quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A Índia, o Fim e o Meio

"A Índia é o único lugar do mundo onde um homem pode fazer o que desejar sem ninguém perguntar por quê"
Rudyard Kipling
Há experiências que mudam sua vida de modo irreversível. Respirar ares indianos e beber o máximo possível de sua cultura é certamente uma delas. Desde os princípios da estadia no país já sofremos uma forte pancada, cujas dores demoram para se cessar. Ficamos, assim, desnorteados, sem saber o que dizer, procurando resgatar a estabilidade para poder reorganizar as ideias. Testemunhamos o inimaginável, não compreendemos nossas semelhantes formas humanas, regidas por princípios totalmente diferentes dos nossos. Queremos fazer parte daquela bagunça, daquela mistura, mas sentimos medo. 

Buscamos os livros, as enciclopédias eletrônicas, tentamos aprender pelas escrituras. Difícil. Para compreender a Índia é essencial que tomemos coragem, saiamos pelas ruas, conversemos com a população, troquemos valores, vivamos como indianos. Devemos comer da sua comida, gostar da ardência do tempero picante, descalçar os pés para entrar em seus templos, ouvir mantras, fazer ioga, arranhar um som na cítara, pegar ônibus públicos, tuk-tuks, trens, dizer Namastê, bradar um Om, juntar as palmas das mãos e reclinar o corpo, falar hindi, oferecer pétalas de flores ao Ganges, ter cuidado com as vacas nas ruas, ir ao cinema ver um filme de Bollywood. 

A Índia está em grande movimento, e comecei a entender o país prestando atenção em suas relações de trânsito, mais familiar para mim. Ali tudo é da lei e cada um parece fazer o que quer. Vê-se de tudo e dos mais variados meios de transporte. As vias são compartilhadas por veículos animados, de propulsão humana e motora, em proporções semelhantes. O barulho é intenso, a buzina parece um elemento cultural e é usada sem moderação; não se ultrapassa sem buzinar. O uso que sobra à buzina falta aos retrovisores. Carros fecham seus espelhos e se espremem em qualquer pedaço de rua. Em duas faixas de rolamento cabem três carros, e em uma cabem dois. As convenções do trânsito não são claras ao olhar estrangeiro, mas existem. Percebe-se um tipo diferente de educação, de modo que, em uma rápida troca de olhares e em poucas palavras, cada um sabe a sua vez de parar ou prosseguir. A pouca quantidade de acidentes diante daquela confusão impressiona, apesar de surgirem vidros quebrados e carros amassados a granel. Segue-se a mão inglesa, mas não muito rigorosamente. Veículos andam na contra-mão, fazem retornos e manobras improváveis, sobem calçadas. Semáforos existem, mas são raros. Para atravessar a rua, devemos ser cooptados pela agitação e entrar no jogo de olhares. Em plena rodovia de alta velocidade, caminhões, vez ou outra, trafegam em direção contrária. É uma aventura. O movimento precisa ser registrado - eu ainda descobriria que o trânsito diz muito sobre a cultura indiana.        







A Índia é também um lugar de contrastes. Do moderníssimo aeroporto de Nova Delhi para a desordem do trânsito; do caos e do barulho das ruas densamente povoadas, para a paz e silêncio dos templos. Para a fala mansa da população, para o carinho com as crianças e com os mais velhos, para a silenciosa e compenetrada busca pela prosperidade via meditação, para as formas perfeitas da arquitetura. Frequentamos aeroportos que não anunciam voos por alto-falantes a fim de preservar o silêncio. Passamos pela tolerância religiosa e pela religiosidade extremamente presente na vida dos indianos. Multidões muçulmanas, hindus, budistas, jainistas e cristãs convivem sob o mesmo espaço. Exaltamos a mistura. As ruas, com o tempo, tornam-se mais convidativas. A religião nos faz sentir mais seguros. Acredita-se que o visitante deve ser sempre bem recebido. Ainda assim, estamos sempre sujeitos aos olhares vidrados igualmente curiosos dos indianos.

Contrastes são, do mesmo modo, evidentes quando comparamos a riqueza do passado e do presente com a sujeira e miséria das ruas. Conseguimos compreender o porquê de a Índia ter sido, ao longo dos séculos, objeto de desejo do imperialismo europeu e, ainda hoje, viver sob o imaginário de todo o Ocidente. A arte e o conhecimento estavam concentrados nesse extenso pedaço de terra, um legítimo subcontinente, limitado ao norte pelos Himalaias, a leste pela Baía de Bengala e a oeste pelo Oceano Índico. Fortes e palácios são grandiosos e ostensivos. A tapeçaria, a pintura, as artes em geral, as cores, os jardins, a harmonia das construções, as onipresentes imagens de deuses, a culinária e as especiarias compõem as maravilhas do país. Hoje a economia é gigante, e a Índia desponta como um dos pilares do desenvolvimento tecnológico no mundo. Por outro lado, a desigualdade social atemoriza até nós brasileiros, infelizmente habituados a esta condição degradante da natureza humana. Nas vias de Nova Delhi, plena capital, vemos uma imensidão de habitações extremamente pobres, e temos dificuldade em encontrar uma região que se configure como um polo desenvolvido como no padrão ocidental. Precisaríamos ir bem a fundo no Brasil para encontrar condições parecidas de pobreza extrema em larga escala. A impressionante população, de aproximadamente 1,2 bilhão, não tem muita noção de higiene e nos deparamos com todo o tipo de poluição. Há muito lixo nas ruas, bem como nos transportes públicos. Surpreendentemente, o cheiro não é tão ruim diante de toda a sujeira. Sobre rios de lixo, trafegam pessoas, porcos, cachorros, vacas e macacos. Na maioria das vezes, estão atrás de comida.  











