vez, é mais amena que do outro lado do muro, onde o sol arde. A medina é um ecossistema que respira, expulsando o calor e retendo o ar fresco.

Seria o caos, se não fosse a ordem implícita que governa cada transação, cada gesto. São em torno de 800 mil habitantes, a maioria de classe média ou pobre, transitando por cerca de 7 mil vielas labirínticas, algumas tão estreitas que se passa apenas uma pessoa por vez. O comércio exerce um papel central. Os vendedores são hábeis, se comunicam em diversas línguas, como se as tivessem aprendido no berço de Babel, e guardam o antigo saber de negociar. Ali se vende de tudo: tapetes, especiarias, cerâmicas, lustres, roupas, alimentos, perfumes, quinquilharias chinesas, óleo de argan, artigos de couro, cobre, joias. É possível perceber uma certa setorização, não sei se por um acordo não declarado, onde lojas que vendem o mesmo tipo de produto se aglomeram. Para comprar, no entanto, é necessário ter paciência e disposição para negociar: nenhum produto tem preço fixo, o valor pago será sempre um meio termo entre o preço informado pelo vendedor e a oferta inicial do comprador. A tradição berbere diz que tanto quem compra quanto quem vende deve sair feliz ao fim de uma transação, cujo objetivo é chegar ao ponto ótimo e justo entre o que um pode pagar e o que outro pode vender.

Orientar-se dentro da medina é um desafio. Os habitantes locais, sabendo disso, muitas vezes se oferecem como guias, nem sempre, infelizmente, agindo de boa fé. Às vezes a intenção é receber alguma recompensa por ter te ajudado. Nesses casos, o valor a ser pago também passa pelo processo de barganha, com valores altos pedidos inicialmente. Em outras situações, te levam até alguma loja e logo você se vê, contra sua vontade, assistindo a demonstrações de produtos e tendo que se desvencilhar do vendedor. Um último caso é quando você passa a seguir alguém dizendo te mostrar algum lugar secreto que só os locais conhecem, até um ponto em que você fica completamente perdido. O suposto guia, então, te pedirá dinheiro para te levar ao seu destino, de modo que você se sente inseguro e coagido a pagar. São relatos comuns, mas não cheguei a passar por nada disso. Para lidar com tais golpes, basta dizer "não" firmemente, de forma cordial. Posto isso, não chega a ser perigoso. A maioria dos marroquinos se incomoda com essa fama de trapaceiros e querem que o visitante estrangeiro tenha uma boa experiência em seu país, para que sempre voltem. Perder-se na medina é inevitável, faz parte da experiência, chega a ser lúdico. É um dos maiores encantos do Marrocos.

Depois de um susto inicial, os segredos da medina começam a ser desvendados, ao passo que andar por ela se torna mais fácil. A medina de Fez tem duas artérias principais, que a percorrem de leste a oeste, ligando o Blue Gate à Universidade Al Quaraouiyine: são as ruas Talaa Kebira (grande ladeira) e Talaa Seghira (pequena ladeira). O truque é, sempre que se perder, procurar uma dessas ruas, seja usando um GPS ou perguntando para comerciantes ou transeuntes. Uma informação valiosa: as ruas possuem nome e placas de identificação. Se o formato da placa for retangular, significa que é uma rua aberta que se conecta a outras. Se, por outro lado, o formato for hexagonal, será um beco sem saída. A maioria dos golpes é dado por homens jovens, sendo recomendável pedir informações para mulheres, pessoas mais velhas ou pessoas trabalhando. Aprenda, também, a chegar à sua riad a partir de uma dessas ruas principais, e o seu caminho de volta será sempre direto e simples como uma linha reta. O Google Maps funcionou bem comigo dentro da medina, tanto para traçar rotas como para orientação em geral, mas não acertará em todos os casos. Em minha primeira vez ali dentro, por exemplo, buscando minha riad, a rota traçada no GPS me levou para a parede dos fundos, em um beco sem saída. Para chegar à porta, tive que seguir um caminho bem mais tortuoso, tentando não parecer um turista completamente perdido com uma mochila nas costas.

