sábado, 4 de janeiro de 2020

América Central e o paradoxo de Galeano

"Entre as moscas sanguinárias
a Fruteira desembarca
despejando o café e os frutos
nos seus barcos que transportarão
como bandejas o tesouro
das nossas terras submersas."
                                                    
                                                 Pablo Neruda

De volta ao istmo central de minha terra, me voltam, também, as lembranças das palavras de Eduardo Galeano na definitiva obra As veias abertas da América Latina. Nesta terra, é importante não nascer importante: colônias ricas tiveram todas as suas riquezas drenadas para a acumulação capitalista europeia; colônias pobres, de terras pouco generosas, apresentaram maior paz e prosperidade. É muito difícil saber para onde o mundo caminha, mas a América nos forneceu diferentes caminhos para lidar com os desafios do mundo. Hoje, podemos observá-los e, sobretudo, imaginar um destino melhor para este povo e esta terra.

Quando li pela primeira vez As veias abertas da América Latina, estava trilhando os caminhos do Monte Roraima. Nessa ocasião, me chamou a atenção o modo como o desenvolvimento deixou alguns náufragos pelo caminho. As populações indígenas do Brasil e da Venezuela, geograficamente isoladas dos principais centros de seus respectivos países, separadas por fronteiras nacionais que nada tinham a ver com eles, buscavam compreender qual seu papel nesse novo mundo que lhes foi proposto após a colonização. Já na pequena e tenaz Cuba, retomei a leitura do livro para compreender melhor a Cuba pré-revolucionária, em que a monocultura do açúcar criava relações de dependência econômica e desigualdade social entre as oligarquias açucareiras e o grosso da população camponesa. 

Dessa vez, novamente viajando pela doce cintura da América, como cunhou Pablo Neruda, passei por Costa Rica e Panamá. Dois países muito próximos, mas com significantes diferenças entre si. O caminho que trouxe o passado até o presente foi uma linha reta, mas o futuro é repleto de bifurcações. A Costa Rica hoje anda rumo ao futuro por rotas largas e bem sinalizadas. O Panamá, por sua vez, após um longo histórico de ingerência norte-americana, está, finalmente, assentando as bases de seu próprio caminho.


Costa Rica


Em 1949, a Costa Rica optou seguir por um caminho ainda desconhecido no mundo, o caminho da paz: extinguiu completamente seu exército e adotou, em sua constituição, a neutralidade política. Enquanto seus vizinhos viveram - e ainda vivem - terríveis conflitos armados e instabilidade política, a Costa Rica encontrou um caminho para seu próprio desenvolvimento sustentável e independente. Diversificou sua economia, deixou de ser uma república de bananas e optou pelo ambientalismo, bem antes de isso ser pauta dentre os chefes de estado de todo o mundo. Hoje o país tem 30% de seu território protegido como reserva natural, quase a totalidade de sua energia gerada por fontes renováveis e, dentre todas as nações do mundo, é a que está mais próxima de se tornar neutra em carbono.

Em um continente tão contraditório quanto a América, essa relativa prosperidade costarriquenha tem, em sua gênese, a escassez de recursos naturais e humanos. Localizada nas periferias das mais impressionantes civilizações pré-colombianas - os maias, ao norte, e os incas, ao sul -, a Costa Rica, antes da conquista, era pouco habitada por povos indígenas. O nome Costa Rica, a propósito, é uma trágica ironia: foi dado por Cristóvão Colombo, que relatou ter visto, ali, vastas quantidades de ouro dentre os nativos, imaginando se tratar de uma região riquíssima. Tal riqueza não foi comprovada pela experiência colonizadora: os espanhóis não somente não encontraram nenhuma Eldorado na região, como padeceram, em massa, das doenças tropicais. Além disso, encontraram poucos nativos para escravizar e lhes apresentar a região, o que fez a Costa Rica ser considerada a mais pobre e miserável colônia espanhola em toda a América. 

Assim, longe da cobiça europeia, a Costa Rica se desenvolveu a seu próprio modo, com base na agricultura de subsistência e, posteriormente, na exportação de café. Aos poucos, os europeus foram povoando o país, os indígenas, que já eram poucos, foram desaparecendo, e desse modo nasceu uma sociedade igualitária, democrática, sem classe oprimida e essencialmente branca, em pleno cordão tropical do planeta. 




A Costa Rica é diferente, singular na América Latina. A primeira impressão do país engana, vem da feiura de sua capital San José. Sem um passado colonial marcante, também não há as grandes e imponentes catedrais, edificações ou mesmo as tão características e belas praças de armas, comuns em toda a América espanhola. Os engarrafamentos e quantidade de carros nos fazem pensar que se trata de mais uma grande e caótica capital latino-americana, a segunda mais recente no continente, atrás apenas de Brasília. No entanto, nas entrelinhas de um aglomerado urbano sem muitos encantos, está uma cidade segura, com enormes parques, um centro empresarial pulsante e com atividades econômicas diversificadas. 

Localizada na meseta intervulcânica do Vale Central, as montanhas que envolvem a capital, muitas das quais com vulcões ativos, servem como um convite para que nos desloquemos para o interior do país. A Costa Rica nos convence a explorá-la. O melhor a se fazer é entrar em um carro; sentir na ponta dos dedos a emoção de se perder pelas estradas do país, estreitas, sinuosas, íngremes e lentas. Somos levados por seus caminhos e presenteados com paisagens incríveis que, a despeito das pequenas dimensões do país, são altamente mutáveis e diversas. Sentimos a liberdade de se poder ir quando e como quiser, de se dobrar esta ou aquela esquina, de se usar o tempo como bem entendermos. 