Após algum tempo, descobrimos que todas as voltas que demos, todas as tonturas que sentimos, são, na verdade, o caminho de um espiral, que nos leva cada vez mais alto. De repente, mudamos nosso olhar sobre a vida e não sentimos mais vertigem. Envolvemos-nos com os indianos, somos convidados a entrar em suas casas, a tomar chá, somos contagiados pelos sorrisos das crianças e começamos a sorrir como elas. Dos casebres, elas surgem, aos montes, nos estendendo a mão para que a apertemos. Depois, acenam para se despedir. Também querem aprender com nossa cultura, com nossos gestos. A grande maioria dos indianos depende dos estrangeiros para compreender o planeta em que vivemos. Um taxista ficou absolutamente incrédulo ao saber que, em janeiro, é verão e faz calor na outra metade do mundo, no hemisfério sul - afirmava, com muita propriedade, que janeiro é mês de inverno. Já os mais bem abastados pediam para tirar foto conosco em seus modernos smartphones. Acostumamos-nos aos olhares curiosos, à indiscrição, aos indianos que se aproximam para ouvir nossas conversas ou ler o que estamos lendo, ao barulho e cheiro das ruas.

Achar banhos quentes não é tarefa fácil, mesmo em hotéis nobres. Além disso, baldes e canecas para banho são mais comuns do que chuveiros. Os dias sem banho, de pele oleosa e mal cheiro nos deixa mais humildes e menos vaidosos. As preferências mudam. Tornamos-nos menos materialistas em face da fé hindu e do equilíbrio espiritual. No lugar em que homens santos abdicam de todos os bens materiais e dos desejos ilusórios para viver de esmolas, atinge-se a paz de espírito mesmo diante de tanta pobreza e condições precárias de higiene. Entendemos melhor, afinal, o significado da paz - um dos preceitos mais fundamentais da sabedoria indiana - e da não-violência de Mahatma Gandhi. A suástica, que aqui é amplamente evocada em homenagem aos deuses, foi utilizada na Europa como símbolo de uma das maiores atrocidades da humanidade. É um contraponto ingênuo, mas interessante. De fato, nós do Ocidente temos muito a aprender com a Índia e o Oriente.












Abro um jornal e vejo diversos anúncios de matrimônios nos classificados. Procura-se noivos e esposas em uma série de categorias, como religião, casta, divorciados e viúvos. Geralmente era o patriarca da família que oferecia a mão da prole em casamento. Nos anúncios havia uma breve descrição física dos pretendidos, altura, peso, nível de escolaridade, ano de nascimento - algumas vezes o dia e a hora também - e um e-mail para troca de fotos. Em Jaipur, tive a oportunidade de conversar com uma moça que afirmava ter dois namorados: um de amor e um da família. O de amor era aquele por quem se apaixonou; o de família, o que os pais escolheram para buscar uma aliança. Segundo ela, uma união com o último seria improvável, uma vez que ele seria um homem sério e nervoso, enquanto ela, alegre, que gosta de cantar e dançar. Disse que o namorado de amor, independente de casta, era melhor para sua felicidade, todavia pior para sua família. O consenso que chegou foi de que sua família escolheria o noivo, mas dependeria de sua aprovação.

Tais são as mazelas de uma sociedade extremamente tradicional e patriarcal. Visitei casas em que as mulheres eram impedidas de sair e trabalhar pelos maridos. Vi pessoas se contorcendo para não esbarrar em outras, mal vestidas, provavelmente intocáveis, as castas mais baixas do hinduísmo. Percebi que as relações interpessoais são como o trânsito do país. A suposta intocável parecia não se incomodar com o desprezo dos demais e continuou calmamente seu caminho pela rua. Trata-se de um jeito diferente de compreender o espaço pessoal, de estratificar a sociedade. Apesar de as castas serem segregadoras, parece haver certo conformismo e tolerância entre elas, com cada um sabendo de suas atribuições sociais. Cabe a eles acreditar que serão reencarnados em castas mais altas. O sistema de castas foi abolido oficialmente na Constituição de 1950, contudo a maioria dos indianos não se atreve a rebelar-se contra sua religião e ignorar os deveres que os deuses lhe atribuíram.