Sobre o chão de pedra gasta, 1200 anos de história. A medina de Fez é um exemplar excepcional de uma cidade islâmica medieval, a maior de todas. É a maior zona pedonal do planeta: dentro dela circulam apenas burros de carga, algumas motos, bicicletas e carrinhos de mão, transportando desde malas de turistas a mercadorias e itens de trabalho. A tradição está também no ar, denso de aromas, que carrega a memória olfativa das caravanas que cruzaram o deserto até o coração da cidade. Está no perfume das rosas, no açafrão, no chá de menta. Em especial, está no curtume, na antiga técnica de se tingir couro, cujo forte cheiro, perceptível de longe, é capaz de causar náusea a qualquer um. Os curtumes parecem uma colmeia cravada na pedra, com tanques que armazenam diferentes pigmentos usados no couro. Quando vistos de cima, dos terraços, parecem uma paleta de tinta. Nos tanques de cor clara, o principal ingrediente são excrementos de pombo, misturados com ácidos e urina de vaca, parte de uma alquimia que transforma pele em matéria nobre. Para suportar o odor, folhas de hortelã, que devem ser mantidas sempre perto do nariz, são entregues aos visitantes. Quando o couro está curtido, ele é levado para um telhado para secar e depois é vendido como matéria-prima. Dele são feitos calçados, bolsas, jaquetas, cintos - objetos que carregam a memória de um ofício, de uma cidade.

Rapidamente, percebemos que tradições de tempos muito distantes ainda fazem parte dos movimentos da medina, como uma peça de teatro encenada há gerações. No mundo antigo, Fez se tornou um célebre centro intelectual a partir da Universidade Al Quaraouiyine, mais antiga do mundo ainda em atividade, fundada como uma madraça em 859. Madraças são as escolas islâmicas, onde se ensina árabe - língua de natureza sagrada -, religião e outras disciplinas seculares. Estima-se que dentro da medina existam mais de 30 madraças, além de mais de 300 mesquitas. As vestimentas, também, não parecem pertencer ao nosso tempo: no mês de dezembro, mais frio, muitos circulavam pelas estreitas ruas vestindo jelabas, um robe de lã comprido com capuz pontudo. Em dias mais quentes, usam sua versão mais leve, chamada gandoura, fabricada com algodão.

Nas profundezas da medina, para além dos hotéis nas riads e do comércio vibrante, há um modo de vida modesto que escapa aos olhos apressados. A coleta de lixo é feita por um pequeno automóvel de quatro rodas, semelhante a um trator, estreito, adaptado àquele ambiente. O caminhão não percorre, contudo, todos os cantos do labirinto; lixo se acumula nos refúgios esquecidos. Há uma imensa população de gatos de rua que sobrevive se alimentando desse lixo. Alguns moradores se incomodam com a presença dos animais e, para mantê-los longe, fazem uso de um artifício curioso: depositam  na porta de suas casas uma garrafa com enxofre. Algumas pessoas vivem nas chamadas "dar", semelhantes a uma riad, mas de menor porte, sem um jardim. Nas partes menos favorecidas, muitas habitações estão degradadas. Com mais ou menos luxo, todas as construções são concebidas para manter o isolamento em relação ao mundo exterior. As poucas janelas que se abrem para fora costumam utilizar um elemento arquitetônico chamado muxarabi - delicadas treliças de madeira que permitem ver sem ser visto, preservando a intimidade do lar ao mesmo tempo em que conectam o interior ao movimento da rua.

