sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ventre Amazônico

"Agora que o terrível desconhecido libertara-o, ele se esqueceu de que o desconhecido possuía qualquer terror. Ele estava ciente apenas da curiosidade por todas as coisas à sua volta"
Jack London
Este texto foi inspirado nas ideias de dois mundos apresentadas por Hermann Hesse em Demian.

Deixar a escuridão e o vazio da preexistência para ter o primeiro encontro com a luz foi como me senti ao chegar ao Pará. Uma nova viagem é, afinal, como um novo nascimento, em que a partir do momento em que deixamos o útero de nossas mães, estamos em permanente contato com o estranho e o desconhecido. Em viagens, contudo, somos órfãos, filhos sem mãe. O mundo não se importa se teremos uma cama para dormir à noite ou um agasalho para nos proteger do frio. Não se importa se estamos tomando chuva ou sentindo demasiado calor. Nós, viajantes, também somos duros e resilientes. Rebeldes, enfrentamos o mundo não maternal e achamos isso divertido; rimos da cara do perigo. Somos tão desobedientes quanto o crescimento, a inexorável maré de vida que se ergue dentro de nós a cada passo e a cada respiração.

A viagem ao Pará começa em uma noite sem cama, nas pouco confortáveis cadeiras do saguão do aeroporto de Santarém. Do mesmo modo começamos nossa jornada no mundo: com um choque, desnudos e desprotegidos, sentindo a luz, mas sem conseguir abrir os olhos. Somos colocados no colo de nossa mãe e logo descobrimos a existência de dois mundos: o mundo perfeitamente conhecido, o de nossos pais e de nossa casa; e o mundo desconhecido, o imenso lado de fora, hostil e impetuoso. Em uma viagem, assim como no processo de crescimento, precisamos transitar por esses dois mundos, removendo atributos do desconhecido e adicionando-os ao conhecido. O crescimento acontece quando expandimos o nosso mundo familiar, quando deixamos que a curiosidade pelo mundo de fora supere o temor que sentimos dele.

A madrugada no aeroporto de Santarém passou devagar. O fuso horário do Pará, uma hora atrasado em relação a Brasília, aumentou ainda mais o tempo de espera. De Santarém, precisávamos chegar ao distrito de Alter do Chão, 37 km distante. Esperava o dia clarear, quando a família que nos receberia já estaria iniciando as suas atividades do dia. Enquanto a madrugada lentamente se transformava em dia, voos chegavam e partiam com frequência, até que as companhias aéreas encerraram suas atividades por volta das 4h da manhã. O aeroporto ficava vazio, os taxistas, sem nenhum passageiro para transportar, se retiravam.

Havia um rapaz sozinho, imerso em seu próprio mundo, muito diferente do meu, com o rosto envolvido por um enorme fone de ouvido. Precisamente às 5h da manhã, um taxista com o qual ele já havia pré-combinado sua viagem veio a seu encontro. Vi uma oportunidade de baratear os custos da ida a Alter do Chão - provavelmente o rapaz era mais um turista indo para lá, com quem eu poderia dividir o preço do táxi. Abordei o rapaz e descobri que na verdade ele estava indo para Monte Alegre, na margem oposta do Rio Amazonas. Ele era meu conterrâneo, carioca de Madureira, que iria reencontrar sua mãe após longos nove anos sem vê-la. Era uma visita surpresa, e o rapaz, desnorteado em seus movimentos secretos, encontrava diversos problemas para se orientar no Pará. Nosso encontro foi então apreciado por todas partes: minha viagem ficou mais barata, o rapaz encontrou um companheiro para sua solitária viagem, e o taxista, que primeiro deixou o rapaz no porto de Santarém e depois nos conduziu, finalmente, a Alter do Chão, faturou alguns reais a mais do que esperava inicialmente.

Na chegada a Alter do Chão, um novo espasmo de susto percorreu meu corpo. O dia ainda não havia completamente rompido a noite, e, no endereço indicado pelos nossos anfitriões, não havia casa alguma. Em um lugar onde as ruas não necessariamente são retilíneas, asfaltadas ou sinalizadas, ficamos ao relento, no meio da rua. O taxista deixou seu número de telefone e partiu. Fui a pé procurar com mais profundidade a casa, as mochilas nas costas. Fora da rua principal, os caminhos que surgiam ofereciam pouco acolhimento: a vegetação se fechava e, sob o espectro da alvorada, formavam-se vias nebulosas e obscuras. Nesse caminho desolado, havia, contudo, um grande hotel, onde fomos buscar algum abrigo e hospitalidade.

Longe de casa, o mundo pode apresentar, também, refúgios maternos; um momento de castigo sempre pode ser equilibrado por outro de afago. Paulo, o recepcionista do hotel, foi ligeiro em nos receber. Aparentemente, a surpresa da chegada de dois inesperados viajantes em sua monótona noite na recepção deu a ele uma dose de ânimo. Tentou achar a nossa casa, buscou informações em seu celular, respondeu todas as nossas perguntas sobre a cidade. Ofereceu as dependências do hotel para nosso descanso. Vimos o dia surgir tímido no Lago Verde e, então, tomamos um belo café da manhã depois de uma longa viagem e uma madrugada inteira ora sentados no aeroporto, ora perdidos tentando encontrar nosso destino. Com a ajuda de Paulo, descobrimos o endereço correto: das duas pontas que marcam o início ou o fim de uma rua, fomos para a ponta errada. O dia já estava completamente claro e Paulo tratava de arrumar um transporte para o nosso endereço certo, quando meu celular tocou. Era João Tiago, dono da casa onde iríamos morar pelos próximos cinco dias. Ele queria se certificar de que havíamos chegado bem a Alter, e logo se ofereceu para nos buscar, de carro, no hotel. Do Lago Verde, atravessamos a cidade em sentido transversal e fomos transportados até a margem do Rio Tapajós.