Após refazer o caminho das Índias, de Alexandre, o Grande, São Tomé, Marco Polo, Vasco da Gama, São Francisco Xavier, Hermann Hesse e George Harrison, também pude, ao meu modo, recolher riquezas, buscar inspirações, procurar novos caminhos, explorar e ensinar. Em 26 de janeiro, dia nacional da república indiana, eu e mais um grupo de estrangeiros fomos convidados pelo senhor síndico do bairro em que estávamos morando para a cerimônia de celebração à bandeira e ao hino nacional. Em seu discurso, exaltou os esforços de Gandhi e reforçou a importância do dia para os indianos, que foram dominados e explorados pelo império britânico durante cerca de trezentos anos. Explicou as cores da bandeira e os símbolos nacionais. Para nós, estrangeiros, deixou um precioso recado: saiam de seus quartos e andem pelo nosso bairro, Jai Jawan Colony II. Queremos aprender com vocês e esperamos poder lhes ensinar alguma coisa. Depois, chamou um de nós ao palanque para contarmos algo sobre nosso país, para que cantássemos alguma canção. Tomei coragem e fui. Consenti com o fato de sermos vítimas do imperialismo europeu e agradeci, em nome da espécie humana, todas as contribuições do conhecimento indiano para a humanidade. Com a bandeira indiana em mãos, cantei o meu hino nacional, ouvido de pé por todos. Recebi um abraço do senhor e ouvi dele que Índia e Brasil são nações irmãs. No final daquele dia, tomamos um chá em sua casa. Foi a pérola que faltava à minha estadia na Índia.

Em algum momento entre uma viagem montado em um camelo e em um elefante, entre um trem lotado e um ônibus público, na estrada entre Agra e Varanasi ou entre um tuk-tuk e um rebanho de ovelhas, percebi que todas as marcas das pancadas que sofri ao desembarcar na Índia haviam se cicatrizado. Agora elas se manifestavam por todo meu corpo e em minha alma. Faziam parte do meu novo eu e jamais sairiam de mim.

Nunca foi tão duro ter que deixar um país. Saí, contudo, com a certeza de que voltarei logo. Ao lugar onde a ordem lógica é invertida, o início, o meio e o fim são simultâneos, resta-me apenas dizer até breve. De volta à terra natal, recorri, pois, aos livros, para continuar a aprendizagem com a sabedoria hindu. No conforto do lar e com o distanciamento de milhares de quilômetros, pude voltar a me concentrar em uma leitura.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ir devagar, chegar longe

A vista de dentro


Na estrada estamos em constante contato com um dos melhores prazeres da vida: a paz e o silêncio de nossa própria consciência. Divertimos-nos com o mundo e com os pneus dos carros girando, com as árvores passando depressa, com a cor do céu mudando, assim como os sons da rua ou de nossos fones de ouvido. Não temos pressa, ocupamos nosso tempo pensando no quão fascinante é se deslocar por terra; ter uma passagem e apenas ir. Observamos todas as formas de vida que surgem e somem deixando apenas uma primeira impressão. O tempo e o espaço se demonstram relativos: os carros em sentido oposto passam como relâmpagos, enquanto que, em nossa direção, ultrapassamos e somos ultrapassados quase que sem perceber.

No Nepal, pegar a estrada é uma experiência singular. O país é pequeno e as distâncias são curtas. No entanto, a geografia montanhosa, somada a intensa atividade rural no interior, tornam as velocidades médias baixas e as viagens longas. Aos pés do Himalaia, as estradas são sinuosas, estreitas e andamos por dentro das nuvens, em longos trechos de neblina. Uma viagem de 160 km pode durar cerca de 6h. As vidas rural e urbana são muito próximas, de modo que as rodovias desempenham um papel importante na vida dos nepaleses, que têm suas atividades adequadas à beira da estrada.

Para dirigir aqui é necessário muita perícia e coragem. As vias são apertadas e em diversos pontos não há espaço sequer para dois carros. Desvios para um acostamento arenoso e pedregoso são frequentes e necessários. Subimos e descemos montanhas beirando precipícios, protegidos apenas por pequenas pedras que funcionam como guias protetoras e que, contudo, não nos oferecem muita segurança. Além disso, em plena rodovia nacional, o trânsito é compartilhado por crianças disciplinadamente uniformizadas caminhando para a escola, agricultores carregando sua colheita como podem, pastores guiando seu rebanho, famílias inteiras sendo carregadas em uma moto, filas de caminhoneiros cruzando o país, ciclistas indo de uma vila a outra, pescadores vendendo sua pesca.