Bab Bou Jeloud







3. A cidade e o silêncio do sagrado

A região de Fez tem ares de Velho Testamento. De terra muito fértil, as estradas cortam imensos campos de trigo, oliveiras, videiras e hortaliças. A próspera agricultura atraiu homens desde o princípio da história: os primeiros a formarem um assentamento foram os fenícios-cartagineses no século III a.C. Já no século I a.C., os romanos conquistaram a região e fundaram a cidade de Vollubilis. Como uma verdadeira cidade romana, que surgiria para trazer ordem em meio ao caos, ali foram erguidos um arco do triunfo, um fórum, uma basílica e um capitólio. Sendo um dos lugares mais longínquos que o Império Romano atingiu, no auge 20 mil pessoas viveram ali. Em torno do ano de 285, os berberes conquistaram Vollubilis, tendo-a defendido com tal fervor que os romanos nunca a recuperaram. Por alguns séculos mantiveram uma cultura cristã e uso do idioma latim, até a islamização que ocorreria séculos mais tarde, ainda antes da chegada de Mulai Idris, em 787, que viria como o presságio de um novo mundo que surgiria no norte da África.

Mulai Idris é bisneto do Profeta Maomé e neto de sua filha Fátima. Vindo de Meca, estabeleceu o que se considera o início do Marrocos moderno, uma nação árabo-berbere, africana e muçulmana. Formando alianças com tribos locais, seu filho Mulai Idris II fundou a cidade de Fez e iniciou uma tradição que perdura até hoje no Marrocos, de organização do poder em torno de dinastias que descendem diretamente de Maomé. Como que para seguir dialogando com a antiga cidade romana, foi fundada, perto de Vollubilis, uma cidade com seu nome para abrigar o seu mausoléu, hoje lugar sagrado para os muçulmanos marroquinos. A tradição diz que sete peregrinações à Mulai Idris equivalem a uma peregrinação à Meca.

Visitei as ruínas romanas de Vollubilis, Mulai Idris Zerhoun e Meknes em uma excursão de van que saía bem cedo de Fez. As três cidades juntas (Fez, Mulai Idris e Meknes) formam um triângulo de 160 km de perímetro e compõem uma região sintetizada como Fez-Meknes, situada sobre a fértil planície de Saïs entre a cordilheira do Rife a norte e Médio Atlas a sul. É o centro espiritual do Marrocos, um mapa do nascimento de uma cultura. A cidade de Mulai Idris Zerhoun foi um respiro de ar fresco depois de uma visita à medina de Fez. Ali, por muito tempo não se podia pernoitar, não havendo hotéis, e a entrada de não muçulmanos foi proibida até o início desse século. Se a medina de Fez já havia me impressionado por parecer pertencer a outro tempo, Mulai Idris intensificou ainda mais essa sensação.

Sem o mesmo agito urbano de Fez, em Mulei Idris Zerhoun pude observar a vida comum, rural e mais escondida dos olhares estrangeiros. A palavra Zerhoun, que compõe o nome da cidade, é o nome de um belo monte verdejante que rodeia o pequeno núcleo urbano. Do alto, vê-se uma linda cidade tingida de branco, onde a cúpula piramidal verde - cor sagrada do Islamismo - do mausoléu do antigo rei, hoje um santo, se sobressai. A medina sagrada sobe as encostas dos morros com suas ruas estreitas e possui algumas passagens fechadas por barras de madeira, feitas para impedir a entrada de não muçulmanos e dos burros de carga, numerosos na cidade e, a propósito, um de seus elementos mais encantadores. A presença desses animais é comum nas regiões montanhosas do Marrocos, sobretudo aonde os carros não chegam. São o símbolo inesgotável de resistência, de um tempo que ainda não se curvou às máquinas. Trabalhadores leais, silenciosos e humildes, carregam o pão, o gás, galões de água, transportam passageiros, fazem, em suma, a vida funcionar.

Deixando Mulei Idris em direção a Meknes, passamos com a van por uma grande região de campismo. Perguntei ao motorista do que se tratava, e ele explicou que o grande espaço servia para acomodar os inúmeros peregrinos que se dirigem à cidade para homenagear o fundador espiritual do Marrocos. Em seguida, falou sobre o moussem, uma dessas palavras árabes que denotam um conceito religioso difícil de se traduzir diretamente. O moussem é um festival que mistura devoção religiosa com celebração popular; no Marrocos, um sincretismo entre a tradição islâmica e os rituais e misticismos tribais. A celebração inclui música, dança, comida e vai além do cunho religioso, servindo também para organização de feiras, comércio, encontro entre famílias e até negociação de casamentos. Como uma espécie de carnaval, o festival em Mulei Idris ocorre depois do Ramadã, para celebrar o fim do período de jejum.