No interior, vemos uma terra misteriosa, como se de repente descobríssemos uma terra distante, fértil, mas indisponível para a exploração estrangeira. Antes, trata-se de uma paisagem original, cuja intervenção humana se dá com muito respeito e adoração. Os ticos, como são conhecidos os costarriquenhos pelo uso de diminutivos com essa terminação, que têm em sua origem um hiato cultural entre os povos nativos e os europeus, transcenderam o apreço pelo meio ambiente ao nível de um elemento vital para sua identidade patriótica. Existe uma expressão que simboliza tudo isso, Pura Vida, uma versão tropical do Carpe Diem. É amplamente usada como uma saudação, para desejar boas energias, mas é, sobretudo, uma filosofia com muitos significados e que não carece de maiores explicações. É a simplicidade e a boa relação com a natureza que norteiam a cultura costarriquenha, e o conceito de Pura Vida está no cerne do que a nação quer deixar como sua contribuição para o conhecimento da humanidade.    

A natureza, por sua vez, faz questão de mostrar a força que emana de suas profundezas para se afirmar como motivo de veneração e respeito. O país é repleto de vulcões, e o mais impressionante deles, o Arenal, é um verdadeiro inquieto monstro geológico. O cone de pedra que brotou do interior do planeta esteve adormecido por 400 anos até que uma violenta explosão em 1968 destruiu três vilarejos próximos. Até 2010, o vulcão expelia, quase que diariamente, cinzas, gases e partículas sólidas. Desde então, ele dorme tranquilo novamente. As encostas  do cone possuem marcas do escoamento de lavas do passado. Os caminhos que nos levam até próximo à base do vulcão são acompanhados por rochas vulcânicas enegrecidas e recentes, que mostram toda a magnitude da força que o Arenal pode atingir.

Por todo o país se pode encontrar belíssimos parques nacionais e uma vasta vida selvagem. Nas estradas, é comum situações em que um congestionamento de carros se forma para que um bicho-preguiça ou uma família de quatis possa atravessar a pista com segurança. Ao chegar a uma ponte alta sobre um rio, comecei a reduzir a velocidade do carro, até que parei e estacionei. Turistas se aglomeravam nas beiradas da ponte, guardas de trânsito tentavam organizar o tráfego. Quando desci do carro e me juntei ao alvoroço, descobri que estavam todos observando o banho de sol de ao menos uma dúzia de enormes crocodilos.

Cenas assim são mais comuns do que se imagina nas estradas costarriquenhas. Em um país tão comprometido com a preservação do meio ambiente, a ideia não é abrir grandes rodovias, que possam, ocasionalmente, causar isolamento de populações da mesma espécie ou morte de vida selvagem por atropelamento. Pelo contrário, as estradas, se pavimentadas, são cheias de curva e de difícil direção, mas necessárias para se conhecer um país tão pequeno como naturalmente diverso.











Uma das formas possíveis de prosperidade econômica na porção americana ao sul do Rio Bravo era a combinação entre café e ferrovia. Na Costa Rica, os pequenos agricultores se beneficiaram do gosto europeu pelo café e passaram a lucrar muito com as exportações. A partir de 1870, o general Tomás Guardia, com apoio dos barões do café, iniciou a construção da Ferrovia Atlântica, prodigiosa obra que conectou o planalto ao novo porto caribenho de Limón. Até então, para escoar a produção, o café era transportado em carro de boi até o porto de Puntarenas, no Oceano Pacífico, de onde era levado até a Colômbia. Então, bordejando a América do Sul, o café ia até o Oceano Atlântico, onde se conectava às rotas comerciais marítimas europeias. O empreendimento foi realizado pelo empresário nova-iorquino Minor Cooper Keith. A construção da ferrovia, no entanto, mostrou-se extraordinariamente desafiadora devido ao terreno acidentado, selva espessa, chuvas torrenciais e ocorrência de malária, febre amarela, disenteria e outras doenças tropicais. Com dificuldades de cumprir a dívida da obra, o governo costa-riquenho cedeu ao empresário 800 mil acres de terra na planície do Caribe, além de conceder a operação da ferrovia por 99 anos. Nessa terra, Keith começou a plantar e exportar bananas, o que logo se tornou sua principal unidade de negócio. Assim nasceu a poderosa United Fruit Company.

Finalizei minha passagem pela Costa Rica na melancólica estação de trem de San José. Antes símbolo do progresso, do domínio do homem sobre a natureza, hoje o sistema ferroviário costa-riquenho é precário. Quando não há embarque ou desembarque de passageiros, a estação fica deserta e sem vida, envolta por um denso silêncio. Sobre esses trilhos, iniciou-se um dos capítulos mais duros da América Latina, em que a United Fruit Company inaugurou um segundo período de colonização, controlando portos, ferrovias, interferindo em governos e, sobretudo, drenando a riqueza latino-americana para os Estados Unidos. Com a comercialização de bananas, os Estados Unidos iam consolidando seu império transnacional e adquirindo cada vez mais poder sobre os países da América Central.

Panamá


Da Costa Rica cheguei ao Panamá, país que nasceu com a incumbência de unir dois oceanos, dois mundos distintos. Como canalizador de um fluxo global de pessoas e mercadorias, o Panamá é um importante centro logístico por onde já havia passado em duas outras ocasiões, mas nunca adentrado. Dessa vez, finalmente parei para uma estadia de cinco dias na capital. A Cidade do Panamá é uma metrópole cosmopolita e dinâmica, mas, tendo sido uma colônia importante no passado, convive, hoje, com muitos contrastes e uma brutal desigualdade social. Os arranha-céus são talvez os mais belos e modernos da América Latina; são vistosos e mostram ao mundo o papel de metrópole global que a cidade quer exercer. O centro histórico, o Casco Viejo, é digno das glórias do passado, quando  o país era ponto de parada de quase todo ouro e prata vindos do Peru. Ao lado do Casco Viejo, contudo, a região central da cidade é suja, degradada e informal. Nos muitos cortiços e sobrados, os moradores mais pobres conseguem ver, no horizonte, os belos prédios e a riqueza que vem do Canal do Panamá.