Os rios vindos do Himalaia mostram os caminhos de menor declive pelas montanhas, e a estrada segue o curso das águas. A natureza surge nas mais variadas e belas formas. As montanhas vão tocando o céu, enquanto árvores nos afunilam em verdadeiros túneis naturais. Picos nevados aparecem aos poucos e timidamente. Crianças passam com seus igualmente juvenis cabritos, e a mãe galinha protege seus pintinhos sob suas asas. Até o que não tem vida passa a ter: caminhões coloridos trazem um revigorante ânimo às estradas. Fantasiam-se com símbolos e deuses hinduístas; são atrações à parte. Amontoam-se em postos de venda de enfeites e se vestem como se fossem para um encontro romântico.

Nesse fervedouro de cores e vida, o tempo para. A frase mais comum nos para-choques dos caminhões é "Slow drive, long life". Nenhuma outra poderia ser mais adequada. Anda-se devagar, mas sem se adiantar à ordem natural, ao tempo da natureza. As rodovias do Nepal têm vida própria e sempre nos convidam, com um imenso sorriso, a fazer parte de seu organismo. Não por acaso, os nepaleses são exemplos de simpatia, paciência e gentileza. Não tenhamos pressa. Por que não fazemos na estrada?  




   










quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre sorte, fé, felicidade e paz

“Muitas sementes caíram em terreno pedregoso e mesmo aí brotaram; mas veio o sol e, como não tivessem raízes mergulhadas no seio da terra, as plantinhas morreram. Outras caíram entre espinheiros e os espinheiros abafaram as plantinhas vindas dessas sementes.”
Caminhando pelas apertadas ruas de Kathmandu, sou parado por um vendedor de lembrancinhas, que insistia para que eu comprasse enfeites budistas para espelhos de carro. Após minhas primeiras recusas, ele reduziu sucessivamente o preço de seu produto, alegando serem tais artefatos causadores de boa sorte, não de lucro. Supersticioso que sou, terminei por comprar algumas unidades de sua mercadoria a um preço bem abaixo do valor inicial. 

Saí da quitanda não apenas com os enfeites na bagagem, mas também com a seguinte objeção: o que seria a religião, senão uma superstição? Fui para o Nepal com um conhecimento medíocre sobre o que é o budismo, e agora confiava em sua simbologia para me trazer sorte. Pensei: usufruir de simpatias almejando sorte é, também, uma forma de acreditar em Deus; um gesto análogo à reza. Esse tema perdurou durante toda viagem.

A propósito, em minha estadia no Nepal, sem dúvida foi no Chitwan National Park que precisei contar mais diretamente com a sorte. O parque dispunha de uma exuberante vida selvagem, que incluía rinocerontes, veados, javalis, crocodilos, o exótico garial, além de centenas de espécies de aves. O objetivo principal e declarado, contudo, era caminhar na selva para avistar tigres, animais muito tímidos e discretos. Parti empenhado para as expedições, senti-me um predador atrás da presa. 

A vida selvagem em seu habitat natural é muito pouco amistosa: fotografar os animais foi uma tarefa árdua: se camuflam no meio da mata e percebem nossa presença muito melhor do que nós a deles. Ainda assim, consegui chegar realmente perto de alguns rinocerontes. Enquadrar o corpo inteiro de um em uma foto era na prática impossível, e a lente da câmera teimava em focalizar apenas alguma das centenas de folhas entre eu e meu alvo. De perto, o animal revelou sua dupla faceta, dócil e amedrontadora. Dócil por ser herbívoro, solitário, de certo modo sonolento e com uma visão não muito sofisticada; amedrontador pelo seu incrível tamanho, aparência dinossáurica, chifre sempre em riste e expirações altas e assustadoras. Foi um encontro marcante e excitante que, infelizmente, não tive com o tigre.


Eu poderia atribuir, como costumam, o não encontro com o tigre à falta de sorte. Estava, todavia, tão entusiasmado com a vida selvagem, que jamais poderia estar em um momento de azar. Um tigre precisa caçar e sabe seguir suas presas. Suas presas, por sua vez, dispõem de qualidades imprescindíveis para identificar a presença de um predador. Após alguns dias na selva, amadureci um pouco meu conceito de sorte: no mundo selvagem não existe sorte ou azar. São oportunidades que surgem, e terá êxito quem as aproveita melhor. O tigre foi melhor em fugir das lentes de minha câmera do que eu em seguir seus rastros. 

Os dias no parque me deixaram feliz, e descobri que também a felicidade é um tipo de sorte. Quando desejamos boa sorte, implicitamente desejamos felicidade. Em alemão, por exemplo, as duas qualidades são a mesma palavra, Glück. A despeito da religião, a felicidade é, em síntese, o que se almeja atingir. No budismo o alvo é chamado de Nirvana, a cessação dos sofrimentos. Em nossa busca espiritual, somos orientados a fazer as coisas certas em vida para que possamos desfrutar da suma felicidade em outro plano. Trata-se, novamente, de escolhas e oportunidades, não de acaso. Devemos fazer o bem, e espalhar amor e compaixão para termos sorte na vida e, por que não, na morte.