Depois, passamos por uma estação de controle policial. Ainda explicando sobre os festivais, o motorista começou a se enrolar com as palavras. Segundo ele, alguns moussem incluíam "magia negra" e estavam ganhando fama internacional por meio de vídeos em redes sociais, atraindo europeus e "pessoas suspeitas", o que justificava o controle policial mais rigoroso. Ele falava sobre o moussem Sidi Ali Ben Hamdouch, outro santo venerado no Marrocos, adorado principalmente por aqueles que se sentem rejeitados pela sociedade, exilados da fé normativa, que não encontram proteção no islamismo tradicional. Associada a Sidi Ali, uma princesa mítica chamada Lalla Aicha, independente e poderosa, representa o poder feminino, a sensualidade e o desejo. Percebi, assim, que o desconforto do homem tinha menos a ver com feitiçaria e mais com os frequentadores. O que chamava de "magia negra" e "pessoas suspeitas" eram, na verdade, mulheres tidas como subversivas, e, sobretudo, homossexuais. Lalla Aicha também é associada à água: existe ali uma fonte que brota das pedras, onde acredita-se ser o sepulcro da princesa santa. Os fiéis se banham na fonte como forma de proteção. Outros rituais incluem fazer uma tatuagem de henna como uma forma de conexão com a princesa. Ali é, talvez, o único espaço onde não são julgados por sua orientação sexual. No Marrocos, a homossexualidade é um crime punível com penas de três meses a três anos de prisão.

Finalmente chegamos a Meknes e estacionamos a van no portão do mausoléu de Mulei Ismail, outro célebre sultão do Marrocos. O mausoléu é aberto para visitação de não muçulmanos, como um testemunho da vaidade póstuma do antigo rei. Ele teve o mais duradouro reinado no Marrocos, de 55 anos entre 1672 e 1727, escolhendo Meknes como sua capital. Admirador do seu contemporâneo Rei Luís XIV da França, o Rei Sol, construiu um palácio que, séculos depois, fez Meknes receber a alcunha de Versalhes do Marrocos durante o período de protetorado francês. Seu reinado foi marcado pela expulsão de colonizadores cristãos, a crueldade com que tratava opositores e a formação de um poderoso exército formado por escravos negros trazidos na África subsaariana. Mas, a despeito de seus feitos como estadista, é por outra razão que seu nome atravessa os séculos: a vastidão de seu harém, com mais de quinhentas mulheres, e a descendência quase mítica de oitocentos filhos - como se buscasse conquistar a eternidade com o corpo.

Meknes, a cidade imperial esquecida, era como uma irmã mais discreta de Fez. Sua imponência não estava nas multidões, mas na solidão dos palácios. Os muros eram mais altos e mais amedrontadores que os de Fez, talvez pelos fantasmas dos inimigos que Mulei Ismail mandou decapitar e expor ali. Ao tentar entrar na medina, precisei caminhar rente aos muros por mais de vinte minutos, até encontrar um portão que, por acaso, dava acesso à melah, os bairros tradicionalmente judeus.

A convivência entre judeus e muçulmanos no Marrocos - por vezes pacífica, por vezes tensa - é antiga. Houve um aumento significativo da população judaica após 1492, quando a Espanha, concluindo a chamada Reconquista, expulsou de suas fronteiras mouros e judeus, que, por sua vez, emigraram em massa para o Marrocos, especificamente Fez, local do mais antigo bairro judeu no país. Na sociedade muçulmana, muitas vezes foram convenientemente tolerados, a custo de um imposto específico, e até admirados por suas habilidades como artesãos e comerciantes. Contudo, embora não proibidos, os judeus eram confinados nas melah, tipo de guetos, onde vivam de forma segregada em relação aos muçulmanos. Em Meknes, a melah murada foi construída próxima ao palácio real, por Mulei Ismail, como forma de controle e proteção. Após a criação do Estado de Israel, muitos judeus deixaram o Marrocos. Hoje, a população é muito pequena. Ficaram as casas, as pedras e as sinagogas, lembranças da discreta mas não invisível influência judaica na formação cultural do país.