Fomos recebidos por uma linda família. Sami era a esposa de Tiago. Da mistura dos dois, nasceu Mie, dona de um dos rostinhos mais brasileiros que pode existir. Tiago tem ancestralidade indígena, e Sami, por sua vez, descende de japoneses pelo lado da mãe e de gaúchos brancos pelo lado do pai. A dúvida se os olhos puxados de Mie vêm da herança ameríndia ou asiática torna a composição de seu rosto encantadora. Enquanto nosso quarto era arrumado para nos receber, nos foram oferecidas redes para descansar. Mais tarde, quando acordamos após a noite passada em claro, os pais de Sami, que também se encontravam na casa, nos ofereceram almoço. O prato era tambaqui, peixe amazônico, que, junto com o pirarucu, faria parte de nossa dieta básica durante toda a passagem pelo Pará. A essa altura, os mundos conhecido e desconhecido eram indistinguíveis: encontramos em Alter do Chão, por um breve momento, a extensão da casa de nossos pais.

Dentro do mapa, Santarém é um município localizado no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, de naturezas perpetuamente destinadas a se chocarem. Por diferenças de temperatura e densidade, os rios não se misturam nem se separam, formando um casamento eterno entre as águas azul-esverdeadas do Tapajós e barrentas do Amazonas. Esse fenômeno, particular da relação entre o Rio Amazonas e seus afluentes, é um dos fatores que compõem a misticidade dessa bacia hidrográfica, a mais monstruosa e superlativa do mundo. Na região, de uma margem do rio, mal se pode ver a outra: é tanta água que insistimos em chamar rio de mar. Alter do Chão é um distrito administrativo de Santarém, repleto de praias banhadas pelo Tapajós. Ao norte de Alter está a Ilha do Amor, uma península que surge e desaparece a cada ciclo de cheia e vazante.

Alter do Chão

Encontro das águas
Não somente a água que vem das montanhas e corre até o mar impressiona por sua abundância - o mesmo se pode dizer da água que vem do céu. Existem rios no ar, feitos da mesma matéria e à imagem e semelhança dos rios da terra. A Amazônia é como a mãe de todas as criaturas, a deusa geradora de vida no planeta. A maior floresta tropical do mundo é fonte inesgotável de umidade, reguladora do ciclo de chuvas de toda a América do Sul e estabilizadora do clima global; uma deusa de fato, a floresta de todas as florestas. Se eu não tivesse sentido tanta água escorrendo pelo meu corpo ao longo de um dia inteiro de passeio pela floresta, seria capaz de duvidar de seus poderes. De Alter do Chão, pegamos um barco em direção à Floresta Nacional do Tapajós (FLONA). Logo após alguns minutos de viagem, uma verdadeira tempestade tropical envolveu toda a floresta. As águas do céu e da terra estabeleceram contato por uma grossa linha de chuva. O rio, de águas calmas, se agitou. O intenso calor, típico da barriga equatorial do planeta, se arrefeceu a ponto de nos causar hipotermia. O barquinho em que estávamos não oferecia abrigo contra a chuva, e ficamos todos completamente encharcados. Viver esse momento deve ser algum tipo de provação para aqueles que querem ser incluídos na magia da Amazônia.

Na FLONA tivemos o primeiro contato com os povos da floresta. Paramos o barco e caminhamos por cinco minutos até a vila de Jamaraquá. Durante o período de cheia, pode-se chegar até a vila de barco, e as árvores que apareceram nesse caminho ficam parcial ou totalmente submersas. Isso pode ser visto ao observar os caules escurecidos até alturas que indicam o nível das águas nas cheias. Na vila fomos recebidos por comunidades típicas e indígenas para um passeio guiado pela floresta. A floresta oferece muitos produtos, e muitas são as possibilidades de uso sustentável pelos locais, das quais se destacam a extração de látex e óleos. Nosso guia nos conduziu por diferentes paisagens amazônicas até um igarapé de águas cristalinas. Lá experimentamos uma série de frutos amazônicos coletados ao longo da trilha, enquanto conversávamos com os moradores locais. Um deles, já um senhor, mostrava-se preocupado com a preservação da Amazônia, em um cenário político em que se pretendia combinar, em um único ministério, as pastas do meio ambiente e da agricultura. Para ele, isso era uma clara ameaça ao seu meio de vida. Os povos da floresta não a destroem, pelo contrário, sabem que sua preservação pode trazer uma série de riquezas. Sabem, sobretudo, que a natureza não pode se defender da devastação, mas pode se vingar como ninguém. O fim da caminhada foi recompensado por uma série de Sumaúmas, incríveis árvores amazônicas cujo caule, de tão grande, só pode ser abraçado por cerca de trinta adultos. A Amazônia é terra de gigantes.