Inaugurado em 1914, o Canal do Panamá é um dos grandes feitos da humanidade. Incrível como, com alguns conceitos de Física básica, dois oceanos desnivelados foram conectados, criando um novo horizonte de possibilidades no continente americano. Um conjunto de esclusas e comportas permite que a água, por pressão hidrostática, passe do lado mais elevado para o mais baixo. Quando o nível da coluna d'água se iguala, os navios vão atravessando, em etapas, o continente, até desembocarem no outro oceano. Antes, o único jeito de se passar do Oceano Atlântico ao Pacífico era pelo extremo sul da América do Sul, na Terra do Fogo, via estreito de Magalhães ou cabo Horn, uma das regiões de mais difícil navegação do planeta.

Tal feito de engenharia beneficiou um país muito mais do que os outros: os Estados Unidos, que agora tinham um caminho rápido e fácil que ligava as costas leste e oeste de seu território. Era o que faltava ao longo plano expansionista estadunidense, que primeiro alcançou o Oceano Pacífico, depois a região polar, até expandir seus tentáculos em direção à América Central. O Destino Manifesto chegava ao seu auge com o canal do Panamá, construído e gerido por anos pelos Estados Unidos. Em meados de 1880, quando o Panamá fazia parte da Grã-Colômbia de Simón Bolívar, houve a primeira tentativa de construção do canal com capital majoritariamente francês. Os franceses, contudo, dada a dificuldade e a alta taxa de mortalidade no empreendimento, desistiram da obra. Os Estados Unidos, não obtendo sucesso nas negociações com a Colômbia para a continuidade do projeto, passaram a financiar movimentos separatistas no Panamá. Em 3 de outubro de 1903, o Panamá proclamou independência da Colômbia, e quinze dias depois, foi firmado um tratado que concedia aos Estados Unidos o uso, controle e ocupação perpétua da Zona do Canal, conferindo ao Panamá a condição, na prática, de protetorado americano.

Hoje o Panamá lida com um passado cujos caminhos não foram traçados pelos panamenhos; vive a sua primeira independência de fato. A sede administrativa do canal foi montada, pelos Estados Unidos, no topo de uma colina, à semelhança de um Monte Olimpo, morada dos deuses, com eloquentes referências renascentistas, em que a razão humana deveria reinar sobre o mundo. Logo ao lado, o "bairro americano" foi uma região onde os estadunidenses que trabalhavam no canal se autossegregavam dos latinos panamenhos em suas belas casas com jardins que pareciam retiradas dos subúrbios americanos. Em 1977, os dois países assinaram um tratado de transição da administração do canal, até que em 1999 o governo do Panamá assumiu o controle de vez.

Com grande parte da riqueza do canal agora permanecendo no Panamá, o país se reinventou em direção ao multiculturalismo, globalismo e diversidade. Diferentemente da Costa Rica, a cultura nativa panamenha é muito presente no país. A etnia Guna preenche as ruas da capital com o colorido das molas, arte têxtil que compõe sobretudo a vestimenta feminina. A maioria dos gunas vive em três comarcas politicamente autônomas dentro do Estado do Panamá, onde preservam suas tradições e desenvolvem atividades econômicas como o turismo. Até 2010, o povo era referido como "Kuna", mas uma reforma ortográfica alterou a grafia para "Guna". Em meio aos esforços para se estabelecer uma gramática guna, um idioma de fato, não um dialeto ou variante, definiu-se o uso de apenas 15 letras do alfabeto latino, ficando o "K" de fora. Essa mudança faz parte de um conjunto de medidas para se criar uma educação bilíngue no país.

O colorido da Cidade do Panamá não se dá somente pelas molas, mas também pelos diablos rojos, antigos ônibus escolares americanos adquiridos em segunda mão para realizar o transporte público coletivo da cidade. Contrabalanceando o concreto dos arranha-céus, os diabos vermelhos, todos customizados com uma arte cheia de cores, inevitavelmente se tornaram um símbolo do país. Não podia passar pelo Panamá sem ter a experiência de andar em um deles: após passar pela sede administrativa do canal, embarquei em um ônibus qualquer, indo para qualquer lugar. O preço é muito barato, alguns centavos de dólar, moeda praticada no país. Por dentro, é nítida a falta de manutenção e o estado precário dos bancos; é o transporte das camadas populares, ameaçado de extinção com o desenvolvimento econômico experienciado pela cidade. Dentro do ônibus, quase todos eram indígenas, de estatura mais baixa, o que se adequava aos banquinhos apertados que outrora levavam crianças para a escola. O ônibus começou a se afastar da cidade: atravessou a Ponte das Américas, que por muito tempo foi a única passagem terrestre entre as porções norte e sul do país, separadas pelo canal. Ali existe um mirante em homenagem aos 150 anos da cultura chinesa no Panamá. Seguiu mais um pouco e rapidamente a grande metrópole global de prédios enormes deu lugar a barracos e a moradias precárias. Estava em uma estrada e desci em uma parada perto de um grande posto, de onde seria fácil arranjar transporte de volta para o núcleo urbano. Aos poucos me foi revelado um país pobre, rural e indígena em seu interior, que dessa vez não tive a oportunidade de conhecer.