Assim foi que, entre os becos de Meknes, encontrei-me, sem saber bem como, diante de uma loja que brilhava na sombra de uma rua que parecia esquecida. A loja estava vazia, escura, com o tipo de calma que antecede uma boa história. O dono da loja, Sr. Sid Mohamed, um judeu-berbere apaixonado pelos produtos que vendia, era mais um guardião do que um comerciante. Falava sobre suas peças antigas, os lustres, os bules e os castiçais como quem recita um poema. Tinha um livro de depoimentos escritos em diversas línguas de clientes satisfeitos de todo o mundo, que mostrava como testemunho e selo de sua credibilidade. Sua predileção, no entanto, era por produtos que tinham nomes gravados com letras hebraicas, as quais lia com os dedos e, com a voz, traduzia o significado. Apresentou uma peça da mão de Fátima, um objeto de fé islâmico e hebraico, que representa a proteção contra o mau olhado. A mão, com seus cinco dedos dispostos simetricamente, um desenho da medina e uma inscrição em hebraico, era ela própria encarnação do sincretismo da cidade. Iniciamos, então, uma longa e jocosa negociação pelo preço da peça. Ele anotou no papel seu valor inicial. Eu anotei a minha oferta. O papel passava de mão em mão, os preços atualizados, até que fechamos o negócio, em um acordo de dois viajantes de mundos que se cruzam por um instante. Levei para casa a mão de Fátima envolta em papel de jornal antigo, como se levasse um fragmento da alma de Meknes.


Ruínas de Vollubilis


Muros de Meknes


Mulei Idris Zerhoun

4. A cidade e a travessia

A essa altura da viagem, já havia tocado as ruas agitadas de Marrakech, as avenidas largas de Casablanca e os becos silenciosos de Fez. Faltava, no entanto, algo essencial: atravessar o interior do país. Partindo de Fez, embarquei numa excursão de três dias que passaria por Merzouga, Ouarzazate e outros pequenos vilarejos, antes de me deixar novamente em Marrakech, onde me despediria do país.

O Marrocos do interior revela um outro ritmo, outra paleta. As paisagens, marcadas por extensas cadeias de montanhas, alternam entre o verde esparso das florestas e os tons ocres do deserto e das construções em adobe. São três os principais conjuntos montanhosos do país - o Médio Atlas, o Alto Atlas e o Rif -, e parece que, ao longo da estrada, ao menos um deles está sempre à vista. Seus picos nevados, ainda visíveis mesmo sob o sol forte, desenham um contraste bonito com os vales áridos que se estendem abaixo.

É também no interior que a presença berbere se faz mais visível. São os povos originários do norte da África, cuja cultura e história antecedem em muito a chegada dos romanos, bizantinos e árabes à região. Logo após deixarmos Fez, já pude avistar, num largo descampado à beira da estrada, um grupo nômade montado em tendas. Estavam ali com seus animais, suas roupas pesadas, e um jeito de habitar o espaço que parecia imune à pressa. Mais da metade da população do Marrocos é, ou descende diretamente, de berberes. O termo "berbere", a propósito, tem origem na mesma raiz de "bárbaro", como os romanos nomeavam os povos ditos não civilizados, que não falavam sua língua. Eles mesmos, porém, se chamam Amazigh, que significa "homem livre". Isto é, para o invasor, bárbaros; para si mesmos, livres. Apesar da conotação histórica pejorativa, vi muitos marroquinos usarem o termo "berbere" (que soa como "béri-béri" em sua pronúncia) com orgulho, como um símbolo daquilo que é verdadeiramente marroquino. É por isso que, neste relato, continuo a adotá-lo.