Afastada da floresta, no núcleo urbano de Santarém, uma senhora ganhou o mundo fazendo arte com matérias-primas amazônicas. Dona Dica Frazão é uma daquelas raras pessoas que são pioneiras em algo, que criam do zero, que se tornam lendárias. Ela vivia em Santarém, e fazia, de sua própria casa, um museu, onde recebia, pessoalmente, visitantes do mundo todo. Ela faleceu em julho de 2017, com 97 anos. Seu legado é mantido por sua filha, que cuida, hoje, da casa-museu, e também por conversas registradas em livros e relatos de muitos outros viajantes que estiveram ali. Descrita brevemente, Dona Dica Frazão seria uma estilista, mas que não usa tecidos ou panos. Suas peças são feitas com fibras da natureza. Em uma cesta, estão concentradas todas as fibras usadas como matéria-prima: palha do buriti, raiz de patchouli, fibra de malva e a mística entrecasca. Segundo Dica, a entrecasca é extraída há mais de 50 anos por índios munducurus, que mantêm o nome da árvore em segredo. Ela já produziu para a Rainha Fabíola da Bélgica, Papa João Paulo II e Juscelino Kubitscheck. Certamente é uma das maiores brasileiras que já viveu. Sua filha, que nos apresentou a casa de Dica Frazão, aprendeu a fazer peças como a mãe e pretende criar oficinas de empoderamento feminino por meio do domínio da técnica.






Em Santarém, subi as escadas de um prédio antigo e cheguei ao escritório da empresa de transporte que realiza a viagem de barco até Belém, por onde eu seguiria viagem explorando os segredos do Pará. O barco, chamado pela população local de lancha, sai toda quarta-feira de Manaus, passa por Santarém às sextas, e chega domingo a Belém. Nessa região de muita água e floresta densa, a maioria das viagens - muita das quais contadas em dias - se faz por vias fluviais. O trajeto de Manaus a Belém percorre um bom pedaço do Rio Amazonas, e Santarém fica exatamente na metade do caminho entre as duas capitais. Enquanto eu aguardava Sérgio, o vendedor de passagens com quem já havia falado ao telefone,  observava, na sala de espera, fotos de um navio que até então vivia apenas em meu imaginário, como parte do folclore amazônico. A propósito, nos dias que antecederam minha ida ao Pará, tentei por diversos meios encontrar informações sobre empresas que operam esse trajeto. Não foi fácil. Quando perguntei a Sérgio se corria risco de as passagens se esgotarem, ele me respondeu: "não se preocupe. Se lotar, é na lotação máxima, não vai viajar em excesso, vão todos em segurança" 

A chegada ao barco foi caótica. A lancha possuía, enfim, um nome de batismo: "Navio Roraima". De grandes dimensões, ele comportava uma tripulação de dois mil passageiros. Se ele havia atingido ou superado a lotação máxima, era difícil precisar. Entre Manaus e Belém, o navio aporta em diversas cidades, onde pessoas entram e saem, cada uma com sua própria origem e destino, convivendo por alguns dias sob o mesmo espaço. Espaços esses que muitas vezes se sobrepõem, que não possuem limites claros. O navio dispõe de alguns camarotes e também de suítes, com banheiros particulares. No entanto, a grande maioria dos viajantes se aglomera nos redários, dois andares de áreas vazias, preenchidas por tantas redes quanto possíveis. Com o balançado, redes se chocam, e, entre elas, formam-se labirintos. No porto de Santarém, havia uma grande movimentação nos porões do navio. Como ponto estratégico, na metade do percurso, havia troca de turno dos funcionários do navio, chegada de novos alimentos e descarte do lixo gerado. Muitos passageiros, com diferentes condições físicas, subiam as estreitas escadas do navio com quantidades variáveis de bagagem. Chegamos ao redário e, com uma certa dificuldade, conseguimos finalmente armar nossas redes e acomodar nossos pertences.

Antes da partida, pelos alto-falantes do navio, foi realizado uma espécie de culto evangélico. Atravessamos o encontro das águas e partimos, então, de Santarém rumo a Belém, seguindo o Amazonas à jusante. Logo fui enjaulado pelo medo. Deitei na rede, e, com o movimento do navio, ela balançava para frente e para trás, como um pêndulo errático e compulsivo. Senti-me imediatamente nauseado, arrependido de estar ali. Seria muito para mim aguentar dois dias inteiros naquelas condições. Para me desembaraçar das oscilações da rede, busquei outros ambientes do navio. Visitei os banheiros, a cantina e o restaurante, e não encontrei em nenhum lugar a sensação de conforto. Fui à área externa, onde poderia tomar um ar e esperava encontrar maior sensação de estabilidade. Era um espaço onde pessoas se encontravam, onde a luz do sol chegava, o vento batia, mas que não havia silêncio. Enormes caixas de som tocavam, ininterruptamente das 8h da manhã à meia-noite, música sertaneja em alto volume. 

Para viver nesse barco, precisava observar a realidade em meu entorno. Foi quando vivi um novo nascimento diante da aventura que se apresentava a mim. Como uma ave, que tem de quebrar um ovo para vir à luz, precisei destruir um mundo para entrar em outro. Esse outro mundo me era completamente diferente, e podia comportar muitos outros mundos. Quantos mundos diferentes podem caber dentro do universo de um navio? A verdadeira pergunta a ser feita é: quantos brasis podem existir dentro de um Brasil? Pelos próximos dois dias eu estaria renovando em mim o mundo, ao seguir um impulso de minha natureza em direção ao incerto. Eis o momento em que, libertado do medo, pude fazer, do terror, matéria-prima para curiosidade.