***

Quanto mais do mundo eu vivo, mais eu entendo o quanto o mundo é complexo. A América é lar da nação mais poderosa do mundo, mas também das mais pobres e desiguais. Tem país de negro, país de branco, país miscigenado, país indígena, país comunista, país sustentável, país com a maior obra de engenharia do século, vulcão, floresta tropical, dois oceanos. Longe de conhecermos o melhor caminho a seguir em um futuro que é inexoravelmente incerto, podemos ver, na América, diversas experiências civilizatórias que deram certo, ou não.

 







sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ventre Amazônico

"Agora que o terrível desconhecido libertara-o, ele se esqueceu de que o desconhecido possuía qualquer terror. Ele estava ciente apenas da curiosidade por todas as coisas à sua volta"
Jack London
Este texto foi inspirado nas ideias de dois mundos apresentadas por Hermann Hesse em Demian.

Deixar a escuridão e o vazio da preexistência para ter o primeiro encontro com a luz foi como me senti ao chegar ao Pará. Uma nova viagem é, afinal, como um novo nascimento, em que a partir do momento em que deixamos o útero de nossas mães, estamos em permanente contato com o estranho e o desconhecido. Em viagens, contudo, somos órfãos, filhos sem mãe. O mundo não se importa se teremos uma cama para dormir à noite ou um agasalho para nos proteger do frio. Não se importa se estamos tomando chuva ou sentindo demasiado calor. Nós, viajantes, também somos duros e resilientes. Rebeldes, enfrentamos o mundo não maternal e achamos isso divertido; rimos da cara do perigo. Somos tão desobedientes quanto o crescimento, a inexorável maré de vida que se ergue dentro de nós a cada passo e a cada respiração.

A viagem ao Pará começa em uma noite sem cama, nas pouco confortáveis cadeiras do saguão do aeroporto de Santarém. Do mesmo modo começamos nossa jornada no mundo: com um choque, desnudos e desprotegidos, sentindo a luz, mas sem conseguir abrir os olhos. Somos colocados no colo de nossa mãe e logo descobrimos a existência de dois mundos: o mundo perfeitamente conhecido, o de nossos pais e de nossa casa; e o mundo desconhecido, o imenso lado de fora, hostil e impetuoso. Em uma viagem, assim como no processo de crescimento, precisamos transitar por esses dois mundos, removendo atributos do desconhecido e adicionando-os ao conhecido. O crescimento acontece quando expandimos o nosso mundo familiar, quando deixamos que a curiosidade pelo mundo de fora supere o temor que sentimos dele.

A madrugada no aeroporto de Santarém passou devagar. O fuso horário do Pará, uma hora atrasado em relação a Brasília, aumentou ainda mais o tempo de espera. De Santarém, precisávamos chegar ao distrito de Alter do Chão, 37 km distante. Esperava o dia clarear, quando a família que nos receberia já estaria iniciando as suas atividades do dia. Enquanto a madrugada lentamente se transformava em dia, voos chegavam e partiam com frequência, até que as companhias aéreas encerraram suas atividades por volta das 4h da manhã. O aeroporto ficava vazio, os taxistas, sem nenhum passageiro para transportar, se retiravam.

Havia um rapaz sozinho, imerso em seu próprio mundo, muito diferente do meu, com o rosto envolvido por um enorme fone de ouvido. Precisamente às 5h da manhã, um taxista com o qual ele já havia pré-combinado sua viagem veio a seu encontro. Vi uma oportunidade de baratear os custos da ida a Alter do Chão - provavelmente o rapaz era mais um turista indo para lá, com quem eu poderia dividir o preço do táxi. Abordei o rapaz e descobri que na verdade ele estava indo para Monte Alegre, na margem oposta do Rio Amazonas. Ele era meu conterrâneo, carioca de Madureira, que iria reencontrar sua mãe após longos nove anos sem vê-la. Era uma visita surpresa, e o rapaz, desnorteado em seus movimentos secretos, encontrava diversos problemas para se orientar no Pará. Nosso encontro foi então apreciado por todas partes: minha viagem ficou mais barata, o rapaz encontrou um companheiro para sua solitária viagem, e o taxista, que primeiro deixou o rapaz no porto de Santarém e depois nos conduziu, finalmente, a Alter do Chão, faturou alguns reais a mais do que esperava inicialmente.

Na chegada a Alter do Chão, um novo espasmo de susto percorreu meu corpo. O dia ainda não havia completamente rompido a noite, e, no endereço indicado pelos nossos anfitriões, não havia casa alguma. Em um lugar onde as ruas não necessariamente são retilíneas, asfaltadas ou sinalizadas, ficamos ao relento, no meio da rua. O taxista deixou seu número de telefone e partiu. Fui a pé procurar com mais profundidade a casa, as mochilas nas costas. Fora da rua principal, os caminhos que surgiam ofereciam pouco acolhimento: a vegetação se fechava e, sob o espectro da alvorada, formavam-se vias nebulosas e obscuras. Nesse caminho desolado, havia, contudo, um grande hotel, onde fomos buscar algum abrigo e hospitalidade.