Como seria de se esperar da natureza humana, os povos berberes não formam um bloco homogêneo, embora compartilhem elementos culturais que os aproximam. A língua amazigue, na verdade uma família de línguas, é hoje reconhecida como oficial no Marrocos, ao lado do árabe. Há também uma bandeira própria e um alfabeto ancestral, o tifinague, que pode ser visto tanto em documentos institucionais quanto em sinalizações, funcionando como símbolo de afirmação identitária. Embora muitas vezes associados ao nomadismo, grande parte dos berberes se estabeleceu em cidades do interior, vivendo da agricultura ou de pequenos comércios. Outros tantos habitam hoje os grandes centros urbanos. De forma ampla, três numerosos povos berberes distintos se sobrepõem às três principais cadeias montanhosas do país, regiões onde, historicamente, as culturas dominantes que chegaram ao Marrocos encontraram mais dificuldade de se impor por completo.

Outro idioma amplamente falado no Marrocos é o francês, resquício do período de protetorado que durou mais de quatro décadas, entre 1912 e 1956. A influência francesa vai além da língua: está presente no sistema educacional, em documentos, nas placas de rua e, sobretudo, na arquitetura. Ela aparece tanto nas ville nouvelles quanto, de maneira mais explícita, em lugares inteiramente concebidos segundo o imaginário francês.

Foi, assim, com certo estranhamento que cheguei a Ifrane, primeira parada desde que saímos de Fez. Construída como estação de veraneio para colonos franceses, a cidade está situada a 1.600 metros de altitude, no flanco das montanhas do Médio Atlas, cercada por florestas de cedro. As casas seguem um estilo alpino, com telhados inclinados próprios para escoar a neve, e uma simetria que destoa da lógica labiríntica das cidades marroquinas. O clima também surpreende: ali, o inverno é rigoroso, e a neve é frequente. Naquela manhã, uma fina camada branca já cobria as calçadas. Estava tão frio - eu sem a roupa adequada - que, em vez de andar pela cidade, entrei em um café para me aquecer.

Por alguns instantes, parecia não estar no Marrocos, mas em alguma pequena cidade nos Alpes. A cidade é bonita, limpa, organizada. Mas não combina com o que se espera do Marrocos, país de arquitetura original e reconhecida em todo o mundo. Ifrane parece quase um enclave, um cenário deslocado, mantido com certo orgulho como a "Suíça do Marrocos". A comparação, usada com frequência, não é apenas descritiva - carrega também uma ideia de prestígio, como se houvesse algo de superior em parecer europeu. O que se considera belo ou elegante, muitas vezes ainda passa pelo filtro colonial, seja na preferência pela língua francesa, considerada mais culta, seja na celebração de formas urbanas que pouco dialogam com as raízes locais. Essa estética forjada à imagem da Europa parecia destoar ainda mais conforme nos aproximávamos das regiões onde o Marrocos revela a força de suas raízes berberes.

No caminho até Merzouga, é preciso atravessar as montanhas do Atlas, entre duas cidades que encarnam uma dualidade geográfica e simbólica: Midelt e Errachidia. A primeira, ao norte, repousa no silêncio das montanhas; a segunda, ao sul, recebe os primeiros ventos do deserto. Midelt é uma cidade de pausa - e talvez por isso, muitos acabam por ficar. Nas ruas, celebra-se a maçã, motor da economia local, vendida em pilhas geométricas que parecem ter sido polidas pela neve. Por situar-se na linha de transição entre o norte urbano do Marrocos e o sul árido e rural, Midelt sempre foi ponto de encontro de pessoas e mercadorias, especialmente durante os tempos das rotas de comércio transaariano. Chamaram minha atenção os homens negros nas ruas - altos, esguios, alguns pedindo esmola nos sinais - provavelmente vindos das regiões ao sul do Saara. A presença negra no Marrocos tem raízes profundas: parte descende de antigos escravizados trazidos por essas rotas históricas; outros tantos buscam trabalho sazonal na agricultura e na mineração, também forte na região.