Passei a prestar atenção nas pessoas. Poucos eram como eu, viajantes motivados pela curiosidade. Viagens de dias pelos rios amazônicos podem se resumir a poucas horas - ou mesmo a minutos - de voo. O valor das passagens aéreas é acessível, ao passo que o preço do barco não é tão barato quanto pode parecer. Dificilmente quem estava ali queria estar ali; realmente precisavam e não tinham muita escolha. Havia mãe com vários filhos, com crianças de colo, gestantes e idosos com dificuldades de locomoção, todos sem condições adequadas de higiene. Muitos carregavam muita bagagem e comida. O barco dispunha de um restaurante que servia almoço e janta por 15 reais cada. A despeito de haver aproximadamente duas mil pessoas no barco, o pequenino restaurante nunca estava cheio: poucos tinham condições de pagar 30 reais em refeições em um único dia. Era comum levarem caixas térmicas com comida para todos os dias de viagem, com receitas baseadas sobretudo em farinha de mandioca.

Havia ainda um time de futebol inteiro de garotos que iam disputar uma partida em Belém. Havia quem catasse latinhas de refrigerante das lixeiras para ganhar algum dinheiro com a reciclagem. Havia um pregador com a Bíblia embaixo do braço. Uma mãe conversava em português com adultos e em tupi com seu filhinho. Havia quem estivesse ali por preferir apreciar a paisagem da floresta a olhar a mesmice das nuvens em uma viagem de avião. Outros queriam viajar com tanta bagagem que a passagem aérea se tornaria demasiadamente cara. Existe um Brasil em que muitos estão a dois dias de viagem da capital mais próxima. Conversei com um senhor que havia viajado 30h em um ônibus desde o Mato Grosso até Santarém, para então encarar mais dois dias de barco até Belém. Havia estrangeiros, um rapaz japonês, vizinho de rede, que não largava seus equipamentos eletrônicos. Europeus completamente deslocados de sua realidade. Latino-americanos descobrindo, no Brasil, os seios da América.

Depois que o navio assume velocidade constante, o princípio da inércia age e o chacoalho no redário cessa. A noite cai sublime, e o refúgio materno tornou a se materializar em mim sob a forma de um céu estrelado. O sol se pôs à popa do navio, se escondendo no horizonte que marcava o início da jornada. Nós navegávamos para leste, em direção ao nascer do sol, usando os astros como guias. Assim como nas escrituras, as estrelas indicavam o caminho, não para Belém da Judéia, mas para Belém do Pará. Ao zênite de um céu amarelado pelo pôr-do-sol, surgia tímida a lua, que logo estaria em seu mais intenso júbilo. Já tendo conhecido a realidade e o jeito de se viver no barco, a adaptação veio com o tempo, e, a essa altura, já podia desfrutar de estar ali, vivendo a mitologia de um cruzeiro  pelo Rio Amazonas.










Durante o primeiro dia no barco, navegamos a maior parte do tempo afastados das margens do rio, o que tornou a paisagem um tanto monótona. Com a chegada da escuridão, contudo, esparsos pontos de luz podiam ser vistos na floresta. Eram seus olhos, que estavam ali o tempo todo, observando nossa passagem de longe. Quando o novo dia chegou, fui acordado com uma movimentação inédita até então. Os passageiros estavam reunindo alguns itens em sacolas de plástico e lançando-as ao rio. Quando fui à janela, fiquei espantado ao ver a quantidade de ribeirinhos que remavam suas canoas até próximo de nosso navio esperando coletar, nas sacolas, roupas ou comida. Navegávamos agora por canais menores, pequenos braços do Rio Amazonas, de onde podíamos ver de perto todas as formas de vida humana que existiam na beirada do rio. Vinham crianças, vinham famílias. Homens anfíbios, adaptados a viver nas margens do rio, são brasileiros que conhecem um Brasil muito diferente do meu. Vivi por um instante a sensação de estar no Brasil original. As canoas podiam ser tanto a remo quanto motorizadas, e alguns ribeirinhos chegavam a atrelar suas pequenas embarcações na nossa para entrar e vender açaí, camarões e outros produtos da floresta.

Os ribeirinhos em suas canoas nos acompanharam por boa parte do percurso até Belém. Nas margens dos rios podíamos ver suas casas, erguidas sobre palafitas e feitas de madeira. Havia casinhas isoladas, mas também pequenas comunidades reunidas. Existe, de fato, um modo de se viver ali. Igrejas evangélicas se proliferam na região, e barco-escolas levam educação aos cantos mais remotos desse país. A última cidade em que o navio parou antes da capital foi Breves, diante de um novo e lindo pôr-do-sol. Perguntava a mim mesmo se foi penoso o caminho até ali. Difícil, apenas? Não teria sido belo também? O navio ficou uma hora parado no porto de Breves, e os botos vieram expor sua exuberância. Em uma das cenas mais lindas que vi em toda a minha vida, eles saltavam bem alto, rodopiando no ar, fazendo um balé nas águas. Maravilhado com o baile, eu podia apenas confirmar com os olhos que, de fato, os botos, criaturas do folclore amazônico, possuem o dorso encantadora e surpreendentemente cor-de-rosa. 