Longe de casa, o mundo pode apresentar, também, refúgios maternos; um momento de castigo sempre pode ser equilibrado por outro de afago. Paulo, o recepcionista do hotel, foi ligeiro em nos receber. Aparentemente, a surpresa da chegada de dois inesperados viajantes em sua monótona noite na recepção deu a ele uma dose de ânimo. Tentou achar a nossa casa, buscou informações em seu celular, respondeu todas as nossas perguntas sobre a cidade. Ofereceu as dependências do hotel para nosso descanso. Vimos o dia surgir tímido no Lago Verde e, então, tomamos um belo café da manhã depois de uma longa viagem e uma madrugada inteira ora sentados no aeroporto, ora perdidos tentando encontrar nosso destino. Com a ajuda de Paulo, descobrimos o endereço correto: das duas pontas que marcam o início ou o fim de uma rua, fomos para a ponta errada. O dia já estava completamente claro e Paulo tratava de arrumar um transporte para o nosso endereço certo, quando meu celular tocou. Era João Tiago, dono da casa onde iríamos morar pelos próximos cinco dias. Ele queria se certificar de que havíamos chegado bem a Alter, e logo se ofereceu para nos buscar, de carro, no hotel. Do Lago Verde, atravessamos a cidade em sentido transversal e fomos transportados até a margem do Rio Tapajós.

Fomos recebidos por uma linda família. Sami era a esposa de Tiago. Da mistura dos dois, nasceu Mie, dona de um dos rostinhos mais brasileiros que pode existir. Tiago tem ancestralidade indígena, e Sami, por sua vez, descende de japoneses pelo lado da mãe e de gaúchos brancos pelo lado do pai. A dúvida se os olhos puxados de Mie vêm da herança ameríndia ou asiática torna a composição de seu rosto encantadora. Enquanto nosso quarto era arrumado para nos receber, nos foram oferecidas redes para descansar. Mais tarde, quando acordamos após a noite passada em claro, os pais de Sami, que também se encontravam na casa, nos ofereceram almoço. O prato era tambaqui, peixe amazônico, que, junto com o pirarucu, faria parte de nossa dieta básica durante toda a passagem pelo Pará. A essa altura, os mundos conhecido e desconhecido eram indistinguíveis: encontramos em Alter do Chão, por um breve momento, a extensão da casa de nossos pais.

Dentro do mapa, Santarém é um município localizado no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, de naturezas perpetuamente destinadas a se chocarem. Por diferenças de temperatura e densidade, os rios não se misturam nem se separam, formando um casamento eterno entre as águas azul-esverdeadas do Tapajós e barrentas do Amazonas. Esse fenômeno, particular da relação entre o Rio Amazonas e seus afluentes, é um dos fatores que compõem a misticidade dessa bacia hidrográfica, a mais monstruosa e superlativa do mundo. Na região, de uma margem do rio, mal se pode ver a outra: é tanta água que insistimos em chamar rio de mar. Alter do Chão é um distrito administrativo de Santarém, repleto de praias banhadas pelo Tapajós. Ao norte de Alter está a Ilha do Amor, uma península que surge e desaparece a cada ciclo de cheia e vazante.

Alter do Chão

Encontro das águas
Não somente a água que vem das montanhas e corre até o mar impressiona por sua abundância - o mesmo se pode dizer da água que vem do céu. Existem rios no ar, feitos da mesma matéria e à imagem e semelhança dos rios da terra. A Amazônia é como a mãe de todas as criaturas, a deusa geradora de vida no planeta. A maior floresta tropical do mundo é fonte inesgotável de umidade, reguladora do ciclo de chuvas de toda a América do Sul e estabilizadora do clima global; uma deusa de fato, a floresta de todas as florestas. Se eu não tivesse sentido tanta água escorrendo pelo meu corpo ao longo de um dia inteiro de passeio pela floresta, seria capaz de duvidar de seus poderes. De Alter do Chão, pegamos um barco em direção à Floresta Nacional do Tapajós (FLONA). Logo após alguns minutos de viagem, uma verdadeira tempestade tropical envolveu toda a floresta. As águas do céu e da terra estabeleceram contato por uma grossa linha de chuva. O rio, de águas calmas, se agitou. O intenso calor, típico da barriga equatorial do planeta, se arrefeceu a ponto de nos causar hipotermia. O barquinho em que estávamos não oferecia abrigo contra a chuva, e ficamos todos completamente encharcados. Viver esse momento deve ser algum tipo de provação para aqueles que querem ser incluídos na magia da Amazônia.

Na FLONA tivemos o primeiro contato com os povos da floresta. Paramos o barco e caminhamos por cinco minutos até a vila de Jamaraquá. Durante o período de cheia, pode-se chegar até a vila de barco, e as árvores que apareceram nesse caminho ficam parcial ou totalmente submersas. Isso pode ser visto ao observar os caules escurecidos até alturas que indicam o nível das águas nas cheias. Na vila fomos recebidos por comunidades típicas e indígenas para um passeio guiado pela floresta. A floresta oferece muitos produtos, e muitas são as possibilidades de uso sustentável pelos locais, das quais se destacam a extração de látex e óleos. Nosso guia nos conduziu por diferentes paisagens amazônicas até um igarapé de águas cristalinas. Lá experimentamos uma série de frutos amazônicos coletados ao longo da trilha, enquanto conversávamos com os moradores locais. Um deles, já um senhor, mostrava-se preocupado com a preservação da Amazônia, em um cenário político em que se pretendia combinar, em um único ministério, as pastas do meio ambiente e da agricultura. Para ele, isso era uma clara ameaça ao seu meio de vida. Os povos da floresta não a destroem, pelo contrário, sabem que sua preservação pode trazer uma série de riquezas. Sabem, sobretudo, que a natureza não pode se defender da devastação, mas pode se vingar como ninguém. O fim da caminhada foi recompensado por uma série de Sumaúmas, incríveis árvores amazônicas cujo caule, de tão grande, só pode ser abraçado por cerca de trinta adultos. A Amazônia é terra de gigantes.