Atravessado o Atlas, a partir de Errachidia, a paisagem muda abruptamente: as montanhas, ao barrar a umidade vinda do Atlântico, deixam para trás um vale ressequido. Transpô-las é como virar uma página - atrás, os bosques de cedros e as ladeiras geladas; à frente, o deserto do Saara, seco, desconhecido. Eu havia iniciado o dia passando por uma floresta de coníferas, visto neve. Agora estava no deserto, de chão duro e pedregoso, que se estendia até onde a vista alcançava. Em Merzouga, já próxima à tensa fronteira argelina, fica o Erg Chebbi, um dos maiores desertos de dunas do país. Embora visualmente impactante, desertos de dunas, os "erg" são muito menos frequentes no Saara do que os desertos de pedra e cascalho, chamados "reg". Durante horas, seguimos por essas planícies áridas, onde o vento, incessante, sussurra entre blocos de rocha gasta, arrastando partículas que, pouco a pouco, se acumulam nas dunas adiante. A vida aqui é rarefeita: um ou outro dromedário surge no horizonte, sempre em trânsito. Apenas em algumas regiões de oásis foi possível se estabelecer cidades, como Arfoud, que surge como um bolsão verde em meio à vastidão mineral.

Ao me aproximar de Merzouga, as dunas do Erg Chebbi surgiram no horizonte como uma miragem que, em vez de se dissipar, ganhava forma e imponência. Era como se um mar imóvel se erguesse diante de mim. Após horas cruzando os regs, aquelas dunas pareciam pertencer a um mundo suave, luminoso e potente. Vistas à distância, davam a impressão de que poderiam engolir, a qualquer momento, as pequenas vilas que repousam em suas margens. A área do erg não é particularmente vasta - cerca de 5 por 28 quilômetros -, mas é grande o suficiente para, uma vez dentro dele, fazer desaparecer qualquer referência exterior: a visão se preenche inteiramente por areia e céu. A cor das dunas varia conforme a luz do dia, oscilando entre o dourado pálido das manhãs e o laranja vivo do entardecer.

O Erg Chebbi é um dos ícones turísticos do Marrocos, onde visitantes se dirigem para passeios de camelo, pernoites em acampamentos no deserto e excursões em veículos off-road. Ao chegar em Merzouga, uma pequena caravana já nos aguardava para conduzir o grupo até o acampamento onde passaríamos a noite. Hoje turísticas, essas caravanas ainda preservam algo da sua familiaridade milenar com o deserto - visível sobretudo no olhar dos guias, no modo como lidam com os dromedários, todos formados por aquele ambiente. Subi no animal com alguma dificuldade: a sela é estreita, e o movimento do dromedário, embora ritmado, provoca um desconforto crescente nas pernas e na coluna. Há uma diferença de escala que impressiona: eles são altos, musculosos, o couro duro como pedra, a passada firme sobre a areia fofa. A marcha lenta, em fila, desenhava uma bonita trilha entre as dunas, repetindo caminhos invisíveis do passado.

No acampamento, vivemos algo próximo ao imaginário de uma noite na Arábia - céu ricamente estrelado, dunas ao redor, sons distantes de tambores. A passagem foi breve: chegamos já com a noite avançada e fomos recebidos com um banquete berbere, servido sob tendas baixas e coloridas. Havia tajine, cuscuz e pão quente, tudo preparado pelos moradores das vilas vizinhas, que também vieram trazer música. Com tambores, organizaram uma roda animada em torno da fogueira, convidando os hóspedes a dançarem ao seu modo. A fogueira cumpria mais do que a função simbólica: nos aquecia de um frio cortante, que naquela época do ano beirava os zero graus. Os guias, bem adaptados, se enrolavam em túnicas pesadas, protegidos sob as jelabas. Partimos antes do nascer do sol. No silêncio da madrugada, subimos em uma das dunas e, de lá, vimos o dia clarear.