Amanhecemos no dia seguinte já nas cercanias de Belém. Depois de tanta selva, banhada por um rio imenso, tínhamos à vista um amplo aglomerado de arranha-céus. A tripulação se aglomerava na frente do navio para poder ver a cidade de longe. Havia, principalmente uma agitação entre as crianças. Muitas delas estavam vendo prédios pela primeira vez na vida: aquilo é um prédio, mamãe? Nos próximos dias, em Belém, o Pará guardava ainda algumas surpresas: uma metrópole dinâmica, culturalmente agitada, no meio da selva; uma ilha fluvial enorme, no meio do Rio Amazonas, com uma população incrível de búfalos; um mercado símbolo do Brasil, com sua miríade de aromas, que vende os maiores peixes de rio do mundo; uma senhora mística que vende produtos que solucionam, desde um amor mal resolvido, a problemas financeiros.

No Pará, abri em mim uma janela por onde diversos mundos penetraram radiantes. Descobri que para amar o mundo todo, preciso amar todos os lados dele, sejam o conhecido e o desconhecido, o luminoso e o obscuro, o de dentro e o de fora. No final, senti que tudo o que eu vivi nessa viagem havia retornado a mim sob a forma de resposta e concretização.







quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Meu encontro com um campo de refugiados

A poucos quilômetros ao norte de Amã, o mundo chora o drama dos mais sofridos exemplares de seus habitantes. Ali fica o maior campo de refugiados do mundo, onde 150 mil sírios esperam o fim de uma guerra civil que já dura sete anos. O fim da guerra, contudo, é uma esperança vazia. O campo, concebido como uma estrutura temporária, evolui para uma grande, permanente e desordenada cidade, a quarta maior da Jordânia. As casas não possuem paredes de concreto, não há tubulação de água, o fornecimento de energia é apenas pontual, não há ruas ou vias pavimentadas. Os refugiados tiveram seus lares despedaçados e, se antes da guerra já tinham pouco, agora não possuem mais nada.

Saem em busca da libertação, mas encontram uma vida de cárcere. O campo é completamente cercado, sempre com altas grades e arame farpado no topo. Por motivos que não se compreende bem (o governo jordaniano afirma que por "segurança"), os refugiados são impedidos de deixar o local até que alguém decida algum destino para eles. Embora alguns burlem as regras, ninguém consegue ter uma renda própria ou determinar o próprio rumo de suas vidas; dependem totalmente de ajuda humanitária. O que acontece com os sírios é uma verdadeira diáspora dos nossos tempos, e muitos países, como a própria Jordânia, penam em receber ou ocupar todos esses miseráveis indivíduos, que vivem no completo marasmo, sonhando com dias melhores. 

O que se vê ao percorrer o perímetro do campo é a mais triste imagem da vida humana. Caminhões-pipa enchem reservatórios d'água, e, sem uma rede de encanamento, os refugiados devem buscar sua água no intenso calor do deserto. Por não haver ruas, automóveis não transitam dentro do campo, e muitos precisam caminhar longas distâncias para ter acesso a um bem tão essencial quanto a água. Alguns mais sortudos dispõem de bicicletas para locomoção, como um jovem garoto que tenta vender na beira da estrada colchões que recebe de doações. Esta, a propósito, é uma prática bastante comum: refugiados buscam converter as esmolas que recebem em mercadorias. Os campos verdes ficam mais largos conforme se deixa a Jordânia em direção à Síria, e, quem consegue, a despeito das proibições, deixa o vilarejo para trabalhar em fazendas da região. Os refugiados vivem em tendas de estrutura metálica, que podem ser erguidas com muita facilidade. Isso permite que o complexo aumente rapidamente de tamanho, sem que, no entanto, a infraestrutura melhore no mesmo ritmo. Famílias, quando não separadas pela guerra, dividem banheiros e cozinha. Apesar da grande atuação das Nações Unidas e de diversas ONGs, mal existe o mínimo para se viver. Para onde se olha, há dor, caos e desespero.

Muitas são as emoções que movem o nosso coração quando estamos diante da insuficiência. Suficiente é a qualidade do mínimo necessário para a vida humana, um limite acima do qual podemos nos concentrar em qualquer outra coisa além da nossa própria sobrevivência. Quando vemos situações de insuficiência, sentimos caridade pelo sofrimento alheio, ao passo que passamos a temer o desamparo e a desolação. Não é fácil ser observador da insuficiência: lidamos com sensações que podem ser nobres ou caprichosas, enquanto nos resta tentar nos colocar no lugar dos que levam uma vida escassa. A guerra rouba a humanidade das pessoas, as reduz a organismos buscando se adaptar - viver, afinal, é se adaptar. Onde existe fome, miséria e escassez, existe uma guerra que pode explicar todas essas mazelas. O homem passa a seguir regras sobrenaturais, alheias inclusive às Leis da Selva, em que, salvo em raras exceções, indivíduos da mesma espécie não matam seus iguais. Não há pena ou dor em matar, a bondade é condenada: que poder teriam os homens para concederem a si próprios uma qualidade tão divina quanto a bondade?