Sentado em uma ghat em Varanasi, na Índia - escadarias que levam até as águas sagradas do Rio Ganges -, aprendi o conceito mais valioso desta caminhada: podemos acreditar em Deus por diversos caminhos. A força suprema, acreditam os hindus, criadora do universo é, afinal, uma só. Quando perguntei se eu poderia me tornar hindu mesmo não nascendo na Índia e, tampouco, em berço hindu, responderam-me que todos os homens são iguais, e o importante seria acreditar em Deus, independentemente do modo como se acredita. Descobri, também, que na labiríntica divisão de castas, religiões como o Cristianismo, Budismo e Islamismo têm seu lugar. Aparentemente segregadora pela hierarquia das castas, descobri no hinduísmo uma tolerância jamais vista em qualquer outra religião.

Lumbini: cidade natal de Buda, onde se localiza a chama das Nações Unidas. Símbolo da paz mundial
Peguei emprestado uma página de uma leitura passageira para fechar esse pensamento sobre sorte, fé, felicidade e paz. O livro se chamava "One God" e, analisando as mais diferentes formas de crer em Deus, propunha-se a dividir a religião do seguinte modo: aqueles que creem, e os que não. A religião é tão simplesmente uma forma de se buscar a paz, a felicidade, a prosperidade e a compaixão. É, de fato, uma superstição, uma forma de ter sorte e de se preocupar com o seu bem-estar e com o de sua espécie.
"Todas as religiões falam de bem-estar humano. O Sanatan Dharma, por exemplo, em certo ponto declara:
Devem todos viver com felicidade; devem todos se distanciar de ilusões e desilusões e olhar a beleza. Ninguém deve sofrer.
O Dhammapad diz: 
'Animosidade nunca acaba com animosidade nesse mundo; animosidade pode apenas ser curada com amizade - esse princípio eterno.'
 A Bíblia reforça:
 'Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem'
O Koran Majid afirma:
'Bem e mal não são similares. Você responde ao mal com o bem. Então, mesmo que haja alguma animosidade entre você e o outro, ele se tornará seu amigo.'"
Em suma, a função da religião em nossas vidas é nos trazer felicidade. Podemos crer em Deus da forma como nos for mais conveniente: sendo nós sua própria imagem, sendo um elefante, um macaco, uma vaca, um astro do Rock, um militante dos direitos humanos, um antigo príncipe, as águas de um rio, um grão de areia. Eu prefiro apenas crer, pois, em minhas jornadas solitárias, sinto-me confortável em olhar para o céu e dizer "por favor" ou "obrigado". Procurar fazer apenas o bem e trazer a paz e felicidade são os preceitos que sigo em minha vida, e também os que as mais diversas religiões pregam. Minha religião é acreditar; faz bem e não custa nada.     

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um momento de desencontro

Que maravilha os aviões. Li, ouvi música, distraí-me e fui parar no outro lado deste admirável mundo. Nas 17 horas mal dormidas de viagem, dividida em dois trechos, tive tempo de analisar com calma cada pensamento que me ocorreu. Em o "Lobo do Mar", romance que escolhi para ilustrar esta jornada, o protagonista, em um barco, discorre sobre o que ele chama de divisão do trabalho. Segundo ele, é em razão dessa divisão que podemos ocupar nossa mente com o que nos for conveniente enquanto estamos em trânsito. Assim, eu, desprovido de qualquer conhecimento de aviação e sem me preocupar com as leis da Física que fazem o avião voar, cruzei o mundo em um, procurando apenas lidar com minhas ideias sob a imagem das nuvens do deserto de ar que estava percorrendo. 

Rumei do ocidente para o oriente e meu primeiro desencontro foi com o Sol. Naquela noite, eu não o esperaria vir até mim. Com meu avião, voava em sincronia com o sentido de rotação da Terra, e nos aproximávamos mais rapidamente. Antes que a luz natural entrasse pelas beiradas da janela de meu quarto, permiti que ela entrasse pela janela do avião, em um caloroso encontro de machucar os olhos. Na harmoniosa monotonia da paz celestial, a simplicidade do Sol de cada dia é incompreensível; ele apareceu, para mim, em uma forma tão complexa, que nossa interação foi impossível.   

O derradeiro desencontro, contudo, foi a discordância entre o desejo de vagar, que me trouxe à estrada em pleno primeiro dia do ano, e a saudade de casa. O que teria me motivado a estar em posição tão indefesa, diante do amedrontador planeta Terra, em uma época do ano de renovações, mas de apego à família e aos velhos amigos? Enxerguei uma pista para essa questão em uma interpretação otimista de uma fala de Lobo Larsen, anti-herói de meu livro de cabeceira: "o que tem sorte prolonga seu movimento por mais tempo - eis tudo. Move-se para que possa comer, e come para manter-se em movimento. Eis tudo. Mantê-lo em vida." Em suma, estamos no mundo para nos movimentar.