Pequena cidade em um oásis



Erg Chebbi


***

A viagem seguiu pelos chamados oásis do sul. Entre Arfoud e Ouazazate, há um número de oásis que compõem as vistas mais extraordinárias e deslumbrantes do Marrocos. É algo de miraculoso - uma verdadeira maravilha natural - a existência de oásis dessa magnitude em pleno deserto. Mais do que refúgios verdes, são centros vivos de cultura, história e resistência humana diante de um ambiente hostil.

Em uma parada na estrada, em um ponto alto próximo ao vale do Rio Todra, detivemos-nos a admirar o oásis de Tinghir. Para se ter uma ideia de seu tamanho, ele se alonga por mais de 30 quilômetros, com cerca de 500 metros de largura, abrigando mais de 80 mil pessoas. Densamente povoado, a agricultura é fértil: planta-se tamareiras, oliveiras, alfazema, milho e hortaliças. Cercado por falésias de tons avermelhados, o povo berbere local desenvolveu um sofisticado sistema de irrigação que ampliou o cultivo e trouxe ainda mais vida à região.

Para se viver ali, recorre-se a uma construção típica do país: os kasbahs e ksours, feitos de barro e palha, com muros altos e janelas pequenas, próprios para suportar o calor. Depois de experimentar as riads e as medinas dos centros urbanos, chegava o momento de habitar outras expressões da arquitetura vernácula que tornam o Marrocos tão fascinante. Originalmente eram residências fortificadas, centros de poder, em formato de bloco com torres nas quatro esquinas. Hoje, embora já não abriguem a maioria da população, sua técnica construtiva, intimamente ligada à paisagem e ao clima, foi preservada e reinterpretada nas moradias modernas. Ao longo da estrada, muitas kasbahs em ruínas permanecem de pé, como poesia de barro ressecado, recitando a memória de um tempo que o deserto ainda guarda.

Enquanto as kasbahs são construções privadas, erguidas por famílias influentes como símbolos de prestígio e poder, os ksour, embora feitos com as mesmas técnicas de terra crua, são assentamentos coletivos, verdadeiras vilas fortificadas. Neles, as casas se agrupam dentro de muralhas contínuas, como nas medinas, formando um emaranhado de ruas estreitas que protegem tanto do calor intenso quanto de eventuais invasores. Os ksour completam a paisagem exuberante dos oásis, somando-se às palmeiras, falésias e extensões de areia, traçando, em barro e geometria, a presença humana em meio à vastidão natural.

A travessia termina, simbolicamente, em Aït Benhaddou, o mais famoso dos ksours marroquinos. Já nas imediações da cordilheira do Atlas - que eu cruzaria novamente rumo a Marrakesh -, a cidade surge como se fosse parte do deserto, erguida por um povo que a todo momento desafia o esquecimento. A cidade representa perfeitamente a união entre função prática e estética refinada, respondendo ao clima e integrando-se à paisagem, respeitando o ambiente. Fui inteiramente absorvido por sua beleza: a arquitetura, um campo que raramente me tocava em outras viagens, aqui se impunha com força, como linguagem viva. Tamanha expressividade - a paisagem parece sair de um sonho - fez do lugar um cenário recorrente no cinema mundial: Hollywood encontrou ali um espelho de seus próprios mitos.

Aït Benhaddou é símbolo, sobretudo, do fascínio que o Oriente “exótico” - palavra que, aliás, a essa altura já me parecia vazia - ainda exerce sobre o Ocidente. Foi ali que percebi que o que mais me fascinava no Marrocos não era sua beleza, tampouco o suposto exotismo, mas a forma como tudo coexistia em tensão: passado e presente, fé e comércio, arte e sobrevivência. Como se o país inteiro fosse uma tapeçaria viva - feita de fios que não se misturam, mas vibram lado a lado.




Residência berbere em Aït Benhaddou

Aït Benhaddou



Oasis de Tinghir e ksour (vilarejo fortificado)


Fim