Essa tenebrosa guerra um dia deve acabar. Mas o que acontecerá com todos esses refugiados quando esse sonhado dia chegar? Como recomeçar a vida quando sua nação está devastada e suas raízes já não existem mais? Como deixar um lugar sabendo que, se algo der errado, não poderá voltar? Como encontrar uma direção quando não se tem lar, renda, estudo ou, mesmo, família? O que a nossa experiência na Terra diz é que todos se tornarão náufragos à deriva em um oceano incapaz de lhes fornecer uma vida digna e suficiente. O campo de refugiados provavelmente se transformará em um gueto, de onde a pobreza será transmitida de geração em geração, como já acontece com descendentes de refugiados palestinos na Jordânia.

A guerra pode parecer distante, mas é causada e fomentada por seres humanos como nós, educados para a ganância e ensinados a ter amor pelo poder. O mundo é regido pelo princípio orwelliano de que guerra é paz, isto é, de que somente a guerra pode trazer a paz, em um paradoxo que torna os dois conceitos indistinguíveis. Enquanto a guerra civil síria continuar com tanta indefinição, com tantas forças buscando ocupar o vazio de poder deixado pelo conflito, a miséria irá seguir se perpetuando em segundo plano até que, um dia, toda essa corrosão da vida humana será irreversível.










sábado, 14 de julho de 2018

O Grande Deserto do Mundo

O quinto pilar do Islamismo, o da peregrinação, diz que todo fiel deve ir à Meca pelo menos uma vez em vida. A história das viagens começa por aí, em tempos tão longínquos quanto os anos 600: os muçulmanos viajavam não apenas por sobrevivência ou para se enriquecerem com o comércio em terras distantes, mas por pura espiritualidade. Os árabes são, de fato, um povo fadado ao movimento. Quem não se movimenta pensará que o mundo é todo um grande deserto. Ainda que se movimentem, precisam andar muito para deixar a imensidão de paisagens desérticas que se alongam pelo cordão tropical desde o Saara até as fronteiras finais da Ásia Central.

Por outro lado, é igualmente importante que nos movamos até o Oriente Médio. Caso contrário, poderemos pensar que essa região é caótica, que vive em estado permanente de guerra, que a população é grosseira, que pessoas se explodem. Será difícil pensar em árabes sem pensar em terrorismo e destruição, seremos contra sua imigração, defenderemos o fechamento de nossas fronteiras. Julgaremos ser impossível andar em segurança ou em paz nas ruas.

A diversidade do mundo é uma mão que bate e que afaga. Aceitá-la significa receber sabedoria, mudar as lentes com as quais enxergamos o mundo. Negá-la significa nos fecharmos entre os nossos iguais, atribuir aos outros qualidades que os tornam inferiores. Assim como um corpo quente troca calor com um corpo frio pelo simples fato de existir uma diferença de temperatura entre eles, a diversidade é o motor de minhas viagens; existindo diferenças, existe um motivo para me deslocar de um lugar ao outro. Anseio desenhar um mapa-múndi sem fronteiras, em que todas as diferenças serão compreendidas e toleradas.

Bem no meio do mundo sem fronteiras existe um grande deserto onde habita o povo árabe. Esse povo conseguiu preencher o vazio do mundo com vida e existência. É nesse deserto que mito, fé e grandes seres humanos se misturaram em uma única força que gerou nossa humanidade. Com efeito, é muita presunção dizer que, em um mundo tão diverso, nossa força geradora vem exclusivamente do Oriente Médio. Ainda assim, a contribuição daqui é muito densa: de um único mito criacionista, três grandes religiões expandiram suas respectivas fés para todas as esquinas do mundo e, assim, influenciaram desde nossa noção de moral à nossa interpretação para o sentido da vida. Entendemos como a religião é vital para aliviar a dura realidade do deserto. Afinal, por que outro motivo o Paraíso seria descrito como um imenso jardim, de clima ameno, sem mortes e com abundância de recursos?

Desertos não delimitam fronteiras, por isso é tão difícil compreender essa região, assim como é difícil compreender o que significa ser árabe. As bordas predominantemente retilíneas dos países e a imensa paisagem desértica que parece nunca ter fim escondem particularidades e contradições. De perto, é possível ver como é muito difícil definir grupos humanos como restritos a determinado território ou a um mesmo grupo étnico. Árabes podem compartilhar um ancestral próximo e comum com algum dos profetas dos textos sagrados, ou podem ser considerados todos os que falam o idioma árabe. Existe ainda uma grande sobreposição entre o mundo árabe e o mundo islâmico, religião que prevaleceu entre esse povo. Como um grão de areia que se move entre um e outro lado da fronteira, a mobilidade também esculpe a paisagem da região.


Eu fui à Jordânia e, a despeito de uma experiência traumática no Egito e de algumas ideias preconcebidas, juntas a um ano morando na Europa, consegui entender melhor esse povo. Passei a enxergar os árabes como todos aqueles fortes seres humanos de muita fé e cultura enraizada, habitantes do grande deserto do mundo, que defendem sua cultura e religião como ninguém, ao passo que lutam para serem compreendidos pelos outros povos. Um povo que sofre constantes ameaças externas e que busca estabelecer seu lugar no mundo. Um povo que se move para se afastar de adversidades naturais e políticas, mas que pena em resolver seus longos e estáticos conflitos internos. O povo árabe, por fim, é um grande desafio ao nosso prazer pela diversidade. Até que ponto podemos relativizar tanto fundamentalismo religioso e conservadorismo de modo a aceitar uma cultura que nos é essencialmente diferente?