Em tempo, descobri uma nova diversão. Com a imaginação exaltada que me impediu o sono, acompanhei por horas o trajeto que o avião fazia. Voltei a minha infância, quando adorava rodar o globo terrestre com meus pequenos dedos, observando a localização de cidades e países. Agora, em tamanho real, eu passava por cidades como Viena, Praga e Budapeste, olhando suas respectivas luzes pela minha janela. Vi o Sol nascer - bem menos agressivo -, cruzei desertos, passei pelo Afeganistão, Paquistão e, então, desembarquei na Índia, meu destino final. Talvez, me divertir com o mapa foi o mais próximo que cheguei de meu encontro pessoal.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Em fuga

Preso entre quatro paredes, mantido ali dentro para sempre. Tenho medo de jamais ver alguém como a senhora, mamãe. Resolvemos agir. Introduzimos guitarras e sintetizadores ao cântico. Então fazemos preces mantendo o andamento da canção. Se um dia eu sair daqui, doarei meu dinheiro à uma caridade registrada e brindarei uma caneca de cerveja por dia; se um dia eu sair daqui, minha vida será diferente. Um som de orquestra nos confere contornos épicos e indica o otimismo da nova fase de nosso hino. Pulamos o muro, saímos de nosso confinamento e agora todos nos procuram. O carcereiro e o marinheiro não nos encontraram. O agente funerário se preocupa com nossa ausência. O ressentido juiz do Condado, por sua vez, não tem ninguém para julgar. Porém nunca nos encontrarão. Somos a Banda em Fuga e estamos nos divertindo.

No dia 25 de novembro encontrei Paul McCartney, o idealista de Band On The Run, da Banda em Fuga. Na metade final de sua apresentação, introduziu os serenos acordes iniciais da canção, que duraria cerca de cinco minutos. Naquele momento fui convidado a olhar dentro de mim mesmo. Tive que viajar em meu interior com os pensamentos que a música me trouxe. Ouvi o álbum homônimo exaustivamente ao longo do ano. Entre tantas idas e vindas, com tantas horas na estrada, Band On The Run foi minha trilha sonora dos últimos tempos, em que minha vida mudou drasticamente. 


Cabe aqui, a princípio, conversar sobre a composição do álbum, fonte de inspiração deste texto, e sobre as circunstâncias em que foi produzido. No ano de 1973, passada a comoção após a dissolução dos Beatles, Paul McCartney precisava se superar. Nesse caso, sua tarefa não seria das mais fáceis: competir consigo mesmo; com o Beatle Paul, seu passado recente e de extremo sucesso. Essa superação significava entrar no mundo real, sair do sonho que há pouco acabara. Ele, que permaneceu na banda dos 15 aos 28 anos, afirmava não saber ser outra coisa além de um Beatle. Teve que se reinventar e se adaptar às circunstâncias. Passou dias difíceis e sem muita perspectiva, isolado em uma fazenda na Escócia, procurando formar um porto seguro com a família que estava montando. Alcançou certo sucesso com algumas composições. A redenção, contudo, só veio com Band On The Run. Para produzir o álbum, decidiu sair da mesmice da Inglaterra e partiu para um lugar deveras exótico: Lagos, na Nigéria. Com esse distanciamento, pode se concentrar na sua arte e encarar seus novos desafios. Foi sua fuga. Concebeu um álbum de alta categoria - impecável da arte da capa ao repertório - um dos definitivos do Rock, cujas músicas dialogam entre si. Foi também sua autoafirmação. Teve a certeza de que era capaz de compor como compunha nos tempos de Beatles. Passou a ser McCartney, não mais Lennon-McCartney.

Enquanto eu viajava ouvindo Band On The Run no em minha vida antológico dia 25 de novembro, percorri por todos os caminhos que me levaram à minha própria fuga. De repente o cenário de minha vida mudou e eu não morava mais na casa de meus pais. Eu arrumava a mala para o que parecia um passeio comum, mas, quando percebi, estava me mudando de cidade. Meu mundo cresceu e minha quilometragem aumentou. A rodovia Imigrantes era a rua de minha casa, e a Presidente Dutra, a avenida do meu bairro. Eu estava, agora, em Santos. Minha noção de distância se alterou. Percorrer duas quadras na pequena cidade de Santos parecia demasiadamente maior do que no Rio de Janeiro. Por outro lado, os 500 km que separam as duas cidades se demonstraram desprezíveis diante do mundo que se estendia diante de mim.

Paul é um velho amigo, de longa data. Vimos-nos presencialmente em duas ocasiões: em 2011, no Rio, e agora em 2014, em São Paulo. Lembrei-me de quão bom é ter uma predileção quase exclusiva por um grupo seleto de músicos. As mesmas melodias nos remetem a mais de um momento de nossas vidas, e podemos fazer uma autocrítica de nosso amadurecimento. Como afirmou certa vez o Bruxo do Cosme Velho, cada estação da vida é, afinal, uma edição que corrige a anterior e que será também corrigida. A obra final, no entanto, é uma só. O menino que ouvia The Long and Winding Road  memorando um passeio de bicicleta no interior da Baviera é o mesmo que ouve a música percorrendo as longas e tortuosas curvas da estrada de Santos. A maneira de assimilar os sons, contudo, é diferente. A música possibilita navegarmos por diversas edições do livro que conta a história de nossas vidas.


O menino de outrora, com efeito, não havia percebido que a estrada a que Paul se refere em sua canção, ao mesmo tempo que deixa uma poça de lágrimas, guia-nos até novas portas. Estamos agora diante do enigma da fronteira. Atravessá-la consiste em, necessariamente, deixar algo conhecido e rumar em direção ao novo. Nosso dever é deixar legados que nos permitam ser sempre bem-vindos ao nosso local de origem, e construir bagagens que possam nos levar aonde bem entendermos. Para decifrar o enigma é necessário compreender que a fronteira, na maioria das vezes, não é física. São circunstâncias da vida que indicam a hora da mudança, de fuga da inércia, de enfrentamento de desafios. Transpor a fronteira é explodir as guitarras em Band On The Run.

A viagem introspectiva que fui convidado a fazer estava acabando, assim como os cinco minutos da canção. Já havia passado pela primeira parte, de medo do cárcere. Os acordes serenos sublimavam toda a obscuridade daquela condição. Devemos tomar cuidado com as impressões; a parte mais calma da música era, também, a mais sombria. Do mesmo modo, adentrei à segunda parte, da fuga propriamente dita. A parte mais curta e intensa. Das adversidades, ficou claro que sempre há, a um pequeno passo, uma possibilidade de ação. Agora eu desfrutava da última parte, brindando uma cerveja por dia.


Voltei, então, para Santos e troquei o som de Band On The Run pelo estrondo das buzinas de navios que se aproximavam do porto, que irrompem em notas baixas como na Quinta de Beethoven. Sons igualmente prazerosos. Admirava o mar sem fim, o mesmo que banha o Rio de Janeiro, a África, Europa e toda a América. Do horizonte, observava navios vindo de muito longe chegarem, trazendo consigo seu som, dispersado aos quatro ventos em todas as entranhas da cidade. Meu veículo era apenas uma bicicleta. Com ela eu estava em constante contato com o meio; andava com o vento tocando o rosto, trazendo cheiros e sensações dos lugares por onde eu passava. Não precisava mais de muito. Estava me divertindo, e ninguém mais poderia me encontrar. Como na canção, eu acabara de me tornar um fugitivo.

If I ever get out of here, if we ever get out of here

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cinema, aspirinas e urubus


Contra todos os males do sertanejo


Essa história é contada sob dois pontos de vista. De um lado, um alemão se reinventa no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Do outro, um sertanejo busca meios de tentar a vida. A interseção entre esses dois planos de fundo ocorre nos sertões de Pernambuco. Para um, lugar deleitoso de paz, inocência e renovação; para outro, lugar a ser deixado, matriz de desgraça e sofrimento.

Há três meses dirigindo pelas estradas de um Brasil ainda primitivo, o alemão Johann, com sua caminhonete, vende medicamentos dispondo de uma poderosa propaganda: o cinema. De vila em vila, ele exibe curtas cenas do polo de modernização do Brasil na década de 40, o eixo Rio-São Paulo, para uma população que nunca teve a possibilidade de se desprender de sua terra atrasada. Ao fim de cada exibição, a aspirina, remédio para dor de cabeça de patente alemã, prometia acabar com todas as dores do ser-humano.

Nesse contexto, o pernambucano Ranulpho, conhecedor das veredas do sertão, oferece seu serviço ao alemão em troca de carona. Apresenta-se com a ambição de chegar ao Rio de Janeiro.
-O senhor vem da onde?
-Da Alemanha.
-Perguntei de onde o senhor começou essa viagem, de onde o moço vem com esse caminhão, não de onde o moço é.
-Comecei no Rio de Janeiro.
-Eu vou para onde o moço veio, tentar a vida. Cansei desse lugar aqui, desse buraco. O senhor parece cansado.
-São três meses de viagem, e agora esse Brasil parece que não acaba nunca.
-Lugar que não presta é assim, demora pra acabar.
Um acordo de cavalheiros é firmado e uma amizade começa de modo tímido e com certa desconfiança. Ranulpho permanece inquieto sobre os reais efeitos do remédio. Afirma que naquela terra só se vende o que mata a fome do povo. Na primeira parada de sua jornada, após a primeira exibição do filme que presencia, contudo, fala, encantado, que é como vender Bíblia para Satanás. Ao mesmo tempo em que se entretém com um mapa do gigantesco Brasil, pergunta a Johann se cinema de verdade também é feito no meio da rua com dois pedações de pau.




Enquanto Ranulpho se deslumbra com o cinema, a parafernália e o automóvel de Johann, o alemão fica curioso com uma convocação, na rádio, de voluntários para o trabalho de seringueiro na Amazônia. Faz muitas perguntas ao sertanejo, que desdenha dos "soldados da borracha". Segundo ele, o governo explora os miseráveis do Nordeste para que possa vender borracha para os Estados Unidos usarem na guerra. Ranulpho retruca com novas perguntas sobre o serviço de Johann. Indaga se é necessário ser alemão e ter estudo.
-O trabalho é bom?
-É, a viagem é a melhor parte.
-Já foi pra onde?
-Quase o Brasil todo.
-É, já vi que o negócio do moço é viajar mesmo. Gosta até de viajar para esse lugar infame.
-E o senhor, viaja muito?
-Viajo só a trabalho. É isso é ponto. O que o senhor acha de tão interessante em um lugar miserável como esse?
-Nunca estive em um lugar assim.
-Aqui é seco e pobre.
-Pelo menos não caem bombas do céu.
Após algum tempo de viagem, Ranulpho procura afastar de si o carma do sertanejo. Em conversa com Johann, reclama das constantes paradas para carona, ao que responde igualando-o aos pedintes. Não fosse o pedido de carona, afinal, Johann e Ranulpho não teriam se conhecido. Em uma das tantas pausas, conhecem uma moça que saía de casa após ser expulsa pelo pai embriagado. Iria até a próxima cidade pegar um trem para Recife, onde vivia sua irmã. A moça desperta o interesse dos dois rapazes, que entram em conflito pela primeira vez. Após uma exibição do filme e conversas sobre a felicidade ilusória do cinema, o alemão vence a disputa pela moça. Na manhã seguinte, enquanto ela sumia na Caatinga, Johann e seu fiel escudeiro, cabisbaixo, seguiam seus caminhos. Ranulpho via no alemão e em seu maquinário a imagem do que gostaria de ser.

Uma picada de cobra deixa Johann próximo a morte. Ao mesmo tempo, a rádio anuncia o bombardeio de um navio brasileiro por submarinos nazistas. Em seu leito, Johann pede para que Ranulpho conte uma história, que, quando percebe que Johann adormeceu, decide contar a história de sua própria vida, a única que conhecia. Inicia-se o belo monólogo sobre o drama do sertanejo.
"Penei mas cheguei lá, na capital. Quando a fome bateu eu voltei. Fiquei com medo de morrer de fome. Pensa que levar uma derrota nas costas é triste? Também, lá é assim, nordestino só serve de mangação. Juntava o povinho todo e ficavam falando: 'fala aí de novo, rapaz', 'mais um paraíba', 'é verdade que você bota a peixeira embaixo das calças que nem cangaceiro?', 'você come calango?'. Aí eu abaixava a cabeça. Agora não, agora vai ser diferente. Agora vou chegar e falar assim: 'como é, rapaz? Grita aí de novo... calango? Como calango como como o cu da sua mãe, filho da puta!' Eu vou pegar a carteira de trabalho assinada com a fábrica da Aspirina e mostrar na cara dele assim. Depois vou mandar uma carta para minha mãe contando do novo funcionário da fábrica. Ela vai abrir e ler para todos os moradores de Bonança ouvir."
Na cena seguinte, Ranulpho, sozinho, liga o equipamento de montagem cinematográfica do alemão e usa sua própria mão como anteparo para assistir às imagens do Rio de Janeiro, alvo de sua jornada.



Em um decreto do dia 31 de agosto de 1942, o governo brasileiro de Vargas declara guerra à Alemanha e seus aliados. A empresa Aspirina, assim, é interditada e seus dirigentes condenados à prisão, que determinaria a permanência em campos de concentração no interior de São Paulo ou a deportação. Como numa brincadeira de criança, Johann e Ranulpho se tornam adversários de guerra em um campo de batalha imaginário. É nesse momento que a jornada dos dois tomará contornos distintos.

Diante de uma carta de prisão, Johann pinta sua caminhonete e decide ir disfarçado para a Amazônia extrair borracha. Ranulpho, que era a sombra do alemão, recusa o convite de ir junto e decide traçar seu próprio caminho, na capital.
"Que situação desse povo, perdeu tudo e ainda é obrigado a ir para aquele fim de mundo, eu não quero isso para mim não. Vou enfrentar, vou fazer o que você vai fazer lá na Amazônia, vou fazer meu destino.
E por que não pode ser lá?
Porque meu destino é outro."
Momentos antes de partir para a Amazônia, todos os novos aspirantes a soldados da borracha se reúnem na estação de trem. Ranulpho, após se autopromover durante toda a jornada como superior a seus semelhantes, fica indignado quanto ao modo como os soldados tratavam os sertanejos. Johann, a propósito, agora se juntara ao grupo dos flagelados, castigados. Ranulpho articula uma manobra para despistar os soldados e embarcar o alemão no trem. Em troca, recebe as chaves da caminhonete. Estava realizado.

Perante a estrada que se alongava diante de si, seguiu, sorridente, o caminho que ele próprio escolheu. Com a palma de suas mãos empunhando o volante, e com a ponta dos pés acionando o motor de sua caminhonete, estava livre para ir aonde quisesse.