Afastada da floresta, no núcleo urbano de Santarém, uma senhora ganhou o mundo fazendo arte com matérias-primas amazônicas. Dona Dica Frazão é uma daquelas raras pessoas que são pioneiras em algo, que criam do zero, que se tornam lendárias. Ela vivia em Santarém, e fazia, de sua própria casa, um museu, onde recebia, pessoalmente, visitantes do mundo todo. Ela faleceu em julho de 2017, com 97 anos. Seu legado é mantido por sua filha, que cuida, hoje, da casa-museu, e também por conversas registradas em livros e relatos de muitos outros viajantes que estiveram ali. Descrita brevemente, Dona Dica Frazão seria uma estilista, mas que não usa tecidos ou panos. Suas peças são feitas com fibras da natureza. Em uma cesta, estão concentradas todas as fibras usadas como matéria-prima: palha do buriti, raiz de patchouli, fibra de malva e a mística entrecasca. Segundo Dica, a entrecasca é extraída há mais de 50 anos por índios munducurus, que mantêm o nome da árvore em segredo. Ela já produziu para a Rainha Fabíola da Bélgica, Papa João Paulo II e Juscelino Kubitscheck. Certamente é uma das maiores brasileiras que já viveu. Sua filha, que nos apresentou a casa de Dica Frazão, aprendeu a fazer peças como a mãe e pretende criar oficinas de empoderamento feminino por meio do domínio da técnica.






Em Santarém, subi as escadas de um prédio antigo e cheguei ao escritório da empresa de transporte que realiza a viagem de barco até Belém, por onde eu seguiria viagem explorando os segredos do Pará. O barco, chamado pela população local de lancha, sai toda quarta-feira de Manaus, passa por Santarém às sextas, e chega domingo a Belém. Nessa região de muita água e floresta densa, a maioria das viagens - muita das quais contadas em dias - se faz por vias fluviais. O trajeto de Manaus a Belém percorre um bom pedaço do Rio Amazonas, e Santarém fica exatamente na metade do caminho entre as duas capitais. Enquanto eu aguardava Sérgio, o vendedor de passagens com quem já havia falado ao telefone,  observava, na sala de espera, fotos de um navio que até então vivia apenas em meu imaginário, como parte do folclore amazônico. A propósito, nos dias que antecederam minha ida ao Pará, tentei por diversos meios encontrar informações sobre empresas que operam esse trajeto. Não foi fácil. Quando perguntei a Sérgio se corria risco de as passagens se esgotarem, ele me respondeu: "não se preocupe. Se lotar, é na lotação máxima, não vai viajar em excesso, vão todos em segurança" 

A chegada ao barco foi caótica. A lancha possuía, enfim, um nome de batismo: "Navio Roraima". De grandes dimensões, ele comportava uma tripulação de dois mil passageiros. Se ele havia atingido ou superado a lotação máxima, era difícil precisar. Entre Manaus e Belém, o navio aporta em diversas cidades, onde pessoas entram e saem, cada uma com sua própria origem e destino, convivendo por alguns dias sob o mesmo espaço. Espaços esses que muitas vezes se sobrepõem, que não possuem limites claros. O navio dispõe de alguns camarotes e também de suítes, com banheiros particulares. No entanto, a grande maioria dos viajantes se aglomera nos redários, dois andares de áreas vazias, preenchidas por tantas redes quanto possíveis. Com o balançado, redes se chocam, e, entre elas, formam-se labirintos. No porto de Santarém, havia uma grande movimentação nos porões do navio. Como ponto estratégico, na metade do percurso, havia troca de turno dos funcionários do navio, chegada de novos alimentos e descarte do lixo gerado. Muitos passageiros, com diferentes condições físicas, subiam as estreitas escadas do navio com quantidades variáveis de bagagem. Chegamos ao redário e, com uma certa dificuldade, conseguimos finalmente armar nossas redes e acomodar nossos pertences.

Antes da partida, pelos alto-falantes do navio, foi realizado uma espécie de culto evangélico. Atravessamos o encontro das águas e partimos, então, de Santarém rumo a Belém, seguindo o Amazonas à jusante. Logo fui enjaulado pelo medo. Deitei na rede, e, com o movimento do navio, ela balançava para frente e para trás, como um pêndulo errático e compulsivo. Senti-me imediatamente nauseado, arrependido de estar ali. Seria muito para mim aguentar dois dias inteiros naquelas condições. Para me desembaraçar das oscilações da rede, busquei outros ambientes do navio. Visitei os banheiros, a cantina e o restaurante, e não encontrei em nenhum lugar a sensação de conforto. Fui à área externa, onde poderia tomar um ar e esperava encontrar maior sensação de estabilidade. Era um espaço onde pessoas se encontravam, onde a luz do sol chegava, o vento batia, mas que não havia silêncio. Enormes caixas de som tocavam, ininterruptamente das 8h da manhã à meia-noite, música sertaneja em alto volume. 

Para viver nesse barco, precisava observar a realidade em meu entorno. Foi quando vivi um novo nascimento diante da aventura que se apresentava a mim. Como uma ave, que tem de quebrar um ovo para vir à luz, precisei destruir um mundo para entrar em outro. Esse outro mundo me era completamente diferente, e podia comportar muitos outros mundos. Quantos mundos diferentes podem caber dentro do universo de um navio? A verdadeira pergunta a ser feita é: quantos brasis podem existir dentro de um Brasil? Pelos próximos dois dias eu estaria renovando em mim o mundo, ao seguir um impulso de minha natureza em direção ao incerto. Eis o momento em que, libertado do medo, pude fazer, do terror, matéria-prima para curiosidade.





Passei a prestar atenção nas pessoas. Poucos eram como eu, viajantes motivados pela curiosidade. Viagens de dias pelos rios amazônicos podem se resumir a poucas horas - ou mesmo a minutos - de voo. O valor das passagens aéreas é acessível, ao passo que o preço do barco não é tão barato quanto pode parecer. Dificilmente quem estava ali queria estar ali; realmente precisavam e não tinham muita escolha. Havia mãe com vários filhos, com crianças de colo, gestantes e idosos com dificuldades de locomoção, todos sem condições adequadas de higiene. Muitos carregavam muita bagagem e comida. O barco dispunha de um restaurante que servia almoço e janta por 15 reais cada. A despeito de haver aproximadamente duas mil pessoas no barco, o pequenino restaurante nunca estava cheio: poucos tinham condições de pagar 30 reais em refeições em um único dia. Era comum levarem caixas térmicas com comida para todos os dias de viagem, com receitas baseadas sobretudo em farinha de mandioca.

Havia ainda um time de futebol inteiro de garotos que iam disputar uma partida em Belém. Havia quem catasse latinhas de refrigerante das lixeiras para ganhar algum dinheiro com a reciclagem. Havia um pregador com a Bíblia embaixo do braço. Uma mãe conversava em português com adultos e em tupi com seu filhinho. Havia quem estivesse ali por preferir apreciar a paisagem da floresta a olhar a mesmice das nuvens em uma viagem de avião. Outros queriam viajar com tanta bagagem que a passagem aérea se tornaria demasiadamente cara. Existe um Brasil em que muitos estão a dois dias de viagem da capital mais próxima. Conversei com um senhor que havia viajado 30h em um ônibus desde o Mato Grosso até Santarém, para então encarar mais dois dias de barco até Belém. Havia estrangeiros, um rapaz japonês, vizinho de rede, que não largava seus equipamentos eletrônicos. Europeus completamente deslocados de sua realidade. Latino-americanos descobrindo, no Brasil, os seios da América.

Depois que o navio assume velocidade constante, o princípio da inércia age e o chacoalho no redário cessa. A noite cai sublime, e o refúgio materno tornou a se materializar em mim sob a forma de um céu estrelado. O sol se pôs à popa do navio, se escondendo no horizonte que marcava o início da jornada. Nós navegávamos para leste, em direção ao nascer do sol, usando os astros como guias. Assim como nas escrituras, as estrelas indicavam o caminho, não para Belém da Judéia, mas para Belém do Pará. Ao zênite de um céu amarelado pelo pôr-do-sol, surgia tímida a lua, que logo estaria em seu mais intenso júbilo. Já tendo conhecido a realidade e o jeito de se viver no barco, a adaptação veio com o tempo, e, a essa altura, já podia desfrutar de estar ali, vivendo a mitologia de um cruzeiro  pelo Rio Amazonas.










Durante o primeiro dia no barco, navegamos a maior parte do tempo afastados das margens do rio, o que tornou a paisagem um tanto monótona. Com a chegada da escuridão, contudo, esparsos pontos de luz podiam ser vistos na floresta. Eram seus olhos, que estavam ali o tempo todo, observando nossa passagem de longe. Quando o novo dia chegou, fui acordado com uma movimentação inédita até então. Os passageiros estavam reunindo alguns itens em sacolas de plástico e lançando-as ao rio. Quando fui à janela, fiquei espantado ao ver a quantidade de ribeirinhos que remavam suas canoas até próximo de nosso navio esperando coletar, nas sacolas, roupas ou comida. Navegávamos agora por canais menores, pequenos braços do Rio Amazonas, de onde podíamos ver de perto todas as formas de vida humana que existiam na beirada do rio. Vinham crianças, vinham famílias. Homens anfíbios, adaptados a viver nas margens do rio, são brasileiros que conhecem um Brasil muito diferente do meu. Vivi por um instante a sensação de estar no Brasil original. As canoas podiam ser tanto a remo quanto motorizadas, e alguns ribeirinhos chegavam a atrelar suas pequenas embarcações na nossa para entrar e vender açaí, camarões e outros produtos da floresta.

Os ribeirinhos em suas canoas nos acompanharam por boa parte do percurso até Belém. Nas margens dos rios podíamos ver suas casas, erguidas sobre palafitas e feitas de madeira. Havia casinhas isoladas, mas também pequenas comunidades reunidas. Existe, de fato, um modo de se viver ali. Igrejas evangélicas se proliferam na região, e barco-escolas levam educação aos cantos mais remotos desse país. A última cidade em que o navio parou antes da capital foi Breves, diante de um novo e lindo pôr-do-sol. Perguntava a mim mesmo se foi penoso o caminho até ali. Difícil, apenas? Não teria sido belo também? O navio ficou uma hora parado no porto de Breves, e os botos vieram expor sua exuberância. Em uma das cenas mais lindas que vi em toda a minha vida, eles saltavam bem alto, rodopiando no ar, fazendo um balé nas águas. Maravilhado com o baile, eu podia apenas confirmar com os olhos que, de fato, os botos, criaturas do folclore amazônico, possuem o dorso encantadora e surpreendentemente cor-de-rosa. 

Amanhecemos no dia seguinte já nas cercanias de Belém. Depois de tanta selva, banhada por um rio imenso, tínhamos à vista um amplo aglomerado de arranha-céus. A tripulação se aglomerava na frente do navio para poder ver a cidade de longe. Havia, principalmente uma agitação entre as crianças. Muitas delas estavam vendo prédios pela primeira vez na vida: aquilo é um prédio, mamãe? Nos próximos dias, em Belém, o Pará guardava ainda algumas surpresas: uma metrópole dinâmica, culturalmente agitada, no meio da selva; uma ilha fluvial enorme, no meio do Rio Amazonas, com uma população incrível de búfalos; um mercado símbolo do Brasil, com sua miríade de aromas, que vende os maiores peixes de rio do mundo; uma senhora mística que vende produtos que solucionam, desde um amor mal resolvido, a problemas financeiros.

No Pará, abri em mim uma janela por onde diversos mundos penetraram radiantes. Descobri que para amar o mundo todo, preciso amar todos os lados dele, sejam o conhecido e o desconhecido, o luminoso e o obscuro, o de dentro e o de fora. No final, senti que tudo o que eu vivi nessa viagem havia retornado a mim sob a forma de resposta e concretização.







quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Meu encontro com um campo de refugiados

A poucos quilômetros ao norte de Amã, o mundo chora o drama dos mais sofridos exemplares de seus habitantes. Ali fica o maior campo de refugiados do mundo, onde 150 mil sírios esperam o fim de uma guerra civil que já dura sete anos. O fim da guerra, contudo, é uma esperança vazia. O campo, concebido como uma estrutura temporária, evolui para uma grande, permanente e desordenada cidade, a quarta maior da Jordânia. As casas não possuem paredes de concreto, não há tubulação de água, o fornecimento de energia é apenas pontual, não há ruas ou vias pavimentadas. Os refugiados tiveram seus lares despedaçados e, se antes da guerra já tinham pouco, agora não possuem mais nada.

Saem em busca da libertação, mas encontram uma vida de cárcere. O campo é completamente cercado, sempre com altas grades e arame farpado no topo. Por motivos que não se compreende bem (o governo jordaniano afirma que por "segurança"), os refugiados são impedidos de deixar o local até que alguém decida algum destino para eles. Embora alguns burlem as regras, ninguém consegue ter uma renda própria ou determinar o próprio rumo de suas vidas; dependem totalmente de ajuda humanitária. O que acontece com os sírios é uma verdadeira diáspora dos nossos tempos, e muitos países, como a própria Jordânia, penam em receber ou ocupar todos esses miseráveis indivíduos, que vivem no completo marasmo, sonhando com dias melhores. 

O que se vê ao percorrer o perímetro do campo é a mais triste imagem da vida humana. Caminhões-pipa enchem reservatórios d'água, e, sem uma rede de encanamento, os refugiados devem buscar sua água no intenso calor do deserto. Por não haver ruas, automóveis não transitam dentro do campo, e muitos precisam caminhar longas distâncias para ter acesso a um bem tão essencial quanto a água. Alguns mais sortudos dispõem de bicicletas para locomoção, como um jovem garoto que tenta vender na beira da estrada colchões que recebe de doações. Esta, a propósito, é uma prática bastante comum: refugiados buscam converter as esmolas que recebem em mercadorias. Os campos verdes ficam mais largos conforme se deixa a Jordânia em direção à Síria, e, quem consegue, a despeito das proibições, deixa o vilarejo para trabalhar em fazendas da região. Os refugiados vivem em tendas de estrutura metálica, que podem ser erguidas com muita facilidade. Isso permite que o complexo aumente rapidamente de tamanho, sem que, no entanto, a infraestrutura melhore no mesmo ritmo. Famílias, quando não separadas pela guerra, dividem banheiros e cozinha. Apesar da grande atuação das Nações Unidas e de diversas ONGs, mal existe o mínimo para se viver. Para onde se olha, há dor, caos e desespero.

Muitas são as emoções que movem o nosso coração quando estamos diante da insuficiência. Suficiente é a qualidade do mínimo necessário para a vida humana, um limite acima do qual podemos nos concentrar em qualquer outra coisa além da nossa própria sobrevivência. Quando vemos situações de insuficiência, sentimos caridade pelo sofrimento alheio, ao passo que passamos a temer o desamparo e a desolação. Não é fácil ser observador da insuficiência: lidamos com sensações que podem ser nobres ou caprichosas, enquanto nos resta tentar nos colocar no lugar dos que levam uma vida escassa. A guerra rouba a humanidade das pessoas, as reduz a organismos buscando se adaptar - viver, afinal, é se adaptar. Onde existe fome, miséria e escassez, existe uma guerra que pode explicar todas essas mazelas. O homem passa a seguir regras sobrenaturais, alheias inclusive às Leis da Selva, em que, salvo em raras exceções, indivíduos da mesma espécie não matam seus iguais. Não há pena ou dor em matar, a bondade é condenada: que poder teriam os homens para concederem a si próprios uma qualidade tão divina quanto a bondade?

Essa tenebrosa guerra um dia deve acabar. Mas o que acontecerá com todos esses refugiados quando esse sonhado dia chegar? Como recomeçar a vida quando sua nação está devastada e suas raízes já não existem mais? Como deixar um lugar sabendo que, se algo der errado, não poderá voltar? Como encontrar uma direção quando não se tem lar, renda, estudo ou, mesmo, família? O que a nossa experiência na Terra diz é que todos se tornarão náufragos à deriva em um oceano incapaz de lhes fornecer uma vida digna e suficiente. O campo de refugiados provavelmente se transformará em um gueto, de onde a pobreza será transmitida de geração em geração, como já acontece com descendentes de refugiados palestinos na Jordânia.

A guerra pode parecer distante, mas é causada e fomentada por seres humanos como nós, educados para a ganância e ensinados a ter amor pelo poder. O mundo é regido pelo princípio orwelliano de que guerra é paz, isto é, de que somente a guerra pode trazer a paz, em um paradoxo que torna os dois conceitos indistinguíveis. Enquanto a guerra civil síria continuar com tanta indefinição, com tantas forças buscando ocupar o vazio de poder deixado pelo conflito, a miséria irá seguir se perpetuando em segundo plano até que, um dia, toda essa corrosão da vida humana será irreversível.