Se, de fato, fundamentalismo religioso e regimes totalitários existem no mundo árabe, a Jordânia foi um contraexemplo que  prontamente me impressionou. Como um dos países do Levante, limitado a oeste por Palestina e Israel e a norte pela Síria, regiões de longo histórico de conflitos, a Jordânia consegue se manter bastante pacífica. A capital Amã é uma cidade de população educada, ruas organizadas e renda média e alta. A liberdade religiosa existe, há um considerável número de cristãos. Muitas mulheres andam sem cobrir os cabelos, e as que cobrem todo o rosto são extremamente raras - provavelmente, estrangeiras de alguma das outras muitas nações árabes. Quando o sol forte baixa, as ruas são preenchidas por clima de animação e relaxamento, ficam cheias e podemos nos sentir seguros a qualquer momento. A população é solícita, gostam de saber sobre nós, é fácil obter informações em inglês. Os temerosos vendedores de lembrancinhas com incríveis habilidades de negócio nos abordam, mas sem assédio, respeitando nosso espaço e nossas decisões.

A população é extremamente religiosa. A religiosidade cria um vínculo forte entre o homem e a terra, faz aflorar um anseio por fartura e uma necessidade de humildade. Essa humildade é intrínseca a um povo habituado viver em regiões desérticas, em que o plantio e a criação de animais é tão difícil que muitas vezes obriga ao povo a necessidade do nomadismo. A fartura existe pelas mesmas razões, provém da inventividade necessária a todos que, de maneira determinística, vivem em lugares inóspitos. A paisagem cor de terra, com pouco verde, contrasta com luxuosíssimos e coloridos artigos de decoração, tecidos, tapetes e mosaicos. Os momentos de refeição são quando fartura e humildade se encontram. Minha passagem pela Jordânia foi em período de Ramadã, em que os muçulmanos jejuam voluntariamente como uma renovação da fé e vivência profunda de irmandade e dos valores da vida familiar. Eles valorizam muito o estar junto, e o fazem em grandes banquetes, com abundância de comida. Enquanto houver luz do dia, eles se privam de comer. Quando o sol se põe, as famílias já estão reunidas para celebrar os valores mais simples da vida, ao passo que a comida é reposta tantas vezes quanto necessário pela madrugada adentro.

É um imenso aprendizado. Mesmo os momentos de lazer e de celebração expõem diferenças entre nós e eles. Em uma sociedade que não consome álcool, são motivos muito mais íntimos e profundos que fazem as pessoas se reunirem em volta de uma mesa. Em comum, contudo, entre nós, eles e todos os demais seres humanos, está o amor pelo Sol, que nasce para todos e em todos os lugares do mundo, fazendo flores desabrocharem, nos protegendo da escuridão. Em comum está o fato de querermos chegar a lugares onde o Sol nasce mais belo para nós. Assim como os árabes dos quais descendo foram para o Brasil por motivos de perseguição religiosa, muitos árabes saem em busca de melhor educação e melhores condições de vida e trabalho. Muitos deles conheci na Europa, hora em universidades de ponta, hora marginalizados nas ruas. Muitos deixam os desertos do mundo árabe, mas continuam vivendo no deserto do preconceito e da intolerância nos lugares para onde emigram. São pessoas como nós, buscando simplesmente seu lugar ao Sol. Cabe a nós recebê-los, compreendê-los e aceitá-los. No fundo o que diferencia a cultura árabe-islâmica da cristã-ocidental é a interpretação que fazemos das escrituras sagradas. O que de grande valor a Jordânia me ensinou é que, sem abdicar de nossa fé, é possível interpretar tais escrituras de maneiras mais inclusivas e tolerantes, sem que precisemos seguir uma cartilha de conduta em todas as pequenas tarefas de nossas vidas, sem que nenhum direito seja reprimido por causa de qualquer tipo de discriminação. Isso já acontece pelo menos em partes do mundo árabe.

Peguei a estrada e logo comecei a ver uma cultura tão diferente com ainda mais proximidade. De fato se anda muito sem deixar os desertos. Populações de beduínos, que para mim eram personagens folclóricos de um passado tribal, são mais presentes do que a cabeça de um brasileiro que quase não vê manifestações culturais dos gentios de sua terra pode pensar. São seres incríveis, praticantes do nomadismo, conhecedores dos segredos e mistérios do deserto. Vivem em grandes grupos, em tendas, sobrevivem em lugares inimagináveis, criando cabras, camelos e usando a terra até esgotá-la. Então se mudam, encontram novos pedaços de terra, vêm vida onde ninguém mais vê.

Amã
Tendas de beduínos






Ver vida nessa região não é tarefa fácil. O rio Jordão fertiliza o solo, mas vai ficando cada vez mais salgado à medida que corre para a jusante, até desaguar no Mar Morto, que recebe esse nome justamente pela falta de vida. A água é tão salgada que impede a presença de vida marinha: apenas seres mais primitivos como algas e bactérias vivem ali. A elevadíssima salinidade torna a água densa a ponto que se pode flutuar sem esforço algum. No entanto, o sal em atrito com a pele impõe um limite de tempo no qual é agradável boiar nas águas. Na porção sul do mar, mineradoras exploram o potássio dos sais para serem amplamente utilizados como fertilizante. O rio Jordão também traça parte da fronteira entre Jordânia e Israel. Em função dos conflitos árabes-israelenses e pela proximidade da Palestina, a fronteira é fortemente militarizada. Na estrada vemos diversos postos de observação israelenses, nos quais, segundo o nosso guia, os militares têm autorização para atirar em quem tentar atravessar.

Quem nunca for ao Oriente Médio talvez também nunca desassocie a cultura árabe da cultura muçulmana. Antes da islamização do mundo árabe, essa região foi de cultura helênica, o que nos faz sentir de certa maneira mais próximos a uma cultura que a distância nos é tão diferente. A herança arquitetônica está presente em Amã, nos anfiteatros encravados no meio da cidade, em templos para Zeus e em magníficos sítios arqueológicos como Jerash. Alexandre, O Grande cooptou ao Império Romano o incrível povo Nabateu, ancestral dos árabes. Esse povo elegeu como sua capital a preciosa Petra, uma ponte entre civilizações da Antiguidade. Uma grande cidade desperta de dentro das rochas. Como em um conto de aventura, em que se deve percorrer um perigoso caminho, cheio de armadilhas, para alcançar um tesouro, a entrada de Petra é marcada por um longo e estreito caminho espremido entre dois paredões. Essa rota, que recebe o nome de Siq, é uma extensa falha geológica em forma de fenda, servindo como porta de entrada para o tesouro de Petra. Tesouro aqui não é uma alegoria, mas o nome do mais imponente edifício do complexo: de tanta beleza, fazia sentido para os antigos beduínos que existisse um riquíssimo tesouro escondido no topo do templo. 

Então, de um estreito sendeiro que perfura uma enorme rocha, surge o Tesouro, uma grande cidade perdida e depois o Monastério. O fascínio de lugares como estes está no susto, na surpresa que causam aos nossos sentidos. O momento de chegada é um golpe que tomamos sem estar preparados. É a beleza que não pode ser descrita, mas que anseia por ser vista. O pasmo chega com um pico de prazer. É como se Petra tivesse selecionado os melhores dentre todos os homens para estar ali, naquele momento, diante dela, para poder contemplá-la. Ser selecionado por ela, porém, exige que precisemos sofrer tal susto, o susto de se comprovar com os sentidos a beleza de um lugar fabuloso. Como é possível uma cidade forjada de dentro das pedras, à base de marretadas? São verdadeiras esculturas em escala ampliada. Poucos lugares no mundo causam esse tipo de assombro.

Siq

Tesouro

Monastério

O calor do deserto queima a pele e drena rapidamente toda a água do corpo. Em um longo dia de caminhada em Petra se pode ter melhor ideia do quão forte é a população que vive nessa região. Em tempo de Ramadã, o guia que nos acompanhou por algumas horas, assim como tantos outros que vivem do turismo na cidade, espantosamente recusava-se a beber água. Mais ao final da luz do dia, quando o jejum já acumula muitas horas, é como se uma epidemia subitamente pairasse sobre a população, que passa a ter olhar distante, rosto pálido, expressão confusa. Entrávamos em lojas e víamos vendedores dormindo em tapetes, minimizando seu consumo de energia. Outros realmente deliravam de tanta fome. Comprei uma lembrancinha com um que mal conseguia erguer a cabeça. Ainda, muitas crianças, poupadas do jejum, tocavam, com muita habilidade, as vendas da família.

As vestimentas árabes são uma adaptação a esse tipo de vida. A túnica que cobre todo o corpo protege a pele do Sol, é folgada para arejar o corpo durante o dia e longa para proteger do frio da noite. O turbante que cobre a cabeça protege o rosto das tempestades de areia, o couro cabeludo da insolação e, se usado junto com um cajado, pode servir como pequena cabana de descanso. O traje tipicamente beduíno foi ressignificado pela cultura muçulmana, que estabeleceu algumas regras sobre seu uso: um fiel não deve expor partes íntimas de seu corpo. O conceito de parte íntima, contudo, é amplo, sobretudo para as mulheres, que, segundo a religião, devem cobrir o corpo inteiro, exceto as mãos e o rosto.

Desse modo, a paisagem molda o homem ao instigar nele a necessidade de sobrevivência, enquanto o homem, ser do mundo, atribui significados à natureza e, portanto, à sua própria existência. Diante de tanto deserto, tanta aridez e de ambientes de sobrevivência tão difícil, passamos a entender porque os árabes são tão afeitos à religião e porque muitas vezes é tão difícil para eles compreender a diversidade do mundo. Assim como os muçulmanos embarcam em perigosas jornadas à Meca para renovar sua fé, viajar ao Oriente Médio é um momento de renovação de tudo o que compreendemos sobre o povo árabe e a fé muçulmana. Preconceitos são destruídos ao vermos o princípio vital do povo árabe, ao vê-los vivendo no lugar onde foram gerados. A fronteira cultural existe: é difícil para um ocidental compreender a cultura árabe, assim como é difícil para um árabe, de cultura tão arraigada, se abrir para o que lhe é diferente. Verdade é que conviver com as diferenças nos faz atingir níveis mais altos de sabedoria. Para tal, precisamos nos mover em todas as